Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN: governo em completa falência | 28.4.2020

A edição de hoje mostrou o retrato de um governo em completa falência, que não consegue agir na saúde, na assistência aos cidadãos em época de pandemia e que é achincalhado até por Donald Trump (amigo do presidente). Não é um bom retrato.

O começo do jornal é dedicado ao drama da alarmante cifra de 5 mil mortos – “Brasil supera a China no número de mortos”. Como ressaltou Bonner, é como se todos os habitantes de uma cidade pequena morressem – e ele lembrou que 20% dos municípios brasileiros têm menos de 5 mil habitantes. A abertura da matéria ressaltou que, apesar de o país ter já muito mais mortos que na china, há muito mais gente exposta nas ruas e destacou o medo dos especialistas com uma explosão de casos.

E ao chegar ao Planalto, o presidente foi questionado sobre o número de mortos – ao que respondeu: “Sim, e daí? Quer que eu faço o quê? Sou messias mas não faço milagre”. De volta à bancada, nenhuma repercussão sobre a fala. E Renata informa que, após o novo recorde do número de mortos é que Teich resolveu falar com a imprensa. Entra então fala do ministro tentando explicar os números e dizendo que os dados mostram que há um agravamento da Covid no Brasil e que a piora ocorreu nas cidades que já tinham números elevados da doença. Não sinalizou com qualquer medida (a fala deixa evidente que ele não tem a menor noção do que pode ser feito). Também não há comentários após a fala, só recortes e cenas do agravamento sistemático do quadro no país…

Renata diz que a situação pode ser ainda mais grave: “O número de mortos pela Covid-19 pode ser ainda maior. Cartórios de todo país mostram um aumento gigantesco de óbitos por doenças respiratórias desde o registro da primeira morte pela doença no país, no dia 16 de março”. São dados alarmantes, conclui Renata. Em Manaus, os cartórios registram um aumento de 1035% no número de mortes por síndrome respiratória aguda grave.

No Rio, onde, não há mais leitos de UTI, os cartórios estão registrando causa não identificada para as mortes suspeitas, e os especialistas apontaram a falta de testes para confirmar a doença. O número de notificação de mortes dispararam, e as famílias sofrem com a falta de informação.

Em São Paulo, o número de mortes pode ser 168% maior, e a ocupação de leitos de UTI já é da ordem de 81%.

Novamente em Manaus, matéria mostra que a Prefeitura suspendeu o empilhamento de caixões para enterros após a indignação das famílias. As cenas são bem chocantes, com valas enormes abertas e vários caixões empilhados sendo enterrados. E a situação no município é dramática, com total falta de leitos de UTI. Dona Raimunda buscava atendimento para a filha, que tinha sintomas da doença. Já era o segundo hospital para onde ia: “Vou esperar minha filha morrer?”.

Na sequência, matéria mostra que a Anvisa finalmente liberou os testes rápidos em farmácias, contrariando especialistas. A matéria deu destaque à determinação, num tom crítico trazido pelo questionamento dos especialistas, que afirmaram que alguns desses testes têm apenas 30% de confiança no resultado. Segundo a Anvisa, a farmácia deve manter um profissional capacitado e informar o resultado às autoridades de saúde, e a Associação das Farmácias diz que os testes, chineses, devem custar cerca de R$ 200. A infectologista Natália Pasternak afirmou que um dos problemas graves é falso positivo: o teste mostra que a pessoa testa negativo, mas na verdade pode estar com o vírus, aí volta ao trabalho e infecta outros. Outro infectologista, da USP, disse que essa não é a melhor coisa no momento, que o foco do governo deveria ser o teste molecular, que é muito mais eficiente.

Em seguida, Bonner informa que a Pfizer pretende produzir vacinas em larga escala. O laboratório já foi autorizado a fazer testes na Alemanha (parece uma propsoital contraposição à aventura de testes falhos nas farmácias.)… E lembra que cientistas de Oxford, na Inglaterra, estão também fazendo testes.

Fim do drama da Covid, que mostra um Estado que não dá respostas ao avanço da pandemia, e entram as cenas de um Estado que não é capaz de garantir um mínimo de bem-estar para s cidadãos. Por mais um dia, as agências da Caixa em várias partes do país tiveram filas e aglomeração. À medida que a reportagem mostrava as cenas revoltantes de muita aglomeração, os depoimentos dimensionavam a dificuldade das pessoas: “Estou aqui porque preciso do dinheiro”, “É um desrespeito isso”, “Todos que estão aqui passando por isso precisam”.

