Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN: aulinha de  jornalismo para desconstruir mitos | 29.4.2020

A edição de hoje foi uma aulinha de como utilizar bem o jornalismo – mesclando o factual e o emotivo – para desconstruir mitos. Por isso, proponho também uma estrutura diferente para o Boletim, para nós pensarmos sobre os blocos simbólicos, os blocos de sentido que o JN estabelece nesse processo de desconstrução. Porque a arquitetura simbólica é essencial nessa desconstrução de personagens e mitos. Há, claro, uma ampla cobertura da Covid no país, com destaque para a gravidade da situação em alguns estados, o drama da população, o trabalho incansável das instituições de pesquisa, representadas por Fiocruz e pela Ufpel, mas hoje o enfoque foi um pouco diferente – hoje foi dia de mostrar os absurdos do presidente. Vamos lá a algumas ideias.

1. Ir contra a Constituição para benefício próprio e da família.
A primeira matéria da edição é dedicada à suspensão, pelo ministro Alexandre de Moraes, da nomeação de Alexandre Ramagem para a Polícia Federal. O que se insere na matéria é: “Ramagem é amigo da família do presidente Jair Bolsonaro, que anulou a nomeação. O recuo do presidente aconteceu horas depois de o ministro do Supremo, Alexandre de Moraes, ter suspendido a indicação por possível desvio de finalidade”. a matéria, de mais de 6 minutos, destaca bastante a determinação do ministro do STF, citando vários trechos, como o que fala que o Poder Judiciário pode impedir o Executivo de descumprir princípios constitucionais básicos”, com destaque também para as acusações feitas por Sérgio Moro quando deixou o Ministério, que são relatadas por Alexandre de Moraes no documento. A acusação de interferência política nas investigações da PF, acusação feita por Moro, aparece sempre em destaque. Detalhe: Moro é citado, mas não aparece falando (apenas imagens breves). “E apesar da decisão do ministro Alexandre de Mores”, nos informa Bonner, “Bolsonaro ainda sonha em colocar Alexandre Ramagem na Polícia Federal”. E Délis Ortis reforça que “Bolsonaro sinalizou a vontade pessoal dele”. E a matéria mostra que Bolsonaro contradiz a AGU e diz que ela vai recorrer da decisão. Por fim, ele afirma: “Quero Ramagem lá. Quem manda sou eu”.
Outra matéria que tem destaque (e talvez tenha repercussões) é a da revogação da MP sobre armamento, feita por Bolsonaro contrariando ordem do Exército.

2. Hamilton Mourão é a voz de autoridade e legitimidade a dar alguma garantia ao funcionamento do governo. Ele aparece em momentos-chave, sempre deslocado de Bolsonaro. Ontem e hoje apareceu como se estivesse fazendo um pronunciamento. Hoje ele foi a voz de autoridade a referendar a tentativa de Jair Bolsonaro de se aproximar do Centrão – mesmo sem partido, como lembrou Renata na abertura da matéria. Portanto, um presidente sem partido, que enfrenta uma pandemia, uma crise econômica e fala muitas asneiras precisa de respaldo. Para muito além disso, Mourão é a voz a sinalizar que o governo ficará de pé caso o chefe caia. Ele é o garantidor da ordem e da normalidade. Um detalhe muito relevante: em todos os últimos “pronunciamentos” de Mourão, ele estava num fundo neutro, uma sala com parede forrada com o slogan do governo – Pátria amada Brasil. Um local onde não se via referência ao atual presidente, tipo um retrato na parede, como é de praxe para membros do governo…

3. Bolsonaro e coronavírus

Esse foi, sem dúvida o auge da edição. Em 13 minutos, o JN mostrou que Jair Bolsonaro é o chefe de Estado no mundo que tem a pior postura em relação ao enfrentamento da pandemia. E faz isso de forma inquestionável, reconstruindo a memória do espectador e fazendo a ligação entre a fala do mito e a explosão do vírus. Essa parte começa com Bonner anunciando: “A fala de ontem do presidente Jair Bolsonaro sobre os 5 mil brasileiros mortos pela Covid-19 ainda gera repercussão. Hoje, governadores e parlamentares voltaram a criticar a declaração”. A matéria mostrou então, de novo, a declaração dada na noite anterior diante da pergunta sobre o Brasil ter ultrapassado a China em número de mortes, e entidades da área de saúde se disseram chocadas e afirmaram que esperam do presidente uma atitude mais séria. Destacaram manifestações de várias autoridades. Destaque para a fala de Doria – que sugeriu que Bolsonaro saísse da redoma de Brasilia para visitar hospitais em São Paulo para ver a “gripezinha”… vários parlamentares se manifestaram, com espaço até para o PT, representando pelo ex-governador Jacques Wagner, que exigiu juízo do presidente.
Essa parte da matéria foi encerrada por uma fala contundente de Bonner, um quase editorial:

