Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN 21-09: Na ONU, Jair mente, nega, oculta…

Narrativa é uma construção argumentativa com o objetivo de dar a entender algo, de levar o espectador a entender algo, a compreender algo de uma determinada forma. E foi isso que a edição de ontem do JN fez, de modo muito efetivo, para dar a entender algumas coisas sobre o discurso de Jair Bolsonaro na ONU.

Para isso, a narrativa da edição se estruturou para mostrar, destacar, comprovar dois aspectos principais: 1) o discurso  foi vergonhoso; 2) Jair mentiu o tempo todo.

Foram 29 minutos, no primeiro bloco, para essa desconstrução.

Já na escalada das manchetes, a dimensão da vergonha e a dimensão da mentira são dadas:

  • O presidente Jair Bolsonaro discursa na Assembleia Geral da ONU diante de líderes de todo o planeta
  • Ele ataca as medidas de isolamento adotadas por prefeitos e governadores e defendidas por democracias mundo afora para conter a pandemia
  • Critica o passaporte sanitário exigido em muitos países integrantes da Organização
  • E contra o que prega a OMS defende medicamentos sem eficácia contra a Covid
  • O presidente do Brasil distorce dados da economia
  • Ao afirmar que não há corrupção no governo omite investigações sobre irregularidades na negociação de vacinas
  • Usa  dados incompletos pra esconder o aumento do desmatamento na Amazônia
  • E mente sobre o tamanho das manifestações de 7 de Setembro a favor      

O tema “Jair na ONU” foi o primeiro da edição, num bloco direto de 29 minutos sem nenhuma interrupção. Ponto a ponto mentiroso foi desconstruído por dados, números, vozes de especialistas. O recorte do discurso foi direto – ou seja, as reportagens colocavam a fala literal de Jair na ONU, sem atenuantes e sem interpretações de fora. Desmentir o que foi dito ficou a cargo dos especialistas – não da bancada do JN. Vozes de autoridade do mundo econômico, político, científico e do meio ambiente desconstruíram com dados e pesquisas, as falas usadas por Bolsonaro. 

Com cara de indignação contida e deboche, o apresentador William Bonner abriu a  série de reportagens, marcando ponto por ponto do discurso:

“O presidente do Brasil cumpriu hoje a tradição de fazer o discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. Mas, ao falar durante 12 minutos, diante de líderes de nações do mundo inteiro, foi como se o presidente Jair Bolsonaro estivesse se dirigindo exclusivamente à base mais fiel de apoiadores dele. Bolsonaro atacou prefeitos e governadores que tomaram medidas de proteção da população na pandemia semelhantes às defendidas por democracias no mundo inteiro. Omitiu investigações sobre suspeitas de corrupção na compra de vacinas. Mentiu sobre a dimensão das manifestações de 7 de Setembro. E pra surpresa maior de quem ouvia, o presidente do Brasil voltou a defender o uso de medicamentos comprovadamente ineficazes contra a Covid”.     

Observem que a fala de Bonner ressaltou que Bolsonaro se opõe às democracias no mundo, inseriu com ênfase o tema corrupção no governo, afirmou que o presidente mentiu e destacou o negacionismo. Percebam a estratégia de construção da narrativa, como já vem ocorrendo: marcar um conjunto de ideias negativas em relação a Bolsonaro, que MENTE, OMITE, ATACA GOVERNADORES, DEFENDE USO DE MEDICAMENTOS SEM EFICÁCIA CONTRA COVID. Tudo o que um presidente do Brasil não pode dizer nem fazer.

Depois, entram as reportagens, com muitas imagens, dados e a informação inicial de que Bolsonaro se encontrou com o presidente da Polônia, Andrei Duda, que vem sendo bastante criticado por discriminação de minorias e ataques à democracia. No melhor estilo “vejam com quem Jair se encontra”. 

E na sequência, os pontos-chave do discurso foram destruídos. Podemos separar a edição em blocos de sentido, blocos temáticos. Para cada bloco, especialistas deram a palavra-final para dimensionar as mentiras e o desastre. 

IMAGEM DISTORCIDA DO BRASIL

A primeira reportagem fez um apanhado geral do discurso para ressaltar  que Bolsonaro prometeu “mostrar ao mundo sua própria versão do Brasil”. O mote da reportagem era “na versão de Brasil descrita por Bolsonaro…” tudo era possível.

