Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN 29-04: pandemia sem controle, CPI em cena e a esperança do final feliz

Na edição, pandemia e CPI foram os grandes temas em destaque. A abertura do jornal trouxe Bonner de pé, com ar grave, para dizer que “o luto dos brasileiros atingiu mais um marco simbolicamente trágico na pandemia”.

É a deixa para a entrada de Alan Severiano com os números do consórcio de  veículos de imprensa que mostraram a alarmante situação do Brasil. Na tela, o número: 401.417 mortos. Além do número bruto, destaque para a informação, e os gráficos que confirmam, de que “o ritmo de mortes se acelerou de maneira incontrolável neste ano”. O gráfico mostra a evolução do número de mortes e a velocidade com que essa evolução vem subindo – ou seja, um cenário assustador de descontrole total. No ano passado, o país levou cinco meses para atingir 100 mil mortos. Neste ano, em 36 dias, de março a abril, acumulamos mais 100 mil mortes. Um ritmo alucinante. 

Na sequência dessa primeira matéria e em todo o primeiro bloco, a edição mostrou em várias reportagens, o tamanho da tragédia e da negligência do governo. Uma reportagem de 5 minutos mostrou o aumento de mortes por outras doenças por causa dos hospitais lotados pela Covid – com o sistema de saúde em frangalhos por causa da pandemia, as pessoas, mesmo sem covid, pacientes foram afetados pela falta de vagas. A reportagem mostra dados da Fiocruz, com registro de alta de mortes por insuficiência cardíaca e fraturas, e depoimentos de pessoas que viram os parentes morrerem por falta de atendimento.

Outra reportagem mostrou que um lote com quase 105 mil doses da Coronavac, a “vacina do Butantan que falta em todo o país”, segundo Bonner, foi descoberto num depósito do Ministério da Saúde, em Guarulhos.  O lote era parte de uma remessa de 180 mil doses emergenciais entregues pelo Butantan, e o ministério entregou 74 mil à Paraíba, cumprindo ordem judicial, sendo que o restante ficou lá no depósito. A reportagem dimensiona, entre outros, a incompetência do Ministério para gerir a distribuição da vacina. 

Em seguida, reportagem mostrou que, por falta de vacinas, municípios de 20 estados suspenderam a segunda dose da Coronavac, a mesma que tinha um lote ‘esquecido” pelo ministério. A matéria expôs a grande revolta das pessoas que não encontraram vacinas para a segunda dose. Muitas imagens de filas e de pessoas idosas indignadas, revoltadas com a situação, embaixo de chuva, correndo para garantir a dose. Cenário indecente, em nada lembrando o país da campanha de vacinação da gripe, em 2008. 

Por fim, a falta de controle rígido na entrada de viajantes estrangeiros no Brasil, aumentando a  disseminação da doença e contribuindo para a entrada de outras variantes. A reportagem mostrou como é fácil qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, entrar aqui, o que não ocorre em outros lugares do mundo. Vários outros países exigem quarentena rígida, testes e a vacina. A reportagem mostrou personagens, como Bruno, jovem que mora no Japão, que fez uma super longa viagem, passando por escalas, para visitar os parentes no Brasil. E de quem só foi exigido um teste PCR na chegada a São Paulo.

Depois de mostrar o cenário de terra arrasada, motivo mais que justo para investigar como e por que chegamos até aqui,  entra em cena e na pauta, no segundo bloco, os detalhes dos trabalhos da CPI da Covid. E o destaque foi para as “discussões inflamadas” entre os senadores por causa da tentativa de interferência da casa de vidro, quer dizer, Palácio do Planalto, na CPI. Nessa segunda reunião, a  CPI aprovou a convocação dos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich e Eduardo Pazuello, e do atual titular da pasta, Marcelo Queiroga. E pela segunda vez, mostrou a matéria, os governistas apresentaram o mesmo pedido – proibir as sessões virtuais. 

Em seguida, a reportagem mostrou as datas dos depoimentos e deu amplo destaque aos requerimentos do relator, aquele que a turma da casa de vidro não queria, ao governo federal – com pedidos de informação sobre compra de vacina, medicamentos sem eficácia comprovada, isolamento social e quarentena, entre outros. E, claro, houve espaço na reportagem para mostrar cenas alegres do ocupante da casa de vidro em passeios sem uso de máscara e causando aglomeração, o que também foi objeto de requerimento de informação por parte da CPI. A Comissão também pediu ao STF e à CPI das fake news informações sobre a disseminação de mensagens falsas. 

Para fechar, em coletiva com a imprensa, o senador Omar Aziz, presidente da CPI, disse que a CPI quer saber por que o Brasil não comprou, no ano passado, as 70 milhões de doses da vacina da Pfizer que foram oferecidas pelo laboratório ao governo. Por fim, Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues, relator e vice-presidente da CPI, aparecem lado a lado na coletiva, para esclarecerem que somente aqueles que foram “aliados do vírus” é que devem ter medo da CPI. Ao todo, uma reportagem de 7 minutos, bem detalhada. 

E para fechar a edição da terra arrasada pela Covid, aquela dose de emoção que o JN sabe usar muito bem. Reportagem com família da cidade mineira de Sete Lagoas, que “deu a todo mundo um sentimento profundo de alívio e de gratidão”. A mãe Mariana, grávida, piorou muito da Covid, em março, e teve de ser internada e entubada; a menina Manuela nasceu numa cesariana de emergência. O pai já estava internado e entubado, e nem soube do nascimento da filha. Bonner narrava a história, que mostrava a neném que nasceu “miúda” e teve de ser entubada, porque também pegou Covid. 

Mas como é possível pensar em final feliz mesmo no Brasil de Bolsonaro, Manuela se recuperou e foi para casa; depois, foi a  vez do pai, que saiu do hospital e conheceu a filha; e por fim, a mãe saiu do hospital e pôde pegar a filha nos braços. E todos puderam se reencontrar.

No país da tragédia anunciada e sem controle, a mensagem que fica é que ainda é possível sonhar que dias melhores virão.