Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN: Covid no Brasil | 6.5.2020

Edição retoma a construção do dimensionamento da Covid no Brasil, com foco em depoimentos que mostram a surpresa com a proximidade da doença e em mostrar que números são pessoas. Aponta também muitos traços de práticas e apoios escusos do governo Bolsonaro, com destaque, mas ainda sem exagero.

Na primeira matéria, depois do quadro mostrando que o número de mortos chega a mais de 8.500, a fala de Bonner enquadra o assunto: “Você já nem deve lembrar, mas na quinta-feira passada era, 5901 mortos. Os números vão aumentado desse jeito, cada vez mais rápido, vão dando saltos. E vai todo mundo se acostumando, porque são números. Um número muito grande de mortes de repente, num desastre, sempre assusta, as pessoas levam um baque. Morreram mais de 250 pessoas em Brumadinho, é uma tragédia. Nos Estados Unidos em 2001, morreram quase três mil nos atentados do 11 de setembro. Três mil. Assim. De repente. Mas quando as mortes vão se acumulando, ao longo de dias e semanas, como acontece agora na pandemia, esse baque se dilui, e as pessoas vão perdendo a noção do que seja isso. Oito mil vidas acabaram. Eram vidas de pessoas amadas por outras pessoas. Pais, filhos, irmãos, amigos, conhecidos. Aí o luto dessas tantas famílias vai ficando só pra elas. Porque as outras pessoas já não têm nem como refletir sobre a gravidade dessas mortes todas. Que vão se acumulando, todo dia, todo dia. Hoje, são 8.500; amanhã, a gente não sabe. Quando é assim, o baque só acontece quando quem morre é um parente, um amigo, um vizinho. Ou uma pessoa famosa”.

OBS.: Pode até parecer um discurso que força o tom emotivo, a carga dramática, mas ele cumpre uma função super importante de dimensionar para os milhões que assistem ao JN o tamanho da tragédia brasileira (que tem nome e rosto). Não tenham dúvida.

Depois, Renata mostra um dos rostos dos 8.500 brasileiros mortos. Ele se chamava Joaquim de Paula Reis e não era famoso, mas também não era um número, morava na cidade mineira de de Belo Vale. Aí a matéria começa mostrando a Serra da Moeda, a cidade pequena, a igrejinha histórica, e um um pouquinho da história de seu Joaquim, que tinha 95 anos e era muito alegre. E mostra o assombro dos moradores ao saberem que a Covid chegou ao quintal deles…

É a deixa para a próxima matéria, que mostra o avanço da doença pelo interior do país. Em Itajobi, interior de São Paulo, em que uma pessoa morreu. E dona Marley disse que “está dando medo, aqui é cidade pequena. Eu achava que não ia chegar não”. A matéria ouve especialistas da Fiocruz que avaliam que a interiorização da doença ocorre em todo o pais – 44% das cidades entre 20 mil e 50 mil habitantes já têm casos , e falam também sobre a disseminação do vírus e o impacto nas cidades. Os pesquisadores defendem estratégias de ação conjuntas para conter o vírus – e afirmam que não será possível combater a doença se não forem tomadas medidas centrais, pois os municípios menores não têm condições de sequer enviar os pacientes para outros centros. Deu exemplo de Manacapuru, no Amazonas, que enviou pacientes para Manaus, cujo sistema já está em colapso. Segundo levantamento do G1, com as secretarias, o número de mortes subiu muito nas cidades com até 100 mil habitantes. A matéria No Amazonas, a secretária afirma que a Covid se espalha de barco, pelo transporte de passageiros.

Na sequência, continua o tradicional giro pelo Brasil. No Amazonas, a justiça nega a decretação de lockdown pedida pelo Ministério Público, mas a situação no estado é de caos, com um número recorde de novos casos, 1.100, a população nas ruas, os hospitais super lotados, o sistema funerário em colapso. E o governador dizendo que defende “uma modelagem no processo”.

Em Belém, o lockdown passa a vigorar a partir de amanhã. A situação também é complicada, com muitos casos e a população nas ruas. Dona Edna perdeu cinco pessoas conhecidas, só nesta semana. “A dona Edna tem noção do que é o luto”, diz Bonner, para ressaltar que em São Luís muitas pessoas ainda não entenderam a importância do isolamento obrigatório. Na cidade, no segundo dia de lockdown, muitos moradores provocaram aglomerações em muitos pontos.

E o Rio de Janeiro tem número recorde de casos e mortes. O prefeito Crivella disse que vai interditar a região de Campo Grande, que tem grande circulação de pessoas. O estado de são Paulo ultrapassa a marca de 3 mil mortos pela pandemia, e a capital não descarta endurecer as medidas, inclusive com lockdown. No estado todo, o uso de máscaras será obrigatório. A matéria mostra a vítima com rosto, Ana Vitória, de apenas 16 anos, que morreu no domingo. Mostra também a mãe, arrasada pela perda da filha. E outra vítima, Maria dos Anjos, de 45 anos. E dona Carmosina, que pegou a doença mas está se recuperando, até falou com o filho pelo tablet do hospital. Números que são rostos…

OBS: Nas matérias do giro pelo Brasil, somente Doria, entre os governadores, aparece falando.

