Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

A cúpula tucana tanto fez e jogou tão baixo que João Dória, ex-governador de São Paulo, finalmente decidiu não mais concorrer à Presidência da República. O desejo dos caciques que limaram o pai da vacina no Brasil é de que o PSDB faça uma composição com MDB e Cidadania para lançarem um só candidato da tal terceira via – no caso, Simone Tebet. Ao sair, de acordo com as últimas pesquisas, Doria tem cerca de 3%. Ele apostou alto querendo se cacifar como o grande nome anti-PT, era um ícone da antipolítica, apoiou com entusiasmo o golpe, festejou Lula preso e caiu de amores por Jair, o incomível, na eleição de 2018 – o “BolsoDória” é inesquecível. 

Depois, com a pandemia, entrou em rota de colisão com a ignorância terraplanista bolsonarista. A Cesar o que é de Cesar: não fosse por Dória, o Brasil estaria amargando números ainda mais apavorantes em relação à Covid, e teríamos demorado muito, muito mais a ter a vacina. Deve ser reconhecido por isso, apenas por isso.

Posteriormente, passou a se arvorar como o “nem-nem” da vez – nem Lula, nem Bolsonaro. Apostou de novo de maneira bem errada (como lembra Kennedy Alencar, no Uol) – achou que a pandemia acabaria com Jair e que o Judiciário manteria Lula preso. Nada disso aconteceu: Doria não herdou o espólio de Jair, que manteve a base mesmo com toda a desgraça da pandemia, e pior, passou a ser chamado de traidor pelos bolsonaristas. E antes disso, vale lembrar, Doria traiu Alckimin, que agora caiu nos braços de Lula e de parte do PT.

De fato, a corrosão que Bolsonaro e o bolsonarismo provocaram no espectro político brasileiro é tão grande e danosa que pela primeira vez desde a redemocratização um candidato que vence as prévias partidárias desiste de concorrer – e, pela primeira vez também, pode ser que o PSDB não tenha candidato próprio à eleição.  

LULA NO 1º TURNO

Depois da desistência de Dória, diretores de institutos de pesquisa, como Vox Populi e Quaest, já avaliam como muito possível a chance de Lula vencer no primeiro turno. Segundo o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, Luis Inácio deve ser o beneficiado porque o eleitor de Doria rejeita mais Bolsonaro (77%) do que Lula (62%). A ver.

A MÍDIA E A TERCERIA VIA

A mídia corporativa brasileira é antipetista, tucana e tem sonhado com a terceira via, mas também é pragmática – sabe que mais quatro de Bolsonaro não é um cenário que favorece. A grande aposta, sobretudo das Organizações Globo, era Sergio Moro, que derreteu como bem vimos. Midiaticamente, Doria talvez tenha sido uma aposta mais local, dos jornalões paulistas. Nesse cenário atual do Brasil de economia periclitante e Deus nos acuda, tenho cá minhas dúvidas de que a mídia embarque num apoio louco e desmesurado à candidatura de Simone Tebet 1% – se de fato ela se consolidar como candidata da terceira via. Pode haver um destaque maior, mas, a menos de cinco meses das eleições, não aposto em nada radical.   

PERSIO ARIDA VEM AÍ?

Para alegria de Alckmin e felicidade geral do mercado, o economista Pérsio Arida, um dos pais do Plano Real, colocado em prática por Fernando Henrique no governo Itamar Franco (1993), está sendo cotado para integrar a equipe de Economia da campanha de Lula, para discutir programas e projetos. A GloboNews hoje estava completamente eufórica – Pérsio, dizem alguns outros economistas, é um bom nome. Ele enfrenta resistências de parte do PT, mas é amigo de Alckmin. Se de fato ele estiver na equipe, arrisco dizer que o núcleo mídia abandona de vez a proposta acéfala de terceira via.

GOLPE EM CURSO

Jair, o incomível, não está para brincadeira. Ele está arquitetando o golpe – que não será nesses moldes antigos da truculenta ditadura militar, mas terá apoio de parte da Forças Armadas – de uma forma muito bem alicerçada no sistema de desinformação. A vinda do bilionário Elon Musk ao Brasil pode se ligar a esse aparato e às trocas propostas, não sabemos. De qualquer forma, ele anuncia, enfrenta as instituições e mantém a base com fake news e outros docinhos. 30% é um percentual alto, ele sabe disso e, também desconfio, está sentindo o cheiro de cadeia. Enfim, num eventual segundo turno, rifará o Brasil, se preciso for (ou o tiver sobrado de Brasil).

CIRO SE DESFAZ

O tal “debate” proposto por Ciro Gomes ao humorista Gregório Duvivier foi um enorme, estratosférico tiro pela culatra. Foi um episódio patético de uma figura política que já foi representativa. Ao assistir àquilo, somente fiquei pensando em como Patrícia Pilar – maravilhosa como é – conseguiu ficar tantos anos com ele. Foi de fato uma lástima e acho muito difícil que renda algo positivo. E também acho difícil Ciro abandonar a candidatura para apoiar Lula, deve mantê-la por pirraça. A ver.

Enfim, não creio que a desistência de Dória da candidatura à Presidência da República mexa muito no atual cenário, que se divide de verdade entre civilização x barbárie; Lula x Jair, o incomível. O que não quer dizer que não teremos emoções supimpas até outubro. Teremos, e muitas.