Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN 28-01: bons jogadores podem se reposicionar e compor com antigos inimigos

Edições jornalísticas que sinalizam mudança de rumo e novos caminhos a seguir – sobretudo do jornal de maior audiência da maior TV do país – devem ser observadas com muita atenção. 

E isso é exatamente o que  mostra a edição do JN de 28 de janeiro, uma sexta-feira quente no janeiro quente do ano quente de 2022 – nos dois sentidos (literal e metafórico) da palavra “quente”.

Já na escalada, o prenúncio de alguma mudança: anúncio de “crime” de Jair Bolsonaro ao divulgar dados sigilosos e Lula sorridente sem fundo vermelho e cano carcomido comemorando decisão de arquivamento do caso do triplex do Guarujá.

Para tecer aqui alguns comentários, vou dividir em campos de sentidos, tal qual, me parece, foi a organização da edição. 

Mas, antes, quero destacar duas coisas. Um primeiro ponto da edição para o qual eu quero chamar atenção é que ela se centrou primordialmente, em termos da construção de sentidos, nos três atores centrais do cenário político nacional atual: Bolsonaro, Lula e Moro, nessa ordem de aparecimento. A partir dessas referências, construiu-se então uma narrativa geral – com vários elementos a compor cada construção individual. 

Outra questão que quero reiterar: a Rede Globo é um player, é um jogador que dispõe de condições excelentes de jogo, que utiliza as armas que tem para alcançar os objetivos definidos. Há um projeto de poder orientador desse arcabouço, claro. E mesmo que haja recuos e/ou reposicionamentos, esse projeto orientador precisa ser considerado. Por outro lado, sobreviver (em todos os sentidos) é preponderante no jogo; e isso também orienta as jogadas. Portanto, por mais que “simpatia é quase amor”, não comemorem pedido de casamento e juras de amor eterno.

Enfim, vamos aos detalhes.

VACINA SIM – NEGACIONISMO NÃO

O primeiro bloco do jornal foi todo dedicado à defesa da vacina, especialmente para as crianças, e à denúncia das ações negacionistas do governo que impactam o processo de vacinação. A primeira reportagem foi sobre a aprovação da Anvisa do autoteste, que passará a ser vendido nas farmácias, mas a venda não vai ser imediata. Segundo a reportagem de 3 minutos, os fabricantes terão primeiro que conseguir a aprovação do registro na Anvisa. 

Em seguida, reportagem de 6 minutos bateu com força nas notas técnicas de Ministérios para desestimular a vacinação infantil. Na abertura, Bonner, entre indignado e perplexo, disse:

“Em mais um movimento do governo Bolsonaro na contramão da ciência, dois ministérios publicaram documentos oficiais para desestimular a vacinação infantil”.  

O primeiro documento mostrado foi a nota técnica do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, da ministra super atuante Damares Alves. A reportagem destaca os absurdos da nota ao tentar justificar a não obrigatoriedade da vacina infantil. E ressaltou que o Ministério ofereceu o Disque 100 para quem se sentir discriminado por não tomar a vacina. A reportagem mostrou os pontos contraditórios e ressaltou com clareza a interferência de Bolsonaro. Além de informar que prefeituras e governos e a iniciativa privada têm autonomia para exigir o passaporte vacinal. Alguns especialistas de peso foram ouvidos e deixaram claro que a vacina é essencial e que a atitude do governo é injustificável e ATRAPALHA todo o trabalho feito por médicos e especialistas. Esses especialistas ressaltaram ainda que as autoridades sanitárias deveriam fazer campanhas para esclarecer a população.

A outra nota mostrada e e rechaçada foi do Ministério da Saúde, assinada pela secretária executiva de Enfrentamento à Covid e pelo diretor. Interessante notar que a reportagem destacou os nomes dos responsáveis pelas notas.  A nota do Ministério é um show de retórica ruim porque afirma que a vacinação nã é obrigatória pq não faz parte do calendário oficial de vacinação… a reportagem destrói os argumentos pela voz dos especialistas, mostrando inclusive que a obrigatoriedade de vacinação consta do ECA – Estatuto a Criança e do Adolescente. A última fala, de Paulo Almeida, do Instituto Questão de Ciência, é bastante contundente. Segundo ele “é insano” o que o governo faz.

Na sequência, o balanço do número de casos de Covid e uma matéria sobre adolescente que morreu de Covid à espera de vaga na UTI.        

BOLSONARO: INDÍCIOS DE CRIME

Depois de mostrar que Jair é negacionista e que suas ações prejudicam inclusive as crianças, o JN mostrou que ele também é acusado de cometer crimes. Reportagem de 7 minutos abriu falando que a PF diz que Bolsonaro cometeu crime ao vazar dados sigilosos. E  na investigação do vazamento de inquérito sobre ataque ao sistema do TSE, a delegada afirma que o presidente teve ‘atuação direta, voluntária e consciente’”. Além de informar que Bolsonaro não compareceu ao depoimento determinado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. 

Reportagem muito detalhada e com abundância de imagens de Jair, o incomível, na live em que fez as acusações e divulgou informações confidenciais e atacando o sistema eleitoral. Muitos detalhes bem explicados para dimensionar para o espectador, de fato, o motivo que levou ao embate com o STF. Todos os detalhes das denúncias infundadas, a divulgação do processo que corria em sigilo nas redes sociais, tudo foi mostrado.  

 A reportagem mostrou também o pedido da AGU e a recusa de Alexandre de Moraes, deixando claro, com detalhes, que Bolsonaro, como funcionário público, tem o dever de proteger documentos sigilosos. Especialistas também falaram sobre os indícios de crime. Enfim, uma boa traulitada em Jair.