Depois, outra matéria mostra ainda desrespeito com os trabalhadores desempregados que não conseguem receber o seguro-desemprego. O governo reconhece que pelo 200 mil pedidos de seguro estão represados, ou seja, 200 mil trabalhadores que não conseguem receber. As agências do Sine estão fechadas, e os desempregados não conseguem acessr o site (problema básico de todos os órgãos governamentais). Além disso, o governo não consegue fazer um registro correto do número de desempregados.

“Enquanto isso”, nos diz Bonner, “empresas e empresários estão investindo estão investindo tempo e dinheiro para amenizar os efeitos da crise do coronavírus”. E entra então o quadro Solidariedade S/A. Dessa vez, com o Carrefour – que está fazendo um programa de doação de cestas básicas, materiais de limpeza e outros nas comunidades mais carentes. E a EDP, que está doando materiais de proteção e respiradores a hospitais.

Ou seja, enquanto ocorrem as cenas lastimáveis provocadas pela péssima gestão do Estado, que não consegue atender às necessidades básicas do cidadão, do outro lado, a iniciativa privada é capaz de se planejar para ajudar. Essa é a mensagem que fica, não há dúvida.

O 3° bloco chega e, com ele, a tão propalada nomeação de Ramagem para a PF. Ao longo da edição, a referenciação conquistada por ele é “amigo da família” ou “amigo dos filhos do presidente”. A matéria é bem extensa, com 10 minutos. André Mendonça, nomeado para o Ministério da Justiça, aparece na frente, e seu currículo é destacado, além do fato de ser pastor presbiteriano. A matéria mostra então o desejo antigo – ressaltado numa fala – de Bolsonaro pela nomeação para o STF de um “cristão”. Ministros do STF aparecem para elogiar Mendonça e destacar seu currículo.

Depois é a vez de Ramagem. A matéria diz que, apesar dos conselhos, Bolsonaro bancou a escolha e chamou para o cargo quem ele mais queria desde o início. Aparece então o deputado Marcelo Freixo explicando o pedido de impeachment feito à Câmara, fala bem destacada. Depois, Randolfe também fala. Há duas notas de associações de delegados da PF que apoiam os nomes. E o general Heleno que diz que indicou o numero 2 da Abin para o cargo, mas Bolsonaro não quis.

E então chega a vez da autorização da abertura de inquérito apresentada pelo decano do STF, Celso de Mello, contra Bolsonaro. Foi uma matéria bem ampla, destacando vários pontos da peça do ministro, como a que ele diz que a “Constituição permite responsabilizar o presidente da República, penal e politicamente, por atos ilícitos que eventualmente tenha praticado no desempenho de suas funções”. Houve uma recapitulação do caso que originou a denúncia – a rusga Moro/Bolsonaro.

E entra Bonner para esclarecer e colocar pingos nos is: “Agora que autorizou a abertura, começa a fase de produção de provas. Que fica a cargo do diretor da Polícia Federal. Que é AMIGO dos filhos do presidente (o que é dito pausadamente e com destaque no “amigo”). A matéria passou a mostrar então como o diretor da PF é essencial nessa parte do processo, também influenciando a escolha dos delegados. Aparece também Gilmar Mendes, numa video com empresários (bem interessante esse evento), para dizer que o processo deve ser concluído rapidamente. E o deputado Molon diz que as instituições devem reagir.

Na sequência, matéria sobre pesquisa Datafolha com o impacto da saída de Sergio Moro do ministério.

E uma modificação de decisão do TRF 1 que inocenta nove acusados de crimes de corrupção (pessoas investigadas sobre caso corrupção durante os governos Lula e Dilma).

No 4° bloco

Nota da Anvisa, que não havia se manifestado, sobre a liberação dos testes em farmácias.

E na sequência, Donald Trump admite que pode barrar voos vindos do Brasil, pois estamos enfrentando um surto sério, “e o país tomou um rumo diferente dos vizinhos da América Latina”. Ele disse isso durante uma reunião com o governador da Flórida, que se disse preocupado com a situação brasileira, pois muitos voos chegam à região vindos do Brasil. Ou seja, o Brasil está gerindo tão mal a crise do coronavírus que merece reprimenda até de Trump, chefe do país que tem o maior número de casos no mundo…

O recado dos essenciais mostra produtores de leite e criadores de aves que afirma que não podem parar porque as pessoas precisam de alimento. E pedem para que todos fiquem em casa e “pensem no próximo”.

Recado dado, governo desnudado em sua incompetência e até no abuso da lei, é hora de ver a novela.

Boa noite.