Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN: indignação pela ausência de dados da Covid | 3.6.2020

Para alegria geral, Renata Vasconcelos volta à bancada do JN sem nenhuma explicação pela ausência – nem sequer referência à nota emitida pela Globo. Também reapareceu o quadro Solidariedade S.A e até o caso Madeleine McCan voltou à cena, após 13 anos.

A edição já começa com um Bonner indignado pela ausência de dados atualizados sobre a Covid no Brasil, até aquele momento, pelo Ministério da Saúde. 

“Hoje o Jornal Nacional não vai começar com os números atualizados de vítimas do novo coronavírus. O Ministério da Saúde informou que, por problemas ‘técnicos’, o boletim só vai ser divulgado às 10 da noite. Os últimos números oficiais, divulgados 25 horas atrás, registram 555.383 brasileiros infectados e 31.199 vidas perdidas”. 

A edição tem outros momentos interessantes, mas nada muito efusivo. Vou colocar algumas observações e, na sequência, a grade para quem não assistiu ontem ao JN. 

1. Na cobertura sobre a Covid que se espalha pelo país – atingindo agora com força o interior – algumas falas reiteradas apontam para a desigualdade muito grande no país – como na primeira matéria desse balanço, que mostra exatamente a região Norte. “No Norte do país, a pandemia tem evidenciado carências enormes, profundas de infraestrutura”, é a abertura de Bonner, para mostrar em sequência  a situação caótica de Roraima, onde pacientes se amontoam em corredores lotados – no Hospital Geral, pacientes da Covid-19 e pacientes com outros problemas de saúde estão misturados. As imagens são bem marcantes, bem fortes, dimensionam muito a tragédia.  Em seguida, o colapso do sistema de Saúde de Natal – “Estamos entregues às traças”, diz a filha de uma senhorinha que ficou horas à espera de atendimento. Depois, o Aqui Dentro, com a fisioterapeuta intensivista Danielle Neiva de Aquino, que faz plantão em dois estados do Nordeste e passa muito tempo em ônibus para ir de Mossoró, no Rio Grande do Norte, a Fortaleza. Chorando, Danielle diz os profissionais de saúde têm medo, mas têm muita coragem também, e fala que tem uma missão: “Nós estamos aqui para a salvar a vida do amor de alguém”.

2. Logo depois do caos e da falta total de assistência chega a notícia de que o presidente Jair vetou repasse de R$ 8,6 bilhões para combate à Covid-19 nos estados e municípios. Esse dinheiro é do Fundo de Reservas Monetárias, que seria usado para pagar juros da dívida. Mas, com a pandemia, deputados e senadores fizeram um acordo com o governo para que o fundo fosse destinado à saúde nos estados e municípios, e a proposta foi aprovada por votação simbólica. Segundo a publicação no Diário Oficial, o veto se justifica com o argumento de que a mudança feita pelo Congresso cria uma despesa obrigatória ao poder público sem indicar o impacto financeiro, violando regras constitucionais. Ou seja, fica bem claro, após a explicação da matéria, de que Jair não dá a mínima para a situação de caos de muitos estados. Ao final, Rodrigo Maia aparece para dizer que ficou surpreso com o veto, em função do acordo já existente, e sinalizou que cabe ao Congresso chamar uma votação e decidir se acata ou não o veto de Jair.

3. Muito destaque para as investigações de fraudes e desvios com a situação de emergência nos estados, com foco no Rio de Janeiro, mas não apenas. Os casos (que inclui até o Consórcio Nordeste) se misturam um pouco no guarda-chuva “fraudes na saúde”, mesmo sendo distintos. E a palavra corrupção, vedete em outros tempos, aparece pouquíssimo (uma vez apenas foi mencionada). 

4. O segundo bloco foi basicamente sobre economia, dimensionando a enorme do setor industrial e insinuando os graves problemas que virão. O ministro da Economia, Paulo Guedes, não é sequer citado, muito menos ouvido, e quem aparece para dimensionar e dar receitas é o economista José Carlos Mendonça de Barros, muito e sempre ligado aos governos tucanos. 

