O letramento midiático é um arcabouço maravilhoso que nos ajuda a visualizar, entender, compreender, diferenciar as diversas construções midiáticas. Ele nos ajuda a ver, por exemplo, que a mídia corporativa brasileira trata a pauta econômica, a economia, de modo bem distinto em contextos e momentos históricos diferentes.

Assim, num período histórico recente, quando tínhamos desemprego na casa de 4,8% (sim, já vivemos essa época) e todos podíamos viajar e comer carne, porque a renda média do trabalhador brasileiro também tinha batido recorde, as manchetes e chamadas nas TVs alertavam para uma perspectiva de “crise econômica” e diziam que “brasileiros temem volta da inflação”, que “apesar da crise…” e alertavam para os perigos de uma grande corrupção generalizada. As cores para esses anúncios eram sempre quentes, para potencializar as emoções. Havia um sujeito agente nomeado como incompetente, o governo federal, e o ministro da economia era personagem garantido em todas as reportagens. E sempre apanhava muito de apresentadores e articulistas. 

Passa-se o tempo, mudam-se os atores. E chegamos a 2021, com o desemprego batendo na casa dos 15%, jovens desistindo de fazer o ENEM porque precisam trabalhar, crise hídrica, carne a 60 reais o quilo, gasolina a 6 reais o litro (chegando a 7), gás de cozinha a R$ 100… pra ficar em alguns exemplos. Nos jornais e TVs, vemos um pouquinho da crise, mas sempre com tons moderados. O fenômeno do desemprego, por exemplo, passa a ser tratado a partir de referências a “emprego sem carteira” ou empreendedorismo (pessoas que saem de casa às 5 da manhã para “empreender” em barraquinhas nas ruas lotadas apesar da pandemia). Além disso, a inflação que agora é real não mereceu colar de tomates, de carne, de óleo, de arroz… só apareceu depois de bastante tempo, em reportagens periféricas. A fome que volta escandalosamente ao Brasil é tratada nos contornos da solidariedade, da doação, da necessidade de suprir a geladeira vazia da dona Maria com doações e amor. Nada contra a solidariedade, de modo algum, mas a fome vergonhosa é um problema estrutural e conjuntural, o Estado tem culpa, o governo federal tem culpa, o ministro da Economia e outros precisam aparecer e dizer o que estão fazendo para combater essa mazela.

Mas agora, neste contexto, eles não aparecem. Eles não falam, eles não são acusados, eles não prestam contas. O Brasil está perdendo investimento estrangeiro. Quem aparece para explicar que isso tem a ver com o desastre da política econômica (se é que existe uma) e do governo Bolsonaro? Ninguém. Nenhuma fonte oficial. 

Vamos pensar nas fontes então. Quem são as pessoas ouvidas para falarem sobre um tema complexo como reforma da Previdência? Economistas do mercado financeiro. Nenhum pesquisador do tema, nenhum sindicalista, nenhum economista com outro ponto de vista. Ou seja, aquela voz – a do mercado – é a única voz a dizer sobre o tema para milhões de brasileiros, que passam a achar boa uma proposta de privatização em que eles serão prejudicados, e muito. Uma voz enviesada, que fala de um lugar e a partir de pontos de vista e interesses específicos. Mas que é apresentada como voz de autoridade que explica a reforma. Pluralidade na construção da informação é essencial para a formação do pensamento crítico, para as escolhas que fazemos, enfim, para a cidadania.