Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN 22-09: discurso “polêmico” de Jair na ONU, inflação e Flávio

Em relação ao discurso, as reportagens bateram em alguns pontos, mas muitos ficaram na periferia da abordagem. Enfim, uma prova talvez de que o grande acordo ainda esteja em vigor, pelo bem do agro é pop, das reformas, da economia. O que não significa que não estejam atentos e fortes  – Flavinho, o 01, também aparece em destaque na edição, que relembra também a inflação…

Vou propor para hoje uma análise por blocos gerais que mostram o tom da edição.

 BOLSONARO NA ONU

A chamada de abertura, a escalada, foi bastante contundente nos deslizes de Jair. Foi mais dura e destacou pontos nevrálgicos da fala presidencial – “Na abertura da Assembleia das Nações Unidas, o presidente Bolsonaro defende a política do governo de combate à pandemia. Diz que o Brasil é vítima de uma campanha de desinformação sobre o meio ambiente. E afirma que são índios e caboclos que promovem queimadas nas bordas da Floresta Amazônica pra sobreviver”. 

Então, era de se esperar que a reportagem fosse pincelada por aqueles tons fortes que só o JN sabe dar. Mas não foi tanto assim.  O destaque foi muito bom, em três reportagens que totalizaram 14 minutos. Muito espaço para os ambientalistas refutarem as falas de Jair, mas espaço também para aspectos “positivos” do discurso, mas faltou um toque de desconstrução. Foi uma reportagem relativamente normal para o que seria um discurso normal de um presidente normal. O que não é o caso. 

Foram três reportagens, assim divididas:

A primeira, com 7 minutos: “Em discurso na ONU, Bolsonaro diz que índios e caboclos promovem queimadas. Presidente disse ainda que Brasil é alvo de campanha de ‘desinformação’ sobre questão ambiental”. A reportagem mostrou, com bastante foco, o que Bonner classificou como  “discurso polêmico” do presidente. O repórter Ismar Madeira, direto da ONU, começa destacando um fato já muito batido: pela primeira vez em 75 anos, os líderes mundiais não se reuniram para a Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque. E mostrou alguns detalhes de perfumaria antes de entrar especificamente no discurso de Jair. A primeira menção foi à defesa das ações que ele fez em relação à pandemia. A reportagem foi citando as falas “polêmicas” e mostrando os trechos do discurso. Foram sendo intercalados a narração de Ismar, apenas com os tópicos, e o discurso de Jair. Sem problematizações ou entradas de Bonner – o que costuma ocorrer quando o mote é a desconstrução.

A reportagem destacou muitas trechos, longos, ressaltando que ele apresentou uma lista das medidas de combate à Covid, sobre os incêndios na Amazônia e no Pantanal, sobre a campanha de desinformação da imprensa. Tudo com muito espaço para a fala de Jair. Um espaço positivo. Depois, Ismar retorna para falar que “a história das Nações Unidas se mistura à história da diplomacia brasileira” e dá muito destaque à fala de Bolsonaro: “No discurso, o presidente Bolsonaro citou o papel do nosso país nas relações internacionais e o compromisso do Brasil com a ONU”. E então, mais trechos da fala de Jair ressaltando esses aspectos, num quadro bem positivo. Completando, destaque também para o trecho em que Jair defende os acordos comerciais com a União Europeia.

A segunda reportagem do balanço do discurso mostrou, em 4 minutos, que “Profissionais e órgãos ligados à saúde reagem à fala de Bolsonaro sobre combate à pandemia. O Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde rebateu o discurso de Bolsonaro sobre as ações do governo na pandemia. Presidente também falou sobre o auxílio emergencial dado pelo governo”. Com Delis Ortis (todas as passadas de pano são com ela), a reportagem começa mostrando Jair e ministros reunidos, sem máscara, para assistirem ao discurso do presidente, depois, políticos aliados comemorando a fala presidencial. Somente depois entra a líder do PCdoB questionando e o deputado do PT (o único que aparece) criticando a fala de Jair. E entra então a manifestação do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde rebatendo a fala sobre o tratamento dado à Covid e os números mostrados (alguns). Délis mostra então que o número de beneficiários do auxílio emergencial está correto, mas “Bolsonaro exagerou no valor pago a cada um deles”, e mostrou então a equivalência em dólar, uma vez que Jair citou “aproximadamente mil dólares de auxílio”, o que não se confirma. Mil dólares equivalem a 5.470 reais, e o total do auxílio chega a 4.200 para quem receber todas as parcelas, diz a reportagem. E aí, Delis faz a ressalva salvadora: “Esse valor será recebido pelas mulheres sozinhas, chefes de família, que tiveram o direito a 1200 reais nas primeiras parcelas”.  Pra fechar, uma fala meio deslocada da pesquisadora Margareth Dalcolmo dizendo que Bolsonaro poderia ter ressaltado a ação dos pesquisadores e das empresas – “a grande participação que a iniciativa privada teve, pela primeira vez se observou um novo voluntariado no Brasil”. Fala totalmente em consonância com a pauta global do quadro “Solidariedade S.A”, do protagonismo das empresas. Esquisito.

Creio que o que Jair se “esqueceu”, na verdade, foi de mencionar o quão eficiente foi e continua a ser o trabalho do SUS na pandemia. E ela podia ter destacado isso.  

A segunda reportagem, com Vladimir Netto, mostrou que o discurso de Bolsonaro “provoca reações entre políticos e entidades de meio ambiente. Políticos e ambientalistas também se manifestaram sobre o discurso do presidente nesta terça-feira, na Assembleia Geral da ONU”. Muito destaque para a fala de ambientalistas contradizendo a fala de Bolsonaro sobre os índios, a forte reação do WWF, com o destaque na tela: “Como um roteiro de ficção, o discurso uniu palavras-chave das Nações Unidas com um Brasil que não existiu em 2020”. Importante fala também do cientista Carlos Nobre afirmando que os estudos comprovam que as queimadas são provocadas pela expansão das áreas de pasto e cultivo. E o diretor do Observatório do Clima ressaltou que a postura do presidente pode prejudicar a economia do país. 

O QUE FALTOU: Não houve qualquer contraposição às falas de Jair em relação ao tratamento dado à pandemia no Brasil. Não fizeram um retrospecto do ir e vir de ministros, a fritada de Mandetta, a saída de Teich, a defesa horripilante da cloroquina, a contraposição a determinações da OMS, o interino que se tornou efetivo, os relatórios do TCU mostrando que o Ministério da Saúde não gastou o dinheiro que tinha disponível no combate à pandemia. Tampouco questionou ou se contrapôs aos números mirabolantes mostrados por Jair em relação à Covid – 100 bilhoes de dólares de investimento? Isso confere? As reportagens  também não questionaram a fala dele em relação ao óleo venezuelano nem mostrou as menções reiteradas à religião e ao Brasil conservador. Enfim, douraram um pouco a pílula. 

ELEIÇÕES NA ITÁLIA

Tiveram grande destaque no jornal, com uma boa reportagem mostrando que “Eleitores italianos reelegem governadores bem sucedidos no combate à pandemia. Políticos que agiram de forma eficaz contra o coronavírus tiveram votações expressivas”. 

Recadinho na medida. Fiquemos atentos aos desdobramentos.

FLÁVIO ESCAPA DA ACAREAÇÃO – E A GLOBO NÃO PODE DIVULGAR…

Boa reportagem, de 4 minutos, mostrando que “MP diz que Flávio Bolsonaro pode ter cometido crime de desobediência ao faltar acareação. Uma acareação entre o senador e o empresário Paulo Marinho estava marcada para segunda (21). Flávio não apareceu, estava em agenda no Amazonas e postou fotos em um programa de TV. Mas, antes disso, alegou problema de saúde com impactos futuros”. A reportagem mostrou em destaque os detalhes do despacho do procurador do MP que não aceitou os argumentos da defesa do senador. Foram aparecendo na tela  os questionamentos do procurador aos argumentos da defesa, como em relação à alegação de que Flavio tem Covid (mas sem apresentar laudo médico), e as afirmações de que  “a mera alegação de impossibilidade de comparecimento por motivo de saúde  não contemporânea seria perfilhar a prevaricação”. Ou seja, seria uma omissão do procurador. A reportagem também mostrou que o esperto 01 anunciou nas redes que estava curado de Covid no dia 6 de setembro, ou seja, DUAS SEMANAS (destaque da repórter) antes da acareação. E então, tratou de fazer um retrospecto dos motivos da acareação, das denúncias de Paulo Marinho, em detalhes. Mencionaram que Flavio estava em agenda no Amazonas, mas não deram o video tosco da participação dele no programa de TV. 

Bonner informou então que entrou em contato com a defesa de Flávio, mas não obteve resposta. E Renata ressaltou, muito serena: “Na quarta-feira passada, o desembargador Flávio Dutra negou o recurso da TV Globo e manteve a liminar que proíbe a emissora de divulgar informações e documentos sob segredo de justiça de outro inquérito, o da rachadinha, conduzido pelo MP do Rio”.

Bonner, pra fechar: “A Globo afirma que a decisão judicial foi um cerceamento à liberdade de informar, uma vez que a investigação é de interesse de toda a sociedade. A Globo está avaliando as providências legais cabíveis”.

E imagino que está avaliando outras possibilidades de cobertura também rsrsrs

INFLAÇÃO PARA OS MAIS POBRES

Uma boa abordagem, sensível para ano eleitoral. inflação é sempre carta na manga, especialmente atingindo os mais pobres, potenciais eleitores de Jair. Achei interessante o assunto ter entrado na pauta com essa configuração. Ainda que colorida com os tons da pandemia – foi ela que, segundo Bonner, “aprofundou a desigualdade social no país. Para quem é mais pobre, a inflação foi O DOBRO do índice oficial”. A despeito da pílula ainda sendo dourada, é um tema que promete, numa abordagem que pega aquele espectador que está possesso porque o arroz chegou a 30 reais o pacote. E foram muitos depoimentos assim.  Aguardemos. 

ECONOMIA REAGE

Mas há  setores que reagem, a produção brasileira é pujante – ninguém do governo aparece, nem do Ministério, nem há menção a ações. Uma recuperação sem sujeito oficial. Matéria ainda bem enfeitada pela informação da única fonte, a CNI (Confederação Nacional da Indústria), mostrou que “Pelo terceiro mês, produção industrial dá sinais de recuperação com crescimento de emprego. Segundo o levantamento da Confederação Nacional da Indústria, o setor de móveis foi um dos que mais cresceram no país em agosto, assim como equipamentos de informática, veículos e máquinas e equipamentos”. Claro, a reportagem centrou numa fábrica de móveis em São Paulo que viu a produção crescer enormemente. Enfim, é preciso carregar nas tintas dos aspectos positivos do desempenho econômico que renasce SEM governo. A conferir.  

COVID PREOCUPA

O ar grave estava presente no anúncio da média móvel, que está teimando em escancarar uma incômoda subida dos números da Covid no Brasil. Em duas entradas, com total de 3 minutos e meio, a reportagem foi até realista, mostrando a subida do índice de contágio, mas ainda dourando a pílula – claro, pois São Paulo, a locomotiva do país, não está bem na fita, a Covid está saindo do controle por lá (e pelo país todo). 

SUPERAÇÃO E SOLIDARIEDADE 

Para melhorar o astral e mostrar que somos um país promissor, apesar de tudo, nada melhor que ver a determinação de Edilson para a filha conseguir estudar. 

Nos diz Renata: “Entre tantas dificuldades e tantos desafios que a pandemia tem imposto aos brasileiros, o Jornal Nacional compartilha com você a determinação de um cidadão da região metropolitana de São Paulo. Um pai chamado Edilson”.  

Para garantir à filha condições de estudar de modo remoto,  com a internet ainda muito cara para a maioria da população, Edilson, que é tratador de cavalos, vai todos os dias até a escola da filha, que é longe,  em busca de sinal de internet para baixar para ela o conteúdo das aulas. Ele é viuvo e mora sozinho com a filha Nataly, que quer ser professora. A renda caiu muito com a pandemia, e ele não tem dinheiro para pagar internet. Foram 4 minutos de reportagem para mostrar os desafios de Edilson, sua perseverança e a alegria dos dois. 

Edilson e a filha Nataly

E Bonner encerra, com cara feliz: “Os nossos parabéns, tanto para o Edilson quanto para a Nataly”.