Foi realizado ontem, quarta-feira, um jantar entre a nata do mercado (que envolve vários setores) com Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Estiveram presentes 18 representantes da fina-flor do capitalismo nacional e representantes da cúpula do governo. Na pauta oficial, discussões sobre a vacinação e a necessidade de impulsionar a economia. Extraoficialmente, posso quase garantir que a pesquisa XP divulgada na segunda-feira, sobre a qual já falei aqui, estava super na pauta.Da Comitiva presidencial, além de Paulo Guedes, também estavam Eduardo Bolsonaro, Ricardo Salles (Meio Ambiente), Fábio Faria (Comunicações); Marcelo Queiroga (Saúde); Roberto Campos Neto (Banco Central) e Onyx Lorenzoni (Secretaria Geral), entre outros. O empresariado teve representantes de vários setores: saúde, comunicação, bancos, lojas de departamentos, rede de shoppings – vocês podem conferir na lista completa ao final.

Vacina e isolamento

Segundo o site Poder360, empresários ouvidos disseram que o combate à pandemia é a prioridade. E ressaltaram que houve um mal-entendido sobre a lei que permite que empresas privadas comprem imunizantes. E eles então pediram ajuda ao governo para esclarecer as coisas. Trocando em miúdos: certamente haverá campanha pesada na mídia para mostrar que a iniciativa privada comprando vacina é uma coisa excelente para o Brasil.

Sobre o isolamento e a possibilidade de lockdown, ainda segundo o site Poder360, o empresário José Isaac Peres, dono da rede de shoppings Multiplan, fez um discurso enfático alinhado a Bolsonaro e disse que não tem cabimento falar em lockdown e que o necessário é o distanciamento social. Jair, empolgado, criticou os governadores e chamou alguns de vagabundos. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, segundo o Poder360, disse que o lockdown “não faz sentido no Brasil “porque a própria população não adere a essas práticas”. Ou seja, lockdown numa pandemia sem controle não é uma prerrogativa do Estado, mas uma questão de adesão da população. E da avaliação de donos de rede de shopping centers. E, como não podia deixar de ser, o ministro fez todos os acenos à iniciativa privada.

Grupos de mídia

Representantes do SBT, CNN, Jovem Pan Grupo Alpha comunicação estiveram presentes. Johnny Saad, da Band, foi convidado, mas disse que estava com tosse e não participou. Nenhum representante da Globo estava presente, o que é bem sintomático, nem da Record, o que é bem estratégico. A Record já é parceira, não precisa de convencimento. A Globo não está bem na fita, não será parceira, e essa ausência é interessante. Tomara que endureça nas críticas (mas a aliança com o Google, levando sua programação para a plataforma digital, migrando sua programação para a Globoplay, pode ser sem dúvida uma estratégia prevendo problemas com Jair. A ver).

Empolgado com Jair, o empresário Rubens Menin – dono da CNN Brasil, da MRV e do Banco Inter – disse, após a reunião, segundo o Uol, que foi uma conversa muito boa com o presidente: “Eu gostei, me deu tranquilidade”. Se o dono da CNN está tranquilo com Jair, vocês deduzam aí como será a cobertura a partir de agora. Ele também ressaltou que a reunião foi de “alinhamento”, não de “confusão”. Perfeito para termos informações cada vez mais imparciais e críticas. Aliás, é bem interessante que numa reunião de empresários, a nata do capitalismo, os grupos de mídia estejam presentes com tanta desfaçatez, sem nenhum pudor. O que foram discutir? Suavização das críticas? Campanhas mais contundentes de convencimento? Mudança na imagem de Jair? Muito mais verbas?

Bem, Bolsonaro prometeu acelerar a vacinação, mas não deu detalhes. Claro, com a possibilidade de a iniciativa privada comprar vacina, isso deixa de ter relevância e agrada o capitalismo, que pode vacinar parte da mão de obra e colocar tudo funcionando, além de poder lucrar com a comercialização do imunizante. Um outro empresário, também de acordo com o Uol, disse que Bolsonaro foi “ovacionado” após falar. Um presidente que carrega a marca de mais de 340 mil mortos, sem vacina, com várias cepas se reproduzindo e é ovacionado.Enfim, ao que parece, não haverá medidas de isolamento mais duras, tampouco lockdown, e o Brasil caminha célere e triste para os 5 mil mortos em um dia. E com a possibilidade de vacina privada.

LISTA DOS PRESENTES (SEGUNDO SITE PODER360)

• André Esteves (BTG); • Alberto Leite (FS Security); • Alberto Saraiva (Habib’s); • Candido Pinheiro (Hapvida); • Carlos Sanchez (EMS); • Claudio Lottenberg (Hospital Albert Einstein); • David Safra (Banco Safra); • Flavio Rocha (Riachuelo); • Luiz Carlos Trabuco (Bradesco); • João Camargo (Grupo Alpha de Comunicação); • Jose Isaac Peres (Multiplan); • José Roberto Maciel (SBT); • Paulo Skaf (Fiesp); • Ricardo Faria (Granja Faria); • Rubens Ometto (Cosan); • Rubens Menin (MRV, CNN e Banco Inter); • Tutinha Carvalho (Jovem Pan); • Washington Cinel (Gocil).