Portanto, nessa versão, não há corrupção – e a reportagem informa que ele não mencionou os casos de corrupção na compra de vacinas que estão sendo investigados. Segue a toada, com a fala de Bolsonaro sobre o Brasil que estava “à beira do socialismo e emprestava dinheiro a países comunistas”. Entra o trecho de Jair falando sobre isso. 

A reportagem diz, em seguida, que o presidente afirmou que o Brasil é atraente para investidores. Entra o trecho da fala de Jair. Depois, a abordagem dele sobre o meio ambiente e a Amazônia, “pontos em que recebe críticas em todo o mundo”, destacou o repórter. 

Na sequência, a reportagem afirmou que “Bolsonaro voltou a falar em família, mas deixou claro que defende apenas um modelo”, e entra então o trecho dele falando da “família tradicional como fundamento da civilização”. A matéria também lembrou que Jair mencionou os povos indígenas, mas não entrou na discussão do marco temporal, que pode mudar a forma de demarcar as reservas. 

A reportagem ressaltou ainda que Jair defendeu na ONU, um “palco internacional”, o uso de medicamentos ineficazes contra a Covid. Ao final, fechando a “introdução”, a reportagem mostrou a péssima repercussão na imprensa internacional e deu destaque aos comentários péssimos ouvidos de jornalistas que estavam na sede das Nações Unidas. 

O ex-embaixador Rubens Barbosa disse que Bolsonaro apresentou o Brasil segundo a versão dele, a versão religiosa, conservadora, com críticas aos governos anteriores. “Em termos de política externa, mencionou apenas três ou quatro pontos”, ressaltou.     

ECONOMIA

Economistas foram ouvidos para contestar as informações equivocadas dadas por Jair em relação à economia. A reportagem começa afirmando: “Na área econômica, os analistas veem um Brasil muito diferente daquele que o presidente Jair Bolsonaro apresentou em seu discurso na ONU. E lamentam o uso de dados distorcidos ou incorretos”.

E aparece então o presidente falando que “nosso banco de desenvolvimento” era usado para financiar obras em países comunistas. A reportagem mostrou que não era bem assim, e que o BNDES tinha financiado empreendimentos brasileiros em países da América Latina e da África, e todos os empréstimos tiveram garantias, e os países já pagaram mais de 12 bilhões de dólares, incluindo juros.

Depois, a reportagem mostrou que, segundo dados da ONCTAD, o Brasil não é exatamente o melhor lugar do mundo para o investimento estrangeiro, que está despencando por aqui. Ao contrário do discurso ilusório de Jair. 

Alexandre Schwartsman, ex-presidente de Relações Internacionais do BC, aparece como a fonte para retrucar a fala de Bolsonaro; ele  ligou o aumento da inflação às ações de lockdown. Segundo ele, isso se deve à crise e à instabilidade políticas. 

Dados do IBGE, segundo a reportagem,  mostraram que os empregos formais citados por Bolsonaro estão bem longe de melhorar a situação grave de mais de 14 milhões de desempregados. E Schwartsman cita a pesquisa da Pnad para ressaltar que a situação é bem mais delicada do que a mostrada por Jair. 

Por fim, a reportagem também mostrou que Jair mentiu ao dizer que o Brasil tem um dos melhores desempenhos econômicos entre os países emergentes. E trouxe um relatório do FMI para mostrar que a economia brasileira, na verdade, encolheu 4,1%, ou seja, não cresceu e está atrás de todos os emergentes. Diz a reportagem: “Negar os problemas e não apontar soluções para o futuro do país e para o mundo foi uma oportunidade perdida no discurso de hoje segundo os analistas”. Ou seja, Jair mente e nega a realidade. E não enfrenta os problemas 

PANDEMIA

Sobre a pandemia e o combate à Covid, a reportagem trouxe vários especialistas que refutaram também as falas de Bolsonaro e lamentaram que ele tenha feito, na ONU, um discurso ressaltando o uso de medicamento sem eficácia contra a Covid. E o interessante é que a reportagem ligou o tema do discurso à CPI, num mix de matéria que ficou bem instigante.

