Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN (2/3): Colapso da saúde, Jair ausente e Guedes em destaque

O JN sobe o tom com Bolsonaro, apesar de não nomeá-lo diretamente. É ainda tímida a abordagem, num momento em que o Brasil entra em colapso sanitário, e isso se explica talvez pela persistente tentativa em manter e defender o ministro da Economia, Paulo Guedes. 

A edição mesclou – o que está sendo uma tendência – drama e horror com perspectiva de futuro (o que é pautado pela necessidade de reformas e por outras matérias mais leves, bola pra frente). Talvez haja um cálculo de que, aproximando-se o ano eleitoral, subir demais o tom e escancarar todos os graves problemas do governo possa ser uma estratégia que vai beneficiar grupos de oposição. A ver.

Vou destacar alguns pontos gerais da edição.

COLAPSO SANITÁRIO

Desde a escalada das manchetes até quase todo o primeiro bloco, o assunto dominante no JN é o avanço sem controle da Covid-19 pelo Brasil. Todas as regiões são mostradas, com muitos casos e depoimentos de pessoas desesperadas, pacientes que não conseguem vaga, toque de recolher em muitas cidades, secretários de Saúde apelando à população, cenas de aglomeração. O JN já nomeia o assunto como “colapso sanitário”, e essa ideia é dimensionada pelas cenas de pessoas em desespero e pelo giro por todos os estados e regiões, o que que ressalta que todo o país está sem saber como controlar a pandemia. 

Houve também um destaque razoável para a nota da Fiocruz, divulgada ontem (02-03), que mostrava a situação de colapso no Brasil, quando, pela primeira vez, “o país inteiro apresenta piora”.

Detalhes para serem observados:

1Colapsar é o verbo do momento – mas sem agente causador.

As construções das reportagens dimensionam o colapso, não há dúvida, e informam que o Brasil está colapsando. Como verbo intransitivo, não precisa do complemento – basta dizer que o país colapsou e vamos compreender que é enorme nosso drama. No entanto, os agentes causadores do colapso poderiam e deveriam aparecer, ser nomeados, indicados, mostrados, escancarados. E isso não ocorre. O Brasil colapsou simplesmente, como se fosse algo inevitável.

O tom de dramaticidade permanece e é forte. No entanto, drama sem sujeito causador se torna tragédia, naquela acepção de algo sem precedentes que foge ao controle. E a pandemia no Brasil está muitíssimo distante dessa conotação – o alastramento, as novas cepas, a falta de leitos, a falta de vacina, tudo isso tem um responsável principal, um culpado: o governo federal. E isso deveria estar claro, deveria ser mostrado a cada edição como decisão política genocida.

2 Bolsonaro pouco aparece

No dia em que Jair Bolsonaro vetou trechos do projeto de lei que autorizava governadores e prefeitos a adquirirem a vacina em caso de inoperância do Ministério da Saúde  e em o Brasil bateu recorde absoluto no número diário de mortes, a exposição negativa do presidente foi pífia, ínfima, pouquíssimo contundente. A abordagem sobre a vacina foi bastante burocrática, centrada nas discussões do Congresso, portanto, numa linguagem técnica e dosada. E a reportagem sobre o novo recorde de mortos em 24h foi no mesmo molde protocolar dos números do consórcio de mídia. Sem carregar na emoção, sem mostrar culpados, sem apontar o dedo, sem expor Jair. 

É claro, todas essas construções resultam de decisões editoriais. Se no ano passado, quando o Brasil atingiu a marca de 50 mil mortos,  o JN fez um duro editorial e depois uma bela reportagem mostrando as falas de Jair e o avanço da pandemia, hoje, com o país batendo mais de 250 mil mortos e numa disseminação sem controle do vírus, sem qualquer ação efetiva do governo federal, nos cabe questionar o que mudou, se o genocida na presidência continua o mesmo. Tenho palpites.  

3 Empresas privadas podem comprar vacina

Detalhe pouquíssimo explorado – foi apenas citada essa informação como parte do projeto de lei discutido na Câmara. Sem qualquer problematização, sem discutir o desmonte do SUS, sem questionar o impacto disso num momento de pandemia num país extremamente desigual. 

