Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN: embate Moro x Bolsonaro | 5.5.2020

A edição destaca bem o embate Moro x Bolsonaro, colocando o depoimento do ex-ministro já na escalada, na abertura do jornal, bem como a fala destemperada de Bolsonaro. Da mesma forma, delineia a situação caótica que o Brasil está vivendo – crise sanitária com a pandemia, crise política e crise econômica. Mas sem grandes arroubos ou dramatização/encenação em nenhuma das situações.

O primeiro bloco continua a trazer o drama da Covid no país. Mas a primeira matéria, ao contrário do que se podia esperar, não foi o número assustador de 600 mortes nas últimas 24 horas. A edição foi aberta com a notícia de que o isolamento em SP voltou a cair, atingindo menos de 50%.

Mostrou também o caos no trânsito provocado pelo fechamento de algumas ruas e avenidas – o que provocou engarrafamentos enormes e o atraso para as pessoas que precisam trabalhar. Não havia orientação correta, e muita gente que precisava chegar ao trabalho não conseguia, mesmo médicos e enfermeiros.

A segunda a matéria mostrou, com bastante destaque, o lockdown em São Luís, com a polícia abordando e orientando as pessoas na rua. Apesar do destaque, Flávio Dino não foi ouvido.

Na sequência, lockdown a partir de quinta também em Belém e mais 10 cidades do Pará.

No Ceará, a adoção de um isolamento social mais rígido em função do agravamento da situação. O governador Camilo Santana falou sobre a s medidas e a justificativa para a adoção. Teve um bom espaço.

No Amazonas, o Ministério Público também pediu a adoção da medida.

Na sequência, o Ministério da Saúde confirma 600 mortes nas últimas 24 horas, e a matéria prossegue fazendo um balanço da doença no Brasil. O ministro não fala nem aparece, quem fala pelo Ministério é o secretário de Mandetta, Wanderson explica que é difícil prevê se os estados que vivem o maior caos já atingiram o pico da pandemia ou dizer qual o número de curados -no balanço começaram a mostrar pessoas curadas – porque há muita gente que nem sabe que teve a Covid. Há um grande espaço de fala para Wanderson, e o ministro não aparece, nem é mencionado. A matéria também explica que o levantamento feito pelo G1 mostra um aumento do número de mortes naturais, o que pode ser um indício de subnotificação pela Covid. O epidemiologista Lotufo, fonte já presente no jornal, falou que o vírus está agindo de uma forma não conhecida e que há pessoas que morrem em casa sem diagnóstico e que pode ser por Covid.

Em outra matéria, o Amapá enfrenta dificuldades para contratar médicos – o regime é o plantão de 12h de trabalho, com folga, e a remuneração de 2 mil por plantão. Não há qualquer ligação com o fato de os médicos cubanos terem um dia estado lá.

No 2° bloco, o enfoque é econômico, e a primeira matéria mostra o drama de “milhares de brasileiros que todos os dias enfrentam filas”. Num tom bem dramático, a matéria mostra as filas enormes pelo país – como as filas na madrugada e a venda e vagas em BH, e destaca o número enorme de pessoas que recorreram ao auxílio. Como abordou o especialista, além de todos os outros que enfrentavam filas para o INSS e outros benefícios, agora aparecem os “invisíveis”. Muitos depoimentos falando das dificuldades e da necessidade. “Mais uma dia que eu vou para casa sem dinheiro”, diz um homem que ia pela quarta vez seguida à Caixa buscando algum esclarecimento.

Depois, a Câmara aprova ajuda de 120 bilhões para estados e municípios.

E a nota do Brasil é rebaixada pela Fitch. Sem nenhum estardalhaço, como de outras vezes…

A produção industrial tem uma queda vertiginosa em março, fruto da pandemia.

E então entram as experiências e ações salvadoras da Solidariedade S.A. Destaque para a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira e a Accenture, com doações e ações inovadoras.

O terceiro bloco começa com a confusão da nomeação/exoneração, em menos de 24 horas, do diretor da Funarte, Mantovani (o que liga rock a manifestações satânicas). A matéria dá destaque à confusão, mostra o deslocamento de Regina Duarte (secretária de Cultura que já havia exonerado Mantovani), a fala de Bolsonaro criticando-a por estar em São Paulo, a perseguição do que chama de “ala ideológica” do governo, um áudio de conversa entre ela e uma assessora falando em demissão. Delineia vários caminhos até citar uma certa proximidade com o gabinete de Carlos Bolsonaro e um suporto esquema na Funarte. Por fim, Braga Neto diz que Regina fica… mas ela vai se encontrar com Bolsonaro nesta semana.

E apenas no 4° bloco aparecem detalhes do depoimento de à PF, no sábado. A matéria dá muito destaque, com vários recortes de trechos do depoimento, e ressalta que “Moro REAFIRMA à PF que o presidente Bolsonaro queria interferir politicamente na corporação”. O jornal também destacou que o ex-ministro “apontou os caminhos para obtenção de provas”. Foi uma matéria bem bem longa – 15 minutos -, em que Moro aparece em muitas imagens, mas não fala (não digo entrevista, recortes de fala dele em outros momentos, como no dia da saída do Ministério). Só fica a narração da repórter na leitura dos trechos liberados, a denúncia de interferência, a fala de Bolsonaro pedindo “apenas” a superintendência do Rio. Fica o silenciamento conveniente…

Muitos trechos do depoimento são destacados e uma grande parte reproduz a ideia de que que Bolsonaro pede por mais “interação” com os delegados e dirigentes da PF. A matéria informa que Moro disponibilizou todas as mensagens trocadas com Bolsonaro, mas que passou a apagar algumas depois que teve o celular “invadido por hacker”.

Mais ao final, Bolsonaro também aparece e mostra no celular os trechos da conversa com Moro afirmando que ele mente e que não havia nada de mais. Ao contrário do ex-ministro, Bolsonaro aparece falando bastante, a fala é deixada livremente. Depois, nota divulgada por Moro, sobre a fala de Bolsonaro em relação às mensagens afirmando que buscou minimizar o fato.

Na sequência, o ministro Celso de Mello autorizou os depoimentos de três ministros e da deputada Carla Zambelli.

E então, matéria seguinte mostra que o próprio presidente confirmou a troca do superintendente da PF do Rio. “Bolsonaro confirma troca do superintendente da PF no RJ e volta a desrespeitar jornalistas Exaltado, o presidente disse que era uma promoção para Carlos Henrique Oliveira. E aos berros mandou que jornalistas se calassem”. Matéria com 7 minutos mostra todo o destempero do presidente ao explicar que o superintendente do Rio, Carlos Henrique, será “promovido” e que a Folha de São Paulo estava mentindo. Ele é deixado livremente a falar e a insultar os jornalistas.

A matéria também mostra que a justiça dá prazo de 72 horas para Bolsonaro explicar a troca do comando da PF no Rio. E novamente entra a fala agressiva e destemperada de Bolsonaro. A matéria mostra nota da Folha dizendo qeu não vai se intimidar: “seguiremos altivos e vigilantes”.

Várias manifestações de políticos (a primeira foi a deputada Liziane, do Cidadania do Maranhão, que aparece sempre a comentar o “destempero” de Jair). Um deputado desconhecido do PT apareceu também, além de Doria, dizendo que é “lamentável a escalada autoritária”. No fim da matéria, nova fala de Bolsonaro, somente lida, quando ele disse que foi “grosseiro”, “desculpa aí”, fala o presidente.

Na sequência, o pedido do MP para investigar agressões a enfermeiros e jornalistas em Brasília. Mostraram muitos detalhes, as imagens dos agressores destemperados, todos identificados. Matéria deu bom destaque.
Depois, breve nota sobre convite ao jornalista Orlando Brito, do Estadão, que foi agredido por manifestantes, para almoçar com Bolsonaro, que não pediu desculpas e disse que não tem como controlar a multidão.

Encerramento seco, anunciando o Jornal da Globo.

OBS:

  • Foi uma edição bem marcada, com exposição das loucuras de Bolsonaro, mas bem comedida, eu diria. Sem apelo dramático, sem encenação, sem reconstrução de falas, sem reconstrução histórica. O destaque reiterado na história de Moro de “apontar caminhos para obter provas” não me soou natural. Num depoimento como esse, como já ocorrido em outras vezes, ou se dá destaque a algo realmente efetivo ou se desconsidera, suaviza. Foi um amplo destaque, reforço, mas sem ser efusivo (pode haver coelho na toca…)
  • Não há nenhuma nota ou observação de Bonner após os arroubos de insulto de Bolsonaro. Ele (como essa “voz” do JN) se exime de marcar a presença, num silenciamento conveniente. Tampouco “fala” por Sérgio Moro narrando o depoimento, como ocorreu em 24-04 e em outros momentos graves.

Há um peso grande na troca do superintende do Rio. Não sei se vcs se lembram, mas houve uma época, não muito distante, que Moro queria federalizar as investigações sobre o caso Marielle. Já falei por aqui que ela poderá ser a pessoa a destruir Bolsonaro… a ver.

Boa noite.