Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN 23-09: A edição mais curta de quarta-feira não foi muito favorável a Jair

Por que eu digo que a edição não foi muito favorável? Porque assuntos incômodos e com potencial de exploração futura começam a se tornar frequentes no jornal, apesar de não haver uma tendência de bater fortemente em Bolsonaro e/ou no governo. O JN tem mantido, desde 18 de julho, quando o forte embate com Bolsonaro se reverte e parece haver um grande acordo, uma falsa postura de distanciamento. Aparentemente, há uma cobertura que se pretende mais neutra possível, com abordagens variadas e assuntos críticos também. Mas, de uns tempos pra cá, assuntos “perigosos”, com alto potencial de detonação começam a aparecer.

Em outro boletim, mencionei a reportagem boa sobre inflação. Na edição de ontem, três reportagens me chamaram mais a atenção:

1 A queda na renda do brasileiro

Quase 28 milhões estão na informalidade, e mesmo o varejo e a indústria com bom desempenho não são capazes de a gerar mais empregos. Claro que a matéria trouxe um economista para explicar o “fenômeno” e dizer que as empresas vão se “readequando” com a pandemia. Obviamente, podia-se explicar que houve uma enorme precarização do trabalho, acentuada com a pandemia, com as empresas (o que inclui grandes unidades de ensino superior, como mostrou excelente matéria da BBC) demitindo e colocando menos gente pra fazer mais serviço. Mas a reportagem mostra em destaque o caso de uma moça que, após 14 ano perdeu o emprego e obviamente não consegue se realocar. Pontua também que o desemprego está aumentando muito. Enfim, questões explosivas potencialmente. 

2 Queda dos investimentos estrangeiros

“O Banco Central divulgou hoje números que mostram uma queda dos investimentos estrangeiros no Brasil. O CONTRÁRIO do que o presidente Bolsonaro afirmou ontem na Assembleia geral da ONU”, nos informa Bonner. Em 3 minutos, a reportagem desenha bem pra mostrar que, de janeiro a junho de 2020, os investimentos estrangeiros diretos no país caíram mais de 26%. O significado disso é traduzido para nós, não economistas: “Esse dinheiro é aquele que entra no país e permanece a longo prazo, aumentando a capacidade de produção das empresas por meio de fusões, compras e construção de novas instalações. O menor valor para o período nos últimos 11 anos”. Reproduz então a fala de Jair na ONU, citando números inexistentes.

E então, a reportagem faz um link bem interessante: a crescente desconfiança internacional sobre o compromisso do governo brasileiro com as queimadas e o desmatamento. A fonte ouvida não podia ser melhor: Zeina Latif, ex-economista-chefe da XP Investimentos, que se afastou por fazer duras críticas à política econômica (ou à falta de) do governo Bolsonaro. A fala dela é bem relevante: “Isso preocupa porque o Brasil já tem tantas dificuldades internas. A gente tem perdido esse espaço no investimento estrangeiro e adicionamos mais um fator de preocupação. Quer dizer, esse Brasil que cresce pouco, que o ambiente de negócios é tão difícil, que a mão de obra é pouco qualificada… pois é, a gente está acrescentando ainda essa questão ambiental”. Dimensionou o problema. Segundo Bonner, com aquele olhar grave peculiar, o Palácio do Planalto não quis se pronunciar sobre a “contradição” na fala do presidente.              

3 Promoção em massa na Advocacia Geral da União

“Uma promoção em massa de servidores da AGU deixou uma categoria inteira com salários acima de 27 mil reais, o topo da carreira”, diz Renata. Na reportagem de 3 minutos, que reproduziu denúncia do site Poder360, vimos que a promoção em massa contemplou 607 procuradores na última sexta-feira. Na vibe didática do JN,a reportagem explicou que os procuradores da AGU fazem a defesa do governo federal em ações judiciais e extrajudiciais. O número das promoções deu um salto assustador em comparação com outros anos (não entraram, por algum motivo, os anos dos governo petistas – seria interessante fazer esse levantamento). Em 2018, foram feitas 69 promoções. As justificativas da AGU para as promoções foram antiguidade e merecimento… A reportagem expôs os salários dos procuradores e salientou que as promoções ocorrem antes das discussões da reforma administrativa, que vai cortar salário de outros servidores, menos, claro, dos procuradores promovidos. A economista Ana Carla Abrão ressaltou, numa boa fala, que o presidente Jair sancionou a LC 173 que congela os salários, mas não promoções automáticas. Segundo ela, “temos muitos chefes, poucos chefiados, e ao cidadão na ponta sempre desassistido”.  

OBS 1: Em linhas gerais, a edição não bate fortemente em Jair, mas aponta caminhos pra isso e, sobretudo, deixa claro que poderá fazê-lo quando for do interesse. Ademais, sinaliza que os setores econômicos que apoiam Jair, sobretudo o agro é pop, já não estão muito satisfeitos. A conferir. 

OBS 2: A edição deu pouco Ibope à menção a Jair na Time, destacou os pontos negativos que a revista apresentou sobre o presidente e jogou mais luzes sobre a menção a Felipe Neto.

GRADE

Justiça Federal suspende ordem do INSS para volta dos médicos peritos ao trabalho

Recuperação na indústria e no comércio não se reflete em mais postos de trabalho, diz IBGE

Guedes defende tributos alternativos para desonerar folha de pagamento dos empregadores

BC divulga redução dos investimentos internacionais no Brasil e contradiz Bolsonaro

Promoção em massa deixa quase categoria inteira de servidores da AGU no topo da carreira

Justiça dos EUA acusa policial envolvido em operação que resultou na morte de jovem negra

Líder de oposição ao governo russo recebe alta do hospital

Presidente de Belarus toma posse para um sexto mandato

Chineses anunciam resultados promissores de vacina contra Covid

Empresa Janssen anuncia início da terceira e última fase de testes de vacina anti-Covid

Flamengo tem 16 jogadores com Covid; Domènec Torrent também testa positivo

‘Enquanto a vacina não chega, peço a todos que se cuidem’, diz clínico geral

Brasil registra 906 mortes por Covid em 24 horas

Revista ‘Time’ inclui Bolsonaro e Felipe Neto na lista dos 100 mais influentes do mundo

Morre, no Rio, o cantor e compositor Gerson King Combo

Marco Aurélio envia ao plenário virtual do STF pedido de Bolsonaro para depor por escrito

Lava Jato do Paraná cumpre 25 mandados de busca e apreensão

MP cumpre mandados em investigação sobre construção da sede do governo de Minas

Alerj vota nesta quarta (23) prosseguimento do processo de impeachment