4 Especialistas de peso aparecem pouco

Os grandes pesquisadores, ligados a instituições públicas de pesquisa (Fiocruz, Butantan) e as universidades também públicas estão meio sumidos do JN. ao contrário do que vinha ocorrendo ao longo de 2020. Margareth Dalcolmo, por exemplo, quase não fala mais. E no momento em que todos eles alertam para o “março mais triste da história do Brasil” e quando, curiosamente, a discussão sobre a compra de vacinas pelo setor privado ganha corpo. Coincidências, né? 

GUEDES E A AGENDA NEOLIBERAL

Mesmo não fazendo nada e com o desemprego batendo em mais de 13%, o ministro Paulo Guedes continua com espaço positivo garantido no JN. Na edição de ontem, destaque para a fala dele de que o Brasil, em seis meses pode “virar uma Argentina” e, em um ano e meio “uma Venezuela”, se tomar medidas erradas de política econômica.

Como se o agente responsável por fazer alguma coisa fosse outra pessoa, e não ele, o ministro da Economia. A fala do ministro, dada numa entrevista para um podcast especializado em finanças, foi uma das principais  na reportagem sobre decreto de Bolsonaro que zera impostos federais sobre o gás de cozinha e o diesel. A entrevista é, em si, bastante primária e até idiota – não caberia destaque para uma fala daquela de um ministro num momento grave como este. Mas ganhou muito destaque para rebater as ações do presidente.  Houve reprodução de trechos, com a imagem congelada do ministro, falas foram destacadas sem qualquer contextualização ou problematização, apenas corroborando a necessidade do aclamado controle de gastos.  

LEMBRANDO A CORRUPÇÃO

Muito destaque para a reportagem que mostrou que o STF arquivou denúncia da PGR contra o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Foram 7 minutos para recuperar o caso e contar que “o presidente da Câmara dos Deputados e também os deputados Eduardo da Fonte e Aguinaldo Ribeiro e o senador Ciro Nogueira, do Progressistas foram acusados de organização criminosa por desvio de dinheiro da Petrobras num esquema investigado pela Operação Lava Jato”. Claro, houve espaço para fazer  menção ao “quadrilhão do PT” e mostrar os votos dos ministros. 

Cabe ressaltar aqui que não há no JN qualquer menção aos diálogos descobertos pela operação Spoofing – envolvendo procuradores que investigavam o ex-presidente Lula. Não há problematização, destaque, e segue a defesa velada da Lava Jato, mostrando sempre as ações contra a corrupção. Há sempre a informação de que as mensagens foram obtidas por ação criminosa de hackers e que os procuradores não confirmam a veracidade delas.

A CASA NOVA DE FLAVIO

Reportagem de 5 minutos mostrou detalhes da nova aquisição do filho 01. A matéria mostrou detalhes do valor do imóvel, detalhes da mansão maravilhosa de cinco quartos, o valor da compra, o valor do financiamento com juros de país de primeiro mundo, o valor da prestação (18 mil) e o valor do salário bruto do senador (33 mil). Espaço também para o video que Flávio divulgou falando dos rendimentos da franquia de chocolates que ele tem e que possibilitou a compra do imóvel de luxo. Enfim, uma boa construção, muito bem recheada com detalhes. E pode render   

INVESTIGAÇÃO DA CVM

Grande destaque para o que pode ser um a enorme jogada pilantra com ações da Petrobras. Segundo a reportagem de 5 minutos, “Comissão de Valores Mobiliários pode abrir processo para investigar operações suspeitas com ações da Petrobras. Segundo informado oficialmente, nunca tantas opções de venda da Petrobras tinham sido negociadas de uma só vez. A comissão que regula o mercado de capitais já está avaliando as informações sobre a operação e pode abrir um processo para análise do caso”. A reportagem foi bem detalhada, mostrando que a operação de venda de ações foi feita assim que acabou a reunião ministerial que discutia a Petrobras. O assunto pode render, dependendo dos atores envolvidos. Ou não. Vamos aguardar.