A reportagem começou com cenas da CPI e a informação de que os senadores atrasaram em duas horas os trabalhos para ouvirem o discurso do presidente. Entrou então o senador Renan Calheiros refutando a fala de Bolsonaro de que não há corrupção no governo, e ele lembrou a investigação envolvendo a compra da Covaxin, incluindo o pedido de propina. Disse Renan: “Seu discurso foi uma mentira só do começo ao fim. O Brasil perdeu a credibilidade internacional, e a corrupção negada por ele na ONU foi comprovada em várias oportunidades aqui nessa Comissão Parlamentar de Inquérito. Como na propina de um dólar por dose da Covaxin”.

A reportagem também  enfatizou que, apesar de dizer que apoia a vacinação, Bolsonaro, ao longo da pandemia, fez questão de mostrar posição contrária à vacina e até rejeitou urgência na compra, o que provocou atraso no começo da vacinação. Aparece então uma entrevista de Jair, de dezembro de 2020, falando que a pressa da vacina não se justifica.

O infectologista Jamal Suleiman, do Hospital Emílio Ribas afirmou que todo o processo de Bolsonaro durante a pandemia, antes do discurso, foi NEGAR, NEGAR, NEGAR, e que o discurso na ONU portanto não se sustenta. Segundo ele: “Vacina funciona. Ela é fundamental para que as pessoas fiquem protegidas. Ponto. Não tem o ‘se quiser’, não tem essa possibilidade quando vc está falando de saúde da população. A história e a ciência saberão, sem dúvida responsabilizar as pessoas que, nessa pandemia, foram no mínimo omissas”.

Especialistas também lamentaram a defesa – para um plateia internacional – do tratamento com remédios que não funcionam contra Covid. Estêvão Urbano, da Sociedade Brasileira de Infectologia, falou sobre a questão da autonomia médica defendida por Bolsonaro. Segundo ele,  “a autonomia médica é defendida quando existe a comprovação de que as drogas a serem prescritas são seguras e trazem benefícios para o paciente. O que não ocorre em relação às medicações pretensamente propostas como tratamento precoce para a Covid. E isso traz malefícios porque as pessoas se automedicam e atrasam o seu tratamento adequado. E isso pode ter contribuído inclusive para o aumento da mortalidade”.

Muito curioso – ou não – é que o Conselho Federal de Medicina não existe mais como fonte. Isso só funcionava quando era para criticar estupidamente os médicos cubanos.                   

MEIO AMBIENTE  

Segundo a reportagem, para defender a política ambiental do governo, que é criticada dentro e fora do Brasil, o presidente Bolsonaro distorceu informações na ONU. E mais do que nunca, os especialistas mostraram que Jair esconde a realidade e nega a calamidade da situação ambiental do Brasil. E claro, tudo com muitos gráficos e dados para comprovar a mentira.

Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, disse que “a gente pode dividir o discurso do presidente Bolsonaro para meio ambiente entre hipócrita, fantasioso e mentiroso mesmo. Quando ele fala, por exemplo, que o desmatamento, ou dá a entender que o desmatamento está diminuindo, ele pega um mês isolado, mas não faz a conta durante todo o seu período de governo. A verdade é que, desde 2018, o desmatamento só aumentou no Brasil. Sob a gestão Bolsonaro, nós temos um incremento de destruição na Amazônia de 45%”.

A reportagem mostrou também que o governo reduziu a capacidade de atuação dos órgãos ambientais, como o Ibama. E Márcio explicou que o governo Bolsonaro tem a autorização para gastar, mas não efetiva isso, ou seja, não faz o gasto. Porque o governo não tem a intenção de colocar a fiscalização em campo.

A reportagem também mencionou projetos da base do governo que enfraquecem as regras de proteção do meio ambiente. Segundo Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental, a maior mentira foi dizer que a legislação ambiental brasileira é a mais avançada do mundo. Segundo ela, há de fato um bom arcabouço legal consistente depois da Constituição de 88, “mas nesse governo nós tivemos um desmonte da política ambiental”. Ela também questionou duramente a fala de Bolsonaro de que as terras indígenas poderiam ser abertas para outras atividades. 

Enfim, a edição tratou de desconstruir, ponto a ponto, mentira a mentira, o discurso de Jair na ONU. Mais que nunca, ele foi referenciado como o presidente que MENTE, DISTORCE, ENGANA, USA DADOS FALSOS, NEGA A REALIDADE. Alguém que de fato não tem nenhum estofo para ser presidente. 

Não foi por falta de aviso…