Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

PETROBRAS NAS REVISTAS

Na semana em que Jair escancarou que não tem nada de liberal e que não tem medo nenhum de determinar ações nas estatais quando e como quiser, a imprensa brasileira ficou em polvorosa. Vou mostrar capas de quatro revistas com maior circulação no país pra discutir um ponto muito importante na produção e na circulação da notícia: a pluralidade de vozes. Vamos lá:

As três primeiras – Veja, Época e IstoÉ – trazem em destaque a questão das ações de  Bolsonaro em relação à  Petrobras; a Carta Capital destaca o caso da compra de cloroquina (medicamento ineficaz contra Covid) pelo governo federal. 

CONTEXTO: Semana em que o presidente Jair Bolsonaro intervém na estatal , demitindo e nomeando e interferindo na política de preços. Semana em que o Brasil rompe a barreira de 250 mil mortos pela Covid e em que a situação já se coloca sem controle.

Portanto, os dois temas em destaque são muito relevantes no espectro político, econômico e social do Brasil. E vamos lembrar que notícia é um objeto construído que obedece a um processo de seleção – o editor (obedecendo à linha editorial) escolhe e seleciona o que e como vai abordar, destacar, enfim. Três revistas

ENQUADRAMENTO 1 (Petrobras): Veja, Época e IstoÉ colocam o tema Petrobras – que é amplo, complexo, tem várias nuances – dentro de um determinado quadro, que é a “intervenção” do presidente, do Estado, numa empresa estatal. Ou seja, abordam a questão a partir de uma visão neoliberal de funcionamento do Estado (não deve intervir, não pode intervir) e de apoio ao livre mercado, sem restrições. Veja e IstoÉ nomeiam a ação do presidente como “intervenção”, e as três fazem alusão à ideia de controle do Estado (“a mão pesada do Estado”, “O Estado sou eu”) – sempre numa perspectiva pejorativa. Prevalece, então, a defesa do mercado sem controle. Esse é UM ponto de vista na abordagem do assunto. Há outros, e eles poderiam estar na capa, mas não estão. Época e Veja não fazem qualquer menção aos 250 mil mortos pela Covid no país. O assunto não mereceu capa.  

ENQUADRAMENTO 2 (Covid): Carta Capital destaca o tema Covid ressaltando que o governo gastou dinheiro público na compra de um “placebo”, um medicamento ineficaz no combate à Covid, e lança vários pontos de interrogação para o leitor ao chamar para “O misterioso caso da cloroquina”. A capa da revista faz afirmações sobre o medicamento e a Covid e nomeia atores (Pazuello e Bolsonaro) como responsáveis. É uma escolha, uma decisão editorial – e entre a Petrobras e a Covid que se alastra, preferiu destacar a segunda, mostrando novos elementos. O tema Petrobras merece chamada, mas observem que o enfoque é bem diferente das outras três.     

Voltando à questão da pluralidade de vozes, que mencionei no início, por que ela importa? Porque, se os cidadãos têm acesso a muitas revistas e muitos jornais que mostram diferentes pontos de vista, diferentes abordagens do mesmo assunto, eles terão condições de formar um pensamento crítico. Mas, por outro lado, se temos acesso a poucos veículos e eles falam todos a partir de um único ponto de vista (das quatro, três ressaltaram a ideia de “intervenção na Petrobras), não vamos perceber, por exemplo, que a imprensa brasileira está defendendo sem ressalvas uma ótica do mercado em detrimento de uma estatal que já foi nossa galinha dos ovos de ouro. Quais interesses regem essas escolhas?

COVID NO JN

O tema Covid volta com força ao Jornal Nacional. Não poderia ser diferente quando o Brasil cruza a barreira dos 250 mil mortos. As matérias têm sido bastante emotivas, com cenas fortes, há muitos depoimentos de familiares de pacientes e de médicos – que marcam o lugar de especialistas a dimensionarem a gravidade do problema. No entanto, há um detalhe a ser observado: mesmo que nas últimas edições o ministro da Saúde apareça dando declarações perdidas e que o presidente Bolsonaro seja mostrado (pouco) fazendo aglomeração e falando bobagem, a dimensão de tragédia tem ganhado espaço, roubando a dimensão política da questão Covid no Brasil. Assim, há muitas imagens e cenas de hospitais lotados e pessoas em desespero, mas isso não é visceralmente ligado a um conjunto de fatores da responsabilidade política da condução do problema pelo Estado, pelo governo Jair Bolsonaro. Atribuir claramente ao governo federal a culpa pela tragédia da Covid no Brasil  é uma decisão editorial. Vamos nos lembrar que o tema “pedalada fiscal” se tornou um mantra e colou no governo Dilma Rousseff pela extenuante exposição na imprensa. Pela construção da notícia, há muitas formas de colocar determinado acontecimento na ordem da tragédia (foge ao controle, não há o que fazer, as pessoas não fazem sua parte) ou na ordem da responsabilidade política (não quis comprar vacina, não tem capacidade de implantar um programa central de combate à Covid, não consegue garantir oxigênio para os hospitais, gasta dinheiro com remédio comprovadamente ineficaz). A decisão editorial é pautada por valores e pontos de vista – então, cabe questionar por que, em determinado contexto político, um tema pouco relevante como “pedalada fiscal” mobilizou tanto e agora, em outro contexto político, a falta completa de ação contra a Covid mobiliza menos.