Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN 25-01: o crime organizado e a corrupção no colo de Jair

De um modo geral nas edições do jornal até agora, política e economia são temas que estão ficando um pouco alijados da grade do JN. As péssimas notícias no âmbito econômico não têm grande repercussão – exceção feita à reportagem sobre o corte do orçamento federal em áreas essenciais (mas a ligação era mais com as açoes de Bolsonaro, e não do Ministério da Economia). Por isso, não vamos esperar matérias contundentes contra as aberrações protagonizadas pelo ministro Paulo Guedes, por exemplo. O dono de offshores continua blindado e assim será até o fim do governo. 

Em relação à política, temas muito tocantes não serão expostos – porque, de fato, isso pode alavancar ainda mais certas candidaturas. Então, a grade vai sendo pulverizada, e o boletim do tempo ganha incrementos.

Mas nessa edição de ontem (25 de janeiro), eu quero destacar duas reportagens cujos enredos me pareceram muito relevantes e indicativos de tendências para este ano.

A primeira delas é uma reportagem de três minutos sobre uma apreensão de armas feitas pela polícia civil do Rio. O arsenal estava em posse de um traficante de armas que tem certificado de colecionador e credencial de atirador desportivo.

Muito bem, a matéria dá todos os detalhes, abre falando em um “arsenal de guerra” que estava escondido numa casa, mostra com riqueza o arsenal – realmente impressionante –, dá os números de fuzis e pistolas, além de munição. O investigado, Vitor, estava foragido em Goiás e foi preso com 20 mil munições de fuzil. Ele estava sendo monitorado desde 2018 e fornecia para traficantes. A reportagem mostrou todos os locais e informou que o armamento é todo novo, inclusive tem nota fiscal. Ou seja, é armamento adquirido legalmente. Até aí, o espectador estava meio indignado mas não tinha ainda motivos para achar nada de muito diferente, afinal, tráfico de armas no Rio…

Mas eis que a reportagem dá um pulo do gato e faz a ligação:

“Vitor Furtado só conseguia comprar as armas porque ele tinha licença de colecionador, atirador desportivo e caçador. E era essa a estratégia que usava para abastecer a maior facção criminosa do estado. Vitor Furtado aproveitou as flexibilizações para compra de arma no Brasil”.

E então a reportagem muda o tom e estabelece, com maestria, a ligação entre a flexibilização proposta por Jair para compra de armas o abastecimento de facções criminosas com armamento pesado. Tudo explicadinho para o espectador compreender a responsabilidade do governo. 

“Em 2019, o governo Bolsonaro ampliou a quantidade de armas e munições que podem ser compradas legalmente por colecionadores, atiradores e caçadores”.

E a tela fica preenchida por detalhes do decreto governamental, que diz que cada um interessado que tivesse certificado poderia comprar até mil munições anuais para cada arma de fogo de uso restrito. Vitor, diz a reportagem, tinha 43 licenças.     

Portanto, a impressão que fica a partir da reportagem é que Jair facilitou enormemente a vida de crime organizado no Brasil. Tudo sutil, mas evidente.

E na grade, de modo muito interessante, a matéria de um minuto sobre a morte de Olavo de Carvalho, chamado de guru do bolsonarismo, vem logo na sequência, com um detalhe: uma das imagens na casa do guru da terra plana mostra um conjunto de armas. Adoro o uso simbólico que o JN faz.

A segunda reportagem para a qual eu chamo atenção, que vem na sequência do anúncio da morte de Olavo de Carvalho, é sobre a percepção de corrupção, em que o Brasil piora no ranking – ficou em 96º lugar entre 180 países, numa pesquisa feita pela Transparência Internacional. A reportagem de mais de quatro minutos mostrou que a situação do Brasil piorou nos últimos dois anos, nas três instâncias. Mas mostrou didaticamente as ações da presidência da República que contribuem para essa piora, como: orçamento secreto, troca de delegados da PF, ingerência em órgãos de controle, aumento do fundo eleitoral, ataques de Bolsonaro a instituições eleitorais e ao STF, alinhamento sistemático do PGR com Bolsonaro, desmonte de políticas públicas na área ambiental, retrocesso no acesso à informação, disseminação de fake news por agentes públicos, graves ataques à imprensa. 

E uma voz de autoridade, do diretor executivo da  da Transparência Internacional Brasil, aparece na reportagem para comprovar que o presidente Bolsonaro é o maior responsável por essa percepção péssima em relação à corrupção. Os atos dele alimentam a corrupção no país e a má qualidade da democracia. O negacionismo do governo federal também aparece na reportagem, com destaque.

Ou seja, depois do editorial face a face contra o negacionismo, o JN continua a subir o tom e a mostrar as mazelas de Jair, o incomível – tudo muito medido ainda para não alavancar a candidatura Lula, claro. Mas não deixa de ser um indício interessante para o começo do ano eleitoral. Sigamos.