Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN: “Paz, amor e vacina”;  nada de milícia

 

Sem dúvida, a eleição na Bolívia e, principalmente, a pesquisa mostrando o controle da milícia na cidade do Rio de Janeiro mereciam destaue ou abordagens mais completas na edição. Em relação à milícia, ela nem entrou na grade.

Houve destaque também para as pautas de violência e corrupção, com a fraude na compra dos respiradores no Amazonas e o caso do dinheiro na cueca.  

Há alguns pontos interessantes na edição. 

“PAZ, AMOR E VACINA”

Depois de um tempo sem destaque, o governador de São Paulo retorna à evidência no JN. A matéria sobre o governo de São Paulo e a vacina Sinovac, da China, em parceria com o Instituto Butantã, foi a primeira da edição. O tom da reportagem, que teve bastante destaque, seis minutos, foi o de ressaltar a segurança da vacina  e a importância da vacinação. Bonner abriu a reportagem destacando que o governo de São Paulo estava divulgando dados sobre a segurança da vacina “contra a Covid desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantã”. 

E a matéria prosseguiu, então, ressaltando que os índices mostrados são “excelentes”, e os números para confirmar apareciam na tela, bem claros. O diretor do Instituto Butantã também falou, dando vários esclarecimentos e afirmando que a expectativa é de que a vacina seja entregue até o final do ano, passando a aguardar o parecer da Anvisa. Detalhe: em nenhum momento a reportagem se referiu à vacina como “vacina chinesa” – evitou portanto a construção referencial que leva a uma conotação pejorativa (que já circula bastante pelas redes sociais).    

A matéria mostrou outras vacinas em estágio avançado de testes, inclusive a Sputnik, da Rússia, que fez parceria com o Laboratório União  Química Farmacêutica Nacional para transferência de tecnologia. 

Outros especialistas também falaram, destacando os testes avançados e os procedimentos para a regulamentação das vacinas.

E então a reportagem mostrou declaração do governador Doria, de sexta-feira, afirmando que, assim que a Anvisa liberar a vacina da empresa Sinovac, “todos os 45 milhões de brasileiros de São Paulo serão vacinados, e em São Paulo, a vacinação será obrigatória, e adotaremos as medidas  legais se houver alguma contrariedade nesse sentido”. Doria ressaltou que isso era necessário porque, numa pandemia – e disse que tinha aprendido isso com os médicos presentes –, não é possível vacinar alguns e não vacinar outros, pois não se controla o vírus assim.   E destacou que a vacina é uma segurança para toda a sociedade. Na sequência, a reportagem mostrou que na entrevista de ontem (19-10), Doria não falou mais em “obrigatoriedade”. O governador ressaltou que “mais do nunca, o Brasil precisa de paz, amor e vacina para salvar os brasileiros”. E explicou que por ser a favor dessas três coisas, entendia que a vacina deveria ser aplicada em todos os brasileiros. 

OBS: A reportagem e a fala de Doria foram claramente uma contraposição à postura de Jair Bolsonaro em relação à vacina – o presidente afirmou que ninguém é obrigado a ser vacinado e salientou que quem disser o contrário não está pensando. Reportagem sobre essa declaração entrou logo na sequência, com espaço para a fala de Bolsonaro e para especialistas mostrarem a preocupação com o teor das declarações. A reportagem ressaltou que as declarações estão na contramão do que diz a comunidade científica. 

ELEIÇÃO NA BOLÍVIA

A reportagem entrou no quarto bloco e foi bastante protocolar – lembrou que Arce foi ministro da Economia de Evo Morales e citou a declaração dele de que “vai aprender com os erros e governar para todos os bolivianos”. Citou a presidente “interina” e falou na “anulação de outra eleição por denúncias de fraude”, que levaram à “renúncia” de Evo Morales, “pressionado por militares”. Não abordou, obviamente, as articulações do golpe na Bolívia nem problematizou o significado da eleição. Bastante seca a matéria.

VIOLÊNCIA GANHA DESTAQUE NA PAUTA

Destaque para casos de feminicídio – como o do rapaz que matou a ex-mulher e a sogra em São Paulo, que ontem se entregou, e de José Amaro, que também matou a esposa que queria se separar dele.  Abordagens bem detalhadas, mostrando as vítimas, sua história de vida, os acusados, a crescente violência contra mulher no Brasil. O ministro Fux aparece falando sobre o problema e que é preciso combatê-lo. Apenas como observação, no primeiro momento das eleições de 2018, essa pauta voltaram com muita força ao JN.

E destaque também para mais uma vítima de bala perdida nas favelas cariocas, com reportagem de 2 minutos sobre um jovem de 23 anos, estudante de Educação Física na UFRJ, que foi atingido em casa. Bom destaque para a fala da mãe do rapaz. 

MILÍCIAS NO RIO

Nem uma única menção à pesquisa que mostrou que a milícia já controla 57% da cidade do Rio de Janeiro. Mesmo que tenha estado em outros jornais da emissora, foi estranho não ver o assunto ganhar cores e formas em reportagem no JN, um assunto tão delicado e que leva a vários desdobramentos. Portanto, uma decisão editorial no mínimo intrigante.