Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Ontem, 16 de setembro de 2021, a jornalista Natuza Nery, na GloboNews, chorou ao comentar uma reportagem que mostrava a fome no Brasil, mostrava que 27 milhões de brasileiros estão abaixo da linha da pobreza no país. Com muita razão, Natuza disse que “não tem como o Brasil dar certo se essas pessoas não tiverem trabalho e o mínimo de dignidade: a condição de alimentar os filhos”. De fato, a situação é muito degradante, e está visível nas ruas.

Vamos voltar no tempo e lembrar exatamente a data de 16 de setembro de 2014. Naquele dia, a FAO, órgão das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura, declarava que o Brasil tinha saído do Mapa da Fome da ONU. Aquilo pra mim foi maravilhoso – o Brasil resgatava os cidadãos da fome e da miséria por causa das políticas públicas que vinham sendo implementadas, Bolsa Família à frente, e a ONU destacava isso. Claro, havia muito a fazer, mas aquele passo e aquele reconhecimento eram por demais importantes. Nunca me senti tão plenamente satisfeita por ter apostado num projeto político que conseguia algo assim.

E daí veio o meu espanto, a minha incredulidade, a minha indignação porque a mídia não repercutiu isso – nenhum dos jornalões deu destaque na capa, nenhuma chamada (a melhor matéria foi feita pelo Estadão). No JN, a nota sobre o acontecimento “Brasil sai do Mapa da Fome da ONU” mereceu 36 segundos. Na mesma edição, o boletim do tempo teve pouco mais de um minuto. Discuto o silenciamento na minha tese, trabalhando esse exemplo, e quem assistiu aula comigo também já viu bastante esse tema e esses exemplos. Do ponto de vista do jornalismo, não há nenhuma questão técnica que justifique essa escolha, esse arranjo na composição dessa notícia. Somente podemos compreendê-la pensando nos elementos ideológicos e nas relações de poder ocultas que alinhavam a construção de uma noticia. Mas isso é tema pra aula, vamos adiante.

De todas as ações positivas dos governos petistas, o combate à fome e a segurança alimentar são as coisas que mais me emocionam. Numa conversa há alguns anos com um nutrólogo maravilhoso, professor da Faculdade de Medicina, ele me falou dessa saída do mapa da Fome e, com lágrimas nos olhos, disse que as pessoas nã tinham a dimensão do que isso significava, e me explicou. Ele disse que a capacidade cognitiva, intelectual da criança é prioritariamente desenvolvida até os dois anos de idade, e se essa criança não tem os nutrientes adequados, a capacidade intelectual dela fica comprometida – não importa o que se faça depois.

A criança com fome não se desenvolve, não aprende, não tem plena condição de expandir seu potencial. É disso que se trata. Por isso, o Brasil sair do Mapa da Fome foi um avanço maravilhoso, um passo importante no caminho da construção de algo mais digno e justo em termos de Nação. Voltemos a 2021. A pesquisa IBGE divulgada em 2019 mostrou que 104 milhões de brasileiros vivem com 413 reais por mês; hoje, 27 milhões estão abaixo da linha da pobreza, milhares estão vivendo nas ruas. Aqui e acolá, a mídia tem reportado esse cenário, porque ele bate à porta e não é possível mais esconder, mas a abordagem ainda é em tom pastel. A tragédia nacional da fome que volta, da desigualdade que explode, não está devidamente retratada, destacada, mostrada, esclarecida, escancarada. Falar em desigualdade não é mostrar pessoas que lutam – é mostrar, por exemplo, que há pessoas com fome ao mesmo tempo em que São Paulo tem uma das maiores frotas particulares de helicóptero do mundo. Desigualdade não é diferença salarial.

E se a mídia, por muito tempo, tratou a desigualdade quase como questão individual, de superação ou, no máximo, de caridade, isso é profundamente desonesto. Individualmente, ninguém rompe com a desigualdade, isso é fruto de políticas públicas, de ação efetiva de governo, isso é um projeto de país. Projeto que já tivemos. Hoje, chego a duvidar até se temos país. Sou solidária a Natuza, não usei o exemplo dela para críticas, de fato é muito triste pensar no que poderíamos ser como Nação e no que somos efetivamente sob Bolsonaro. Fico profundamente impactada ao pensar em como a riqueza do pré-sal poderia ter sido usada para acabar com a miséria, com a fome. O pré-sal descoberto pela Petrobras, que foi destruída pela Lava Jato com apoio inconteste da mídia.

Enfim, há exatos sete anos, o Brasil saía do Mapa da Fome, tínhamos emprego e renda, e a mídia tratou de silenciar isso tudo. Agora, só resta chorar.