5. O terceiro bloco é aquele momento de defesa de Sérgio Moro numa amtéria de 7 minutos sobre a retomada, pela PGR, das negociações de delação do advogado Tacla Duran, que fez duras acusações envolvendo Sergio Moro quando ainda era juiz da Lava Jato. Na chamada, a referenciação desse sujeito que agora vai delatar – “PGR retoma negociações de delação premiada com advogado foragido Rodrigo Tacla Duran”. Segundo a matéria, “a primeira tentativa de acordo foi arquivada em 2018 pela própria procuradoria e envolveu o nome de um amigo do ex-ministro Sergio Moro, que disse ter ficado indignado com a retomada dos diálogos exatamente após sua saída do governo Bolsonaro”. A matéria então trata de desqualificar bastante o possível delator – bem diferente da ação em outros momentos de cobertura – e de mostrar a indignação do ex-juiz e ex-ministro. Um detalhe curioso: Moro está aparecendo apenas num discurso indireto no JN – ou seja, é citada sua manifestação, geralmente indignado com alguma coisa, aparece a imagem quase sempre sentado numa grande mesa de um escritório refinado, ou a imagem dele em pé, com pose de estadista, mas ele não fala diretamente. Um distanciamento bem intencional, eu diria. A matéria desconstruiu Tacla Duran e evidenciou a nota indignada de Moro. Foi tão evidente a defesa que até o desaparecido e amplamente denunciado pelo The Intercept, Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava jato em Curitiba, apareceu no jornal, numa fala com quase um minuto, para dizer que Tacla Duran mente e que suas declarações são infundadas e que o que se quer é prejudicar a Lava Jato. Quem com ferro fere com ferro será ferido, diz PGR de Bolsonaro a Moro…

6. Relativo destaque apra o relatório, na CPI das fake news, que identificou mais de 2 milhões de anúncios apgos em sites de fake news e até pornografia. O governo apresentou dados parciais, de apenas 38 dias (o mosntante é relativo a esse período). O relatório foi feito por consultores da Câmara dos Deputados com dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. Há verba destinada ao blogueiro Allan dos Santos. O relatório pediu os dados de 11 meses. É sem dúvida um assunto com potencial explosivo. 

7. No estilo “racistas não passarão”, a matéria que fechou o JN, logo após a fala do Papa Francisco condenando o racismo, foi com o garoto Adriel, de 12 anos, de Salvador, que é apaixonado por livros e foi atacado com comentários racistas na página que tem numa rede social para falar sobre leitura. Ele respondeu à altura, disse que tem orgulho de ser negro, e recebeu livros doados por admiradores de todo país. Matéria bem legal, de superação, com 3 minutos. 

GRADE DA EDIÇÃO  

  • Brasil participa de testes de vacina desenvolvida pelo Reino Unido contra o coronavírus
  • OMS retoma testes com hidroxicloroquina para avaliar eficácia no tratamento de Covid-19
  • Pesquisa conclui que hidroxicloroquina não funciona como prevenção contra Covid-19
  • Em Roraima, pacientes se amontoam em corredores lotados à espera de atendimento
  • Sistema de saúde entra em colapso em Natal
  • ‘Nós temos medo, mas temos coragem’, diz fisioterapeuta intensivista que atua no RN e CE
  • Bolsonaro veta repasse de R$ 8,6 bilhões para combate à Covid-19 nos estados e municípios
  • Investigações de superfaturamento e desvios na Saúde atingem pelo menos seis estados
  • Governo do RJ rompe contrato com organização gestora de hospitais de campanha
  • Há um mês, Florianópolis registrou a última morte causada pela Covid-19.
  • Produção industrial tem a maior queda em 18 anos
  • Solidariedade S/A: ventiladores serão entregues ao Ministério da Saúde
  • Governo exonera novo presidente do Banco do Nordeste um dia após a posse
  • PGR retoma negociações de delação premiada com advogado foragido Rodrigo Tacla Duran
  • Governo fez mais de 2 milhões de anúncios pagos em sites de fake news e pornografia
  • Senado aprova projeto que obriga planos a custearem tratamento domiciliar do câncer
  • Novo suspeito pode esclarecer o que aconteceu com a menina britânica Madeleine McCann
  • Morre em SP Maria Alice Vergueiro, dama do teatro brasileiro
  • Promotores decidem endurecer acusação contra ex-policial que matou George Floyd
  • Milhares de britânicos participam de ato contra o racismo, em apoio aos protestos nos EUA
  • Cenas de violência e confrontos diminuem em Washington nas últimas 24 horas
  • Ismar Madeira acompanha sétimo dia de manifestações na cidade de Nova York
  • Polícia de SP prende 10 suspeitos de lavar dinheiro do tráfico e do roubo a bancos
  • Papa se pronuncia sobre morte de George Floyd
  • Menino que sofreu racismo nas redes recebe surpresa da Academia Brasileira de Letras