Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN 21-10: Bolsonaro, Doria e a vacina

Além da qeustão Bolsoanro e a vacina, a sabatina do novo indicado ao STF por Bolsonaro, Kassio Marques, teve também destaque no jornal, mas sem detalhes mais interessantes. Destaque também para a declaração “histórica” do papa Francisco em favor da união homoafetiva; feminicídio e agressçoes contra mulehres continuam na pauta; e amenidades e curiosidades, como o fenômeno conhecido como B – R – O BRÓ, o super calor no Piauí nos meses terminados em “bro”, ganham espaço. Matéria legalzinha, interessante, mas realmente com um destaque não justificável (3 minutos) no dia em que nosso presidente dileto nos ameaça com a possibilidade de não termos vacina.

Portanto, vou focar disputa de Bolsonaro com a China (e com João Doria).  

Já na edição do dia 20-10, o JN trouxe uma bem pontuada e extensa reportagem sobre a promessa dos EUA de investirem no Brasil para barrar o avanço da tecnologia 5G da China – com a Huwaei. Reportagem de 7 minutos não defendeu explicitamente os acordos com os EUA, inclusive destacou que o mais prudente era esperar a eleição americana – conselho dado pelo ex-embaixador Rubens Ricupero.

Na edição de ontem, em novo imbroglio com a China,  Bolsonaro afirmou categoricamente que não vai comprar “vacina chinesa”. O enquadramento do tema já foi interessante na abertura de Bonner: “A compra da vacina Coronavac pelo governo federal virou objeto de disputa política. O presidente Jair Bolsonaro desautorizou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e suspendeu a compra do produto desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac com o Instituto Butantan de São Paulo”. Observem que não há a expressão “vacina chinesa” (essa é exclusiva de Bolsonaro) e o produto é sempre ligado ao Instituto Butantan, ao seu protagonismo científico (não apenas à empresa chinesa). Como rótulos e referenciações são definitivos e muito importantes, essa construção do JN diz muito do posicionamento. Em vários momentos, a vacina está sendo chamada de “a vacina do Instituto Butantan”.

Pois bem, a reportagem prosseguiu mostrando a decisão do ministro – que foi celebrada – e a manifestação de Jair nas redes sociais voltando atrás voltando atrás e dizendo que não ia comprar vacina chiensa. Mostrou também o site do Ministério com as mudanças e a posição do secretário executivo. Pazuello não apareceu mais (está com Covid). 

A reportagem também pontuou a “resistência” à vacina do Butantan e o “componente político” da decisão. Pontos importantes que podem ser futuramente (bem) explorados. E aparece então a fala de Bolsonaro, solta, sem edição, em que ele afirma que é o presidente e que não abre mão da autoridade.  

A reportagem refutou os argumentos de Bolsonaro contra a vacina mostrando que o governo já investiu em duas outras vacinas que estão exatamente na mesma fase da vacina “desenvolvida em São Paulo”. 

Numa pose de chefe de Estado, Joao Doria apareceu em seguida JN afirmando que não interessa a origem da vacina, mas sua eficácia. No seu discurso bem dosado, Doria afirmou que há três décadas que o Butantan é o maior fornecedor de vacinas para o Ministério da Saúde e  que a “vacina do Butantan” deve ser adquirida e distribuída pelo SUS, “aplicada gratuitamente na população brasileira”. Um estadista diante do troglodita. Vejam aí as construções para a campanha de 22…

Ao final da reportagem, Bonner informou que o ministro Fux havia recebido o governador Doria.

A  reportagem tocou em pontos importantes como eu mencionei, focando muito na questão do tom político da disputa e da necessidade da vacina, mas não problematizou como poderia/deveria nem bateu em Jair (com o potencial de que dispõe o JN). E também, claro, não mencionou o verdadeiro circo de horrores que o assunto causou nas redes sociais (falarei sobre isso em artigo no Viomundo).

Enfim, não é um assunto que vai se esgotar e pode render uma boa novela.

Aguardemos.