“Hoje, depois de um café com os deputados que o apoiam, o presidente Jair Bolsonaro voltou a falar do assunto. Ao lado dos parlamentes e diante de apoiadores no Palácio da Alvorada, ele criticou a imprensa, como faz habitualmente. Apesar de os órgãos de imprensa terem reproduzido as palavras dele, textualmente, exatamente como foram ditas, Bolsonaro disse que elas foram distorcidas. E voltou a criticar o isolamento social, com o apoio dos deputados que o acompanhavam. Jair Bolsonaro disse que as mortes ocorreram mesmo com as medidas decretadas pelos governadores e prefeitos. É uma afirmação que contraria FRONTALMENTE TUDO o que afirma a unanimidade das autoridades sanitárias, dos médicos, dos especialistas que, se não fosse o isolamento, o número de mortes seria muitas vezes mais alto do que ocorre hoje. MUITAS VEZES. E que o aumento do número de mortes ocorre exatamente neste momento em que muitas pessoas começam a descumprir o isolamento social”.

Na sequência, Renata afirma que “o ‘E daí’ do presidente não foi a primeira reação de desdém pelas mortes de brasileiros pelo coronavírus. Há nove dias, quando questionado sobre o aumento do registro de óbitos pela Covid-19, Bolsonaro disse que não é coveiro. Foi mais uma entre muuuuuitas declarações que demonstram que desde o começo da pandemia ele minimizou ou subestimou o perigo que o vírus representa”. A partir de então, narrada por Bonner, o que se viu foi uma meticulosa linha do tempo mostrando cada declaração estúpida de Bolsonaro em relação à Covid e o cenário da doença no Brasil, começando por 9 de março, quando ele estava nos EUA falando a empresários e disse que havia exagero nas preocupações. Então, temos:

9/3 – Bolsas caem em todo o mundo pro causa da pandemia. Bolsonaro acusa a imprensa – “Obviamente temos uma pequena crise, e no meu entender muito mais fantasia a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande imprensa propala (sic) ou propaga pelo mundo todo”.

11/03 – OMS declara a pandemia pelo coronavírus. Questionado por repórteres, Bolsonaro declara: “Eu não acho…eu não sou médico. Mas o que eu ouvi até o momento é que outras gripes mataram mais do que essa”.

15/03 – O presidente participa de uma manifestação na porta do Alvorada e contraria as recomendações de isolamento social.

16/03 . Bolsonaro volta a dizer que havia exagero nas preocupações com o coronavírus.

17/03 – O Brasil registra a primeira morte por Covid-19. O presidente classifica de histeria a preocupação com o coronavírus e critica medidas adotadas elos governadores.

20/03 – O Brasil confirma 11 mortes. “No Palácio do Planalto, o presidente fez uma declaração que causou uma perplexidade na comunidade médica e científica: ‘Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar não, talkei?’”.

24/03 – Em pronunciamento nacional, Bolsonaro vota a chamar a Covid-19 de “gripezinnha”. “Pelo meu histórico de atleta, não precisaria me preocupar”.

26/03 – O presidente disse que o brasileiro não pega nada, ao comentar o avanço dramático da doença nos EUA . “Vc vê o cara caindo no esgoto, sai não pega nada”.

29/03 – Bolsonaro provoca aglomeração ao sair para passear em Brasília. “O vírus taí. Vamos ter que enfrentá-lo. Mas enfrentar como homem, não como moleque”.

02/04 – Bolsonaro ridicularizou quem temia se contaminar

12/04 – “O presidente voltou a provocar espanto ao dizer que a pandemia está acabando”.

Uma semana depois – “Quando mais de 2 mil brasileiros tinham morrido, Bolsonaro disse que havia medo em exagero”.

20/04 – “As mortes no Brasil passavam de duas mil e quinhentas. Os repórteres pediram um comentário do presidente da República sobre esse número. Bolsonaro reagiu assim: eu não sou coveiro tá?”.

Detalhe: ao pé da tela, a linha com as datas e os números da Covid no país…

4. Paulo Guedes à frente da Economia, para garantir “normalidade” e reformas, como querem os empresários. No último bloco, depois de mostrar os horrores do presidente, espaço para retomada do protagonismo de Guedes. Numa coletiva, ele e Braga Neto aparecem juntinhos para dizer que não se pode gastar demais e falar em “perfeito entendimento” entre os dois. “Nós vamos seguir nosso caminho”, diz Guedes.

E a Solidariedade S/A vem no esteio desse comando.

É isso. Boa noite.