LULA: DE BRANCO, COMEMORANDO A VITÓRIA

Uma reportagem de 3:20 abordou, em tom moderado, o arquivamento do processo do triplex do Guarujá contra o ex-presidente Lula. A decisão foi da juíza Pollyanna Alves, da 12ª Vara Federal Criminal em Brasília, que foi mostrada em foto na reportagem. 

Houve imagens de Lula, nenhuma delas com o fundo vermelho e o cano carcomido por onde escorre dinheiro. Ou seja, houve imagens favoráveis do ex-presidente para falar de um tema que já foi ligado à corrupção denunciada porcamente pela Lava Jato.

A matéria mostrou detalhes da decisão da juíza e recuperou rapidamente o que era a denúncia de Moro – de ocultamento do apartamento como corrupção passiva – e também a decisão do Supremo de considerar Moro parcial. E deu ainda destaque para manifestação do ex-juiz dizendo que o ex-presidente Lula ainda tem de explicar as denúncias.  Mas também houve bastante destaque para a nota da defesa de Lula ressaltando a inocência do ex-presidente e a perseguição da qual ele foi vítima.  Ou seja, o atestado de inocência de Lula veio pela voz externa da defesa – não pela voz da bancada do JN.

Ao final da reportagem, cenas da entrevista de Lula à Radio e TV Liberal e o anúncio de Bonner de que o ex-presidente comemorou o arquivamento da ação. E Lula aparece feliz e sorridente, de branco, comemorando e dizendo em horário nobre:

“Quem era herói está virando bandido, e quem era bandido virou herói” 

Nunca antes na história desse país… e na tela da TV, essa é a imagem que fica.

MORO: NÃO SEI, NÃO CONHEÇO, SÓ OUÇO FALAR

A defesa inconteste do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, conduzida pelo JN até ele entrar em desgraça, parece ter chegado mesmo ao fim. Muitos apostavam que o jornal sequer iria comentar a questão do pagamento recebido pelos serviços prestados por ele à consultora Alvarez&Marsal – onde aparece conflito de interesses bem claro, uma vez que ele trabalhou para escritório que administra a recuperação judicial da Odebrecht – que, por sua vez, foi investigada pela Lava-Jato.

O tom da matéria era o mais “neutro” possível, procurando descrever alguns detalhes do assunto sem adotar a defesa antecipada do ex-juiz – o que era o comportamento corrente. Pelo contrário, a impressão que ficava era de que o jornal queria passar logo por aquele assunto e passar uma borracha na relação com o ex rsrs. 

Foi uma reportagem de 2:39 destacando o caso do pagamento e a live em que Moro, com Kim Kataguiri, fala sobre os valores que recebia na consultoria. Na abertura, a explicação certinha de que a consultora atuou como administradora judicial da Odebrecht, que foi investigada pela Lava Jato. E a informação de que o TCU investiga se há conflito de interesses, favorecimentos e troca de favores entre agentes públicos e a iniciativa privada. Esclareceu também que Moro considera a ordem do TCU abusiva.

Claro, apesar do tom tendendo à neutralidade, sem elementos efusivos na narrativa, houve atenuantes, como a divulgação do valor do salário em dólar – o impacto de 45 mil dólares ou 241 mil reais por mês é bem diferente, sabemos.

A reportagem de 2:39 teve a maior parte (1:55) de fala indireta, ou seja, os apresentadores falando do caso e falando das explicações de Moro. Só depois disso é que entra imagem da live, e Moro tem espaço na tela de 44 segundos – e a fala em destaque é de críticas ao TCU. Bem diferente do poder de outros momentos.  

ECONOMIA DO PAÍS DAS MARAVILHAS

Ao melhor estilo de defesa do projeto neoliberal, o jornal mantém a economia e o ministro Paulo Guedes blindados. Chega a ser patética a tentativa de mostrar um cenário econômico positivo, com a pífia reação de alguns setores. Como eu já disse, apesar das reportagens sobre desemprego, desigualdade, PIB, etc. o jornal não monta um cenário de crise econômica – todos os temas são pulverizados.

Pois bem, na edição de ontem, euforia para mostrar que o desemprego teve leve queda – apesar de estar muito alto e da enorme queda na renda do trabalhador – e que alguns setores reagiam positivamente, como construção civil. Claro, um personagem feliz aparece na reportagem, contando da alegria de finalmente conseguir emprego. Outra reportagem mostrou que as contas do governo federal do ano passado fecharam com o menor rombo desde 2014, com déficit de de R$ 35 bilhões – 95% menor do que em 2020. E só então vemos na telinha, finalmente, o ministro dono de off shore. Paulo Guedes aparece como eminência parda, só para comentar que a notícia era positiva. Ele só aparece no JN nesses casos, nunca é questionado, só comenta do seu escritório – sempre me lembro da perseguição ao ex-ministro Guido Mantega.

Detalhe muito interessante: um dos comentaristas ouvidos, do mercado financeiro, que fala na sequência da reportagem com Guedes, diz o seguinte: “E como disse o ministro Paulo Guedes, segurar as pressões por gastos novos”. Que edição combinada é essa? Se o comentarista do mercado financeiro não foi ouvido no mesmo local que o ministro, como ele pode saber o que Guedes disse? Repercussão encomendada? O repórter pede que ele comente uma fala oficial que não foi feita em coletiva? Organização do sentido daquele conjunto de falas sobre o tema para dar a entender que o mercado financeiro fala em consonância com o ministro da economia, sinalizando que tudo está bem?

Enfim, o jornalismo mágico para narrar a economia no País das Maravilhas.

Apesar de escorregões, a edição insinua ou sinaliza que pode sim haver um reposicionamento da Rede Globo em relação ao cenário político. Um reposicionamento com vistas à sobrevivência. Reposicionamento, não adesão inconteste, entendam.

Aguardemos. E oremos