No 2º bloco, o Senado prova o auxílio para estados e municípios.

E o IBGE divulga um “retrato” da desigualdade da renda dos brasileiros. Parcela mais rica do país recebe 33,7 vezes mais que a fatia mais pobre. A matéria tem míseros 20 segundos e nenhuma repercussão – por exemplo, o que essa brutal desigualdade representa em termos da pandemia. E a OMS também se refere à importância de combater a desigualdade.

Na sequência, dados do IBGE também sobre saneamento e acesso à agua. Matéria mostra que 18 milhões de brasileiros não têm água encanada diariamente, num momento em que é essencial lavar as mãos com frequência. A matéria. mostro seu Jorge, motorista, que tem 62 anos. Por causa da falta de água, ir ao supermercado é uma tortura, pela falta de água, pq ele tem de chegar e, muitas vezes, tomar banho com álcool, pois falta água. Nas favelas, a situação é pior. Líderes comunitários estavam fazendo a higienização das ruas, mas tiveram de interromper pela falta de água.

Na sequência, nota bonitinha para destacar estudo da UFMG (Cedeplar) que mostra que o governo falhou nas medidas de combate à pandemia. Segundo o estudo, UFMG analisou mais de 180 medidas do governo federal e concluiu falhas por não implementar e não endossar medidas de distanciamento social, deixando decisão para estados e municípios e por disponibilizar poucos testes. E concluiu que figura do presidente Jair Bolsonaro foi o maior exemplo de desobediência às medidas de segurança.

Na sequência, depois de tudo, é que aparece o ministro da saúde para dizer que, como os números não estão caindo (talvez ele esperasse isso por mágica…), o país vai ter de “aumentar os cuidados” no combate ao coronavírus. ele fala em ampliar testes e diz que o ministério já tem delineadas medidas.

Depois, notícia e que o porta-voz da Presidência está com Covid.

E a justiça determina que Bolsonaro entregue os exames

No 4º bloco, a notícia de que a PF vai investiga. r a agressão a fiscal do Ibama no sudoeste do Pará. Matéria grande, 5 minutos, com destaque, fazendo toda a costura com a grilagem na região e o apoio de Bolsonaro a isso. Retomam a matéria do Fantástico que mostrou a situação, a ação dos fiscais cujo resultado foi a exoneração deles. Mostram inclusive mensagens de Moro sobre isso – no próprio celular de Bolsonaro, que o JN consegue capturar no dia em que ele mostrou as mensagens para retrucar a fala de Moro. E depoimento de fiscal falando das operações para retirada do equipamento dos grileiros que a fiscalização do Ibama é a única que atrapalha o lucro dessas pessoas. E isso gera críticas do presidente, diz a matéria, que também cita a ação da força Nacional, chefiada pelo marido da deputada Carla Zambelli.

Em seguida, ministro Celso de Mello dá prazo de 72 horas para que o Planalto entregue a gravação do dia da reunião ministerial citada por Moro no depoimento. Matéria com destaque, retomando pontos da denúncia de Moro e falas de Bolsonaro dizendo que ia divulgar esse vídeo e depois voltando atrás. Bonner completa depois dizendo que depois da reportagem, o governo, por meio da AGU, alegou que foram tratados na reunião assuntos potencialmente sensíveis e reservados, e pediu ao ministro para reconsiderar a decisão (desconfio que o decano não fará isso…).

Em seguida, mais foco nas trocas promovidas na PF pelo governo, com Tácio Muzzi na PF do Rio, e mais detalhes das movimentações, recuperando as operações. E depois, a nomeação de indicado pelo Centrão para administrar o Dnocs. Descrevem a “padrinhagem”, as denúncias de corrupção. Ao fundo, a velha imagem de explosão de dinheiro, que sempre aparece nas denúncias sobre a corrupção no PT.

Na sequência, uma matéria bem destacada com fala de Toffoli se manifestando em relação aos atos contra jornalistas. Ele fala na liberdade de expressão, , deixando registrado em ata toda e qualquer forma de agressão à imprensa, na não interferência entre os poderes, no respeito à Constituição, o papel da imprensa livre. Depois de sete minutos, termina citando Hannah Arendt “O poder que não é plural é violência”.

Depois, Lula volta ao JN, sempre na moldura da corrupção. Matéria de 2 minutos para dizer que o TRF 4 rejeitou os recursos da defesa de Lula e manteve a condenação por causa do sitio de Atibaia. Retomaram alguns aspectos da condenação e do julgamento, com a elevação da pena e a acusação de recebimento de propina, sendo a segunda condenação de Lula. Detalhe: quando Bonner vai se referir à justificativa da defesa de Lula, a imagem ao fundo é a tela vermelha com canos de esgoto por onde escorre dinheiro…

Depois, no ultimo bloco, notícia de que cientistas britânicos concluem que novo coronavírus pode ter se espalhado no fim de 2019.

Em seguida, o aumento do dólar e a queda na taxa Selic, o menor patamar histórico.

E entra então a Solidariedade S.A, com ações da CAOA e da Ypê.

E a informação de que o podcast da Renata Lo Prete é o mais baixado na America Latina. Sinal de que os brasileiros estão interessados em saber noticias da Covid-19.