Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN: Em editorial, jornal afirma que declarações de Bolsonaro afrontam a verdade e desrespeitam luto de brasileiros

Na abertura do JN, William Bonner e Renata Vasconcelos dividiram a bancada para, novamente, mostrar o embate com o negacionismo do presidente. Com ar de indignação, os dois ressaltaram que as declarações do presidente afrontavam a verdade e desrespeitavam o luto de milhares de brasileiros. 

No editorial, Bonner também destacou que o presidente desrespeitava todos os técnicos da Anvisa ao questionar qual o interesse da Agência em autorizar a vacinação em crianças:

“O interesse da Anvisa está expresso na lei que a criou – coordenar o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária em defesa da saúde da população. O quarto artigo da Lei determina que a Agência atue como uma entidade administrativa independente e que as prerrogativas necessárias ao exercício adequado de suas atribuições sejam asseguradas. Não é isso que o presidente tem feito ao ameaçar divulgar nomes e integrantes da Anvisa que aprovaram a vacinação infantil e agora, ao questionar a lisura do órgão”.

De branco, Renata salientou que as declarações de Bolsonaro contrastam com o que prevê o  artigo 196 da Constituição, “que ele JUROU respeitar: a saúde é direito de todos os cidadãos e dever do Estado”.  Renata prosseguiu enfatizando as palavras com peso para dimensionar o tamanho dos absurdos ditos e feitos por Jair: “O governo Bolsonaro RETARDOU a decisão sobre a vacina para crianças desde o dia 16 de dezembro até ontem, data-limite imposta pelo Supremo Tribunal Federal; convocou uma consulta pública ESTAPAFÚRDIA, porque remédios não podem ser aprovados pelo público leigo, mas por cientistas. E em razão dessa demora, as famílias brasileiras têm ainda que aguardar ao menos sete dias até a achegada das primeiras doses pediátricas. E como se não bastasse, hoje ele insistiu em ATACAR as vacinas”.

E Bonner arrematou pontuando e enfatizando o peso das palavras e a responsabilidade do cargo de quem as profere: 

“O presidente Jair Bolsonaro é responsável pelo que diz. Pelo que faz. Espera-se que venha também a ser responsável por todas as consequências daquilo que faz e diz”.

O editorial  teve 2 minutos e 14 segundos. Já na escalada da edição, informações sobre a fala de Bolsonaro em relação às vacinas e às crianças, com imagens de sua live. 

Antes do editorial, matérias para ajudar a dimensionar o tamanho do absurdo das falas e ações de Bolsonaro e seus apoiadores no Congresso, como foi o caso da matéria que mostrou a ação da deputada Bia Kicis, que divulgou em um grupo de WhatsApp os dados pessoais de médicos que defendem a imunização de crianças contra a Covid e que participaram de audiência pública sobre o tema. O vazamento foi feito ainda durante a audiência, quando os médicos já começaram a ser agredidos em seus perfis nas redes sociais. A reportagem ressaltou que se trata de uma prática usual das redes bolsonaristas, que não é a primeira vez que fazem ameaças assim e que o próprio presidente disse que ia divulgar nomes de diretores e técnicos que haviam aprovado  vacinação para crianças, com imagens de Jair.

Na sequência, ainda antes do editorial, uma reportagem mostrou que a vacina contra Covid para crianças ainda vai demorar pelo menos sete dias e ressaltou a importância da vacinação para garantir que as crianças tenham saúde. Foi uma reportagem toda lúdica, com imagens de menininhas brincando de balanço, alegres e saudáveis e especialistas explicando que as crianças ficarão mais vulneráveis à medida que o restante da população se vacina – portanto, menininhas como aquelas podem não mais brincar de balanço.

Depois, destaque para os ataques de Bolsonaro à vacinação infantil. O presidente disse que desconhece casos de crianças que morreram por causa da Covid, e Bonner rebateu dizendo que isso é desinformação. Em seguida, cenas do presidente falando sobre o assunto, numa entrevista, perguntando qual o interesse das  pessoas “taradas por vacina”. As imagens circularam nas redes sociais de Jair. Depois das falas grotescas do presidente brasileiro, Bonner informou que outras agências de saúde no mundo aprovaram a vacina para crianças, autoridades sanitárias de “excelência reconhecida internacionalmente”. E a informação, divulgada na audiência pública, de que nenhuma doença com prevenção por vacinas mata mais crianças do que a Covid. Destaque também para a nota da Sociedade Brasileira de Pediatria contra a fala de Bolsonaro e a favor da vacina.

E depois então de toda a preparação prévia, veio o editorial para marcar o posicionamento de embate com o presidente que desdenha de vacina. 

A edição do JN, como um todo, deu enorme destaque ao assunto e a outros temas ligados à Covid, que ocuparam quase toda a grade. 

E o ano 3 da pandemia infinita começa da mesma forma – com editorial do JN criticando a postura de Jair contra a vacina.

Espero algo muito diferente para a edição do ano que vem. A ver