Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN 19-06-21: os 500 mil mortos, as manifestações e a mudança de  posicionamento da Rede Globo

No dia 19 de junho, o Brasil superou a marca absurda de 500 mil mortos pela Covid. E também nesse dia, milhares de pessoas, em todo o país, foram às ruas, apesar da pandemia, gritar contra Jair Bolsonaro. E a edição do Jornal Nacional retratou muito bem esses dois momentos.

Mas para além de retratar e mostrar o peso desses acontecimentos, o JN de 19 de junho explicitou uma mudança de postura em relação à tolerância com Jair Bolsonaro, o que foi dito abertamente num editorial duro que encerrou o jornal. Na edição dos 500 mil mortos e dos protestos, tudo foi simbólico e tudo foi simbolicamente estruturado para sinalizar não só a oposição ao governo, mas o distanciamento em relação ao que Bolsonaro representa. A relação da Rede Globo, especialmente do JN, com o governo Bolsonaro, desde o começo, sempre foi marcada por um visível bate-assopra. Endurecia em alguns momentos e baixava a guarda logo em seguida, deixando em aberto assuntos relevantes e incômodos a partir de acordos que eram celebrados.

A edição de 19 de junho parece colocar fim a esse tipo de relacionamento. Claro, antes que eu receba vários e vários lembretes, sei que estamos falando da Rede Globo, que por um longo período usava um cano de esgoto carcomido por onde escorria dinheiro para “ilustrar” as matérias sobre corrupção envolvendo apenas atores do PT, Lula especialmente, e construir no leitor a percepção de que a corrupção se ligava somente àquele grupo, dando todo o palco para o sucesso de Sérgio Moro, que mandou prender Lula e foi para o governo Bolsonaro. Sei bem de tudo isso, mas a vida é real e de viés, e o cenário mudou, com Bolsonaro mostrando que não é o ogro controlável que imaginavam. Sim, “a Globo é a Globo”, ok. Mas nenhum ator é estático, os players mudam o posicionamento e as jogadas de acordo com a adversidade do cenário. E estamos num cenário muito adverso que prejudica todos os envolvidos.   

O país mergulhou nas trevas, e até a agenda neoliberal passou a correr grande risco com um governo genocida e negacionista. E esse é um ponto importante que reverbera na edição de ontem e que nos dá elementos para compreendermos a guinada do tom do JN – e da Globo como um todo. Claro, há várias outras questões igualmente importantes, o cenário é complexo. Mas, no momento em que a edição do JN estabelece um fio de interpretação ligando as manifestações  à marca de 500 mil mortos, como a dizer implicitamente “as pessoas foram às ruas na pandemia porque o governo não fez nada e chegamos a essa triste marca”, há um posicionamento, há uma ruptura mais efetiva sim. De novo: todos nós sabemos o que o JN fez no verão passado. Mas o momento agora é outro, e as cartas estão na mesa. 

Vamos à edição.

ABERTURA

Para construir um discurso efetivo, o tom que acompanha o dito e a cena que o abriga são essenciais. Assim como a dosagem de emoção. E foi isso que o JN fez para abrir a edição dos 500 mil mortos. De um modo muito expressivo, o jornal ilustrou e dimensionou o peso das ausências trazido pelas mortes. Já na escalada, o peso desse número se impunha – Bonner e Renata estavam totalmente de preto, fisionomia sóbria, e as chamadas feitas sem o som de fundo. 

“Sábado, 19 de junho. A pandemia mata mais de meio milhão de brasileiros. Autoridades e políticos lamentam e criticam a demora do governo federal para comprar vacinas. A falta de coordenação nacional no plano de imunização. As apostas em remédios sem nenhuma eficácia comprovada contra a Covid. Os exemplos negativos do presidente da República no desprezo às medidas sanitárias. E o governo divulga uma lista de realizações em 900 dias de mandato. Milhares de manifestantes voltam às ruas em todas as capitais e no Distrito Federal para protestar pedindo o impeachment do presidente Jair Bolsonaro e para defender a ciência, as vacinas e o uso de máscaras”. 

Na escalada, portanto, a culpa pela pandemia já é colocada no colo de Bolsonaro, elencando o que ele deixou de fazer e o negacionismo – quando se fala em “exemplos negativos”, a imagem dele em aglomerações é mostrada.

           

Nas outras chamadas para a edição, o som de fundo retorna.

Depois da escalada, quando a edição começa, o que vemos são as cenas que simbolicamente retratam a ausência. Não há texto nenhum falando em 500 mil mortos, apenas as cenas com imagens recortadas de pessoas que não estão mais em casa, no almoço de família, no ônibus, no teatro, no parque… e uma referência também simbólica ao aumento descontrolado desse número. 100 mil, 200 mil, 300 mil, 400 mil, 500 mil… números que não são somente números, são números que significam pessoas que deixaram de estar entre nós. Esse é o sentido da ausência. 

E isso foi dimensionado também pela fala de Bonner, ressaltando que “os números não dizem tudo. 500 mil vidas brasileiras perdidas na pandemia significam milhões de pessoas enlutadas pela ausência de um parente ou de um amigo. Milhões”. E chamou a cobertura da tragédia para o final da edição, ligando à cobertura das manifestações.

AS MANIFESTAÇÕES

A reportagem entrou no segundo bloco do jornal e teve quase  seis minutos. O tom, a encenação, as imagens, tudo foi diferente da cobertura das manifestações em 29 de maio. 

Na abertura, a ligação estabelecida com a pandemia e os mortos – “milhares foram às ruas neste dia em que o Brasil atinge a trágica marca de meio milhão de mortos pela Covid”. E dessa vez, o dimensionamento correto: “Em 25 capitais e outras 116 cidades brasileiras, pediram vacina para todos e o impeachment de Bolsonaro”. A reportagem começa com imagens de várias cidades e o som é o dos manifestantes, somente alguns segundos depois entra a locução explicando os atos. Que passaram a ter sujeitos-agentes: as manifestações foram convocados por movimentos sociais e movimentos estudantis. Houve a informação de que “partidos políticos e sindicatos de trabalhadores também apoiaram as manifestações” (entra imagem com bandeiras da CUT), mas fica claro eles não eram os protagonistas (e quero ressaltar aqui que achei muito importante a sacada política do PT e de Lula de não se colocarem como protagonistas nos movimentos).

Houve uma profusão de imagens: muitas do alto, claro, mas também de frente, de lado, caminhando com os manifestantes. Menções reiteradas à preocupação com distanciamento e a informação de que todos usavam máscara – “em várias cidades, era possível notar a preocupação com as medidas sanitárias. Os manifestantes, na grande maioria, estavam de máscara. Mas, apesar do pedido dos organizadores, houve aglomerações”.  Ao contrário da cobertura anterior, a reportagem não ficou enfatizando a todo momento que não respeitavam o distanciamento social, a menção foi breve e ressaltou a preocupação dos organizadores, ao longo da reportagem, em mais de um momento, se falou que os organizadores pediam para que as pessoas respeitassem as normas sanitárias. Isso é um detalhe importante porque estabelece a diferença positiva em relação aos atos promovidos por Bolsonaro.   A imagem é da chamada para a reportagem.  

Houve muito destaque para a voz que vinha das ruas, com o “Fora, genocida” sendo ouvido em alguns momentos – os gritos de ordem, os batuques – e para a pluralidade das faixas. As pautas dos protestos foram lembradas em cada capital – auxílio emergencial, vacina, contra a fome, contra o desemprego. A reportagem mostrou as manifestações em várias capitais. No Rio, destaque para a presença de Chico Buarque na manifestação. Em Maceió, a reportagem destacou que manifestantes “carregavam a bandeira do Brasil e pediam  a saída do presidente Jair Bolsonaro”. Achei uma menção interessante. Porque, desde o impeachment, os símbolos nacionais passaram a estar ligados a um conjunto de manifestantes que se vinculavam ao bolsonarismo e à extrema-direita. Ressaltar que havia essa bandeira ao lado das outras tantas, vermelhas, dimensiona um movimento que se expande, que não se circunscreve a agremiações. Em Porto Alegre, novamente a menção: “A bandeira do Brasil tremulava em Porto Alegre”. Nada é aleatório.   

No registro da manifestação em São Paulo, a imagem ia “subindo” a Avenida Paulista, mostrando que o protesto ocupou 9 quarteirões e dimensionando o ato. Houve muitas imagens e a informação de que os manifestantes culpavam Bolsonaro pelos 500 mil mortos. Citou também os políticos que discursaram. Ao final, a informação de que as manifestações tinham sido pacíficas em todas as capitas e que somente em São Paulo, “na parte final do protesto, alguns vândalos jogaram pedras e quebraram a fachada de um banco”. 

Enfim, outra cobertura. 

500 MIL MORTOS

O assunto teve, ao todo, 28 minutos na edição, em reportagens diversas, incluindo o editorial. As reportagens dimensionaram o drama brasileiro, mostraram a repercussão entre políticos, ex-ministros da Saúde, destacaram o esforço de profissionais de saúde e ressaltaram que o presidente Bolsonaro não se manifestou. A primeira reportagem foi o balanço da Covid, com Fábio Turci, o comentário de Bonner que o Brasil registra alta de casos e de mortes quando rompemos a marca de 500 mil mortos, várias manifestações lamentando a tragédia e a informação de que “o presidente Jair Bolsonaro não se manifestou sobre a tragédia das 500 mil mortes. A Casa Civil divulgou uma nota em que faz um balanço dos primeiros 900 dias de governo”. E entra a reportagem dissecando a nota da Casa Civil que fala em retomada da economia e ações de combate à pandemia. E mostrou também, num tom crítico,  a manifestação do ministro das Comunicações, Fábio Faria, que numa rede social disse que em breve todos veriam políticos e jornalistas “lamentando o número de 500 mil mortos. Nunca os verão comemorar os 86 milhões de doses aplicadas”. A nota ficou na tela e foi lida pelo repórter.

Em seguida, as manifestações de políticos de oposição, governadores e líderes da CPI lamentando o Brasil ter atingido a marca de 500 mil vidas perdidas e criticando a postura do governo.  A primeira manifestação foi a nota pública dos senadores da CPI. E até a manifestação do ex-presidente Lula teve lugar dessa vez, com direito a imagem e à leitura da mensagem, que fala em genocídio. Ciro também aparece, claro. A nota do Conass foi lida, e o governador Flávio Dino (já apresentado como sendo do PSB) apareceu falando da tragédia e da responsabilidade do governo 

Depois, uma reportagem de 3 minutos mostrou o esforço coletivo de muitos profissionais – não especificamente os da saúde – que no dia a dia ajudam no combate à pandemia, pessoas que embalam as vacinas, fazem o controle, fazem a vacinação. Uma lembrança interessante que assinala que todos têm se esforçado muito para acabar com a pandemia, menos o presidente da República, que sequer se manifestou em solidariedade. A vacina foi comparada a um diamante, um diamante a que todos têm direito Ao final, o depoimento de uma enfermeira que vacina as pessoas falando de sua alegria mas também da tristeza, porque não conseguiu vacinar o tio, pois a vacina não chegou a tempo. 

Em seguida, o editorial.

EDITORIAL

Foram três minutos de um contundente editorial, que marca não apenas a acusação a Bolsonaro como responsável pelas 500 mil mortes, mas que assinala um posicionamento contrário do JN e da Rede Globo em relação ao governo. E repito: todos nós sabemos o que a Globo fez no verão passado, mas o que vimos ontem no editorial estabelece sim um novo momento e novas jogadas. Foi uma marcação dura e direta contra Jair. Evidenciando que ele se alinha ao que há de pior na política e que por isso prejudica muito o país. Não foi um editorial para chamar a atenção e chamar ao diálogo. Foi um posicionamento: somos contra. Mesmo com a projeção de um jornalismo “isento”, o que soa cínico diante da postura do jornal e do jornalismo da Globo em relação à Lava Jato, ao impeachment e ao ex-presidente Lula. Mas, ainda assim, foi um posicionamento importante.

Isso pode se alterar? Claro, o mundo é dinