Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN: democráticos e antidemocráticos | 4.5.2020

A edição de hoje marca simbolicamente dois campos no país: democráticos e antidemocráticos, e situa o presidente Jair e seus asseclas (não acepipes, observem) no segundo.

Com uma edição simbolicamente muito bem desenhada, a abertura e o fechamento do jornal ressaltam a democracia, os valores democráticos e a força desse compromisso – o primeiro bloco, o começo do jornal, é todo dedicado a mostrar o absurdo dos atos antidemocráticos apoiados pelo presidente, pois a democracia é um valor inegociável; no último bloco, o fechamento do jornal, num tom bastante emotivo depois de destacar as duas perdas para a cultura brasileira – Flávio Migliaccio e Aldir Blanc, o JN se encerra com a voz de Elis cantando: “A esperança é equilibrista, sabe que o show de todo artista tem de continuar”, a música que se tornou tema da Anistia, no fim da pesada ditadura militar…

Um posicionamento simbólico importante inicia o jornal antes da primeira matéria: “Essa edição começa com um aviso”, nos diz Bonner. E então ficamos sabendo que os repórteres e toda a equipe de telejornalismo da Globo passará a usar máscaras também nas ruas. O protocolo foi mudado porque, como informa Bonner, usar máscara já entrou no cotidiano do brasileiro. “Com a pandemia no nível que está, estranho é aparecer sem ela”, reforça. Belo posicionamento (uma jogada de marketing) para marcar ainda mais o distanciamento de Jair.

E então a primeira matéria, sobre a nomeação do novo diretor da PF, Rolando de Souza. Entre a nomeação e a posse, informa Délis Ortis, apenas meia hora. A posse não teve público para evitar que fosse barrada. Foi exibido trecho da fala de Bolsonaro na manifestação na frente do Palácio do Planalto dizendo que não ia aceitar “interferência” (mas não disse como, nem o que pretende fazer, ressalta destaca Délis Ortis). A matéria também mostra que Rolando é bem próximo de Ramagem, impedido de tomar posse. O novo ministro da Justiça destacou que Rolando de Souza é competente e que ele é um “profissional técnico”. Algumas associações e da PF defenderam o novo quadro.

Na segunda matéria, amplo espaço (10 minutos) para o evento que já é referenciado pelo JN como “manifestação antidemocrática e inconstitucional”. Pra começar, destaque para a nota do Ministério da defesa que encurrala Bolsonaro ao defender a harmonia entre os poderes e reafirmar o compromisso das Forças Armadas com a lei, a ordem, a democracia e a liberdade. O que frontalmente contraria a fala de Bolsonaro de que as Forças Armadas estavam com ele. Na abertura da matéria, o vaticínio: “As faixas deixavam claro: as faixar atentavam contra dois pilares da democracia – o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional”. Matéria com grande destaque, mostrando Bolsonaro descendo a rampa com os filhos, incluindo a menina, mas o jornal não cita a presença dos filhos, só mostra as imagens. Mostra ainda que Onyx, ministro da Cidadania, estava presente. A nota das Forças Armadas foi lida em destaque, com vários trechos sendo mostrados. Também foi exibida a agressão sofrida pelos jornalistas do Estadão. “Incontrolável. Antidemocrática e intolerável. Assim reagiram imediatamente representantes do Judiciário, do Legislativo, da sociedade civil e até de dentro do próprio governo”. O ministro-chefe da Casa Civil, Braga Neto, apareceu para falar que qualquer tipo de agressão, opinião do governo, é inadmissível e tem de ser apurada. E aparece então, novamente, o ex-presidente José Sarney para falar da transição democrática e que a Constituição dá às Forças Armadas a incumbência de garantia dos poderes institucionais e da lei e da ordem.

OBS. 1 É interessante esse reaparecimento de Sarney, talvez se explique pelo trânsito com os militares…

Depois, Fernando Henrique também aparece para ressaltar esse papel de destaque das Forças Armadas. Rodrigo Maia também dá seu recado e o governador João Dória, que mostra “repúdio a esses milicianos fantasiados de patriotas. Vcs não representam os verdadeiros patriotas deste país”. Bom tempo para a fala de Doria. A líder do Cidadania diz que Bolsonaro incita o ódio e que está claro que ele está descontrolado. O ministro Gilmar Mendes disse que não é possível haver desobediência civil. Para o ministro Barroso, o mais grave foi a afirmação de que as Forças Armadas apoiavam o governo. Depois, cenas da agressão aos jornalistas, e o repúdio da sociedade civil – leitura de trechos da nota da ABI.

OBS. 2: Essa matéria principal – e talvez o bloco como um todo, pois o assunto foi o predominante – pode ser pensada a partir de dois eixos centrais: 1) enaltecimento da democracia como principio e 2) enaltecimento do papel das Forças Armadas na democracia brasileira.

Em outra matéria na sequência, a repercussão da manifestação “antidemocrática e inconstitucional” que voltou a ser notícia na imprensa internacional.

Em seguida, a justiça proíbe que dois homens que ameaçaram o ministro Alexandre de Moraes tenham contato com ele.

A matéria seguinte trata do pedido do PGR para ter acesso ao video da reunião ministerial com Moro e Bolsonaro e para ouvir ministros e delegados que estiveram presentes. Matéria grande. detalhada, com mais de 5 minutos. Há uma recapitulação das denúncias feitas pelo ex-ministro Moro, que não aparece falando, somente em imagens. E muito importante, dito assim bem sem destaque: a defesa de Moro, informa Bonner, disse ao STF que abre mão do sigilo do depoimento do ex-ministro à PF no sabado. Segundo os bondosos advogados, isso é para “evitar” interpretações dissociadas a aprtir de trechos isoaldos do depoimento. Aguardem.

Depois, o ministro Marco Aurélio Marco Aurélio pede ao ministro Dias Toffoli que submeta ao plenário atos que envolvam outros poderes, para que o plenário do STF decida sobre questões que estejam envolvendo os outros poderes.

Para fechar o bloco muito grande, o fim do prazo para regularizar o título de eleitor, qeu se acaba em dois dias.

A chegada do segundo bloco marca uma estrutura que vai se firmando nas edições: depois da confusão provocada pelo governo, vem o caos provocado pela pandemia (presidente e vírus se equivalem nos prejuízos para o país…).

Entram então as notícias sobre a Covid no Brasil, começando com o balanço dos números. Em seguida, vemos que o ministro da Saúde está em Manaus para ver a situação. Indagado sobre as peripécias de Jair e o isolamento, ele titubeia pra responder que “a gente tem deixado claro que existe um distanciamento… não existe uma mudança de política em relação ao distanciamento”. A matéria mostrou a visita a hospitais e que o ministro não viu um protesto de indígenas, e que o secretário prometeu um hospital, mas sem prazo. Depoimentos de pacientes e familiares mostraram angústia e indignação, “um descaso total”. A matéria também informou que médicos vão reforçar o atendimento, muitos são de outros estados. E mostrou então o voo da Gol em que o comandante pediu uma salva de palmas para os profissionais.

O Pará recebeu respiradores, e em Belém, o sistema já está em colapso.

Fortaleza já comprou contêineres para receber corpos nas UPAs, e no Rio, denúncia de médicos e enfermeiros dizendo que pacientes morreram no fim de semana por alta de medicamentos essenciais no combate à Covid. Exploraram bem o assunto, mostrando mensagens vazadas, tentativas de justificativa da Prefeitura.

Outra matéria mostrou que Cuiabá está usando drones para desinfetar condomínios.

São Paulo começa o bloquei de avenidas para impedir a circulação das pessoas, e o uso de máscaras passa a ser obrigatório nos transportes e estabelecimentos.

Em São Luís, lockdown começa a valer a partir de amanhã.

OBS. 3: É curioso como Belo Horizonte, que está com índices muito positivos no enfrentamento à Covid, com acompanhamento de equipe da UFMG e achatamento da curva no padrão da Coreia, não apareça nem de relance…

O 3° bloco traz o panorama do mundo, com novo recorde de casos e também a mobilização da União Europeia para garantir recursos para a pesquisa sobre a Covid. Vários países doaram e participaram da mobilização. Brasil e EUA ficaram de fora…

O JN perguntou ao ministro das Relações Exteriores o porquê da não participação, mas não obteve resposta.

Nova York já apresenta queda bo número de mortos.

E informa Renata que “as posturas dos governantes que resultaram em realidades diferentes”, numa comparação entre os vizinhos Portugal e Espanha. Com várias medidas e a adesão da população, Portugal está conseguindo driblar o vírus. Na Espanha, a situação foi bem diferente e mais dramática.

E a Itália começa a dar os primeiros passos rumo a uma paulatina flexibilização.

Entra então a Solidariedade S.A, com Norte Energia (concessionária da usina de Belo Monte), com ajuda de cestas a povos indígenas, e doações da UHG (controladora da Amil e de outros 35 hospitais do pais) à Fiocruz e ao Butantã. O boletim do tempo fecha o bloco.

E no último bloco, as homenagens a Flávio Migliaccio e Aldir Blanc. Bom destaque para os dois, fechando com Aldir e a música “O bêbado e a equilibrista”, na voz d Elis Regina. E um minuto de silencio do JN.

Não há “boa noite”, mas um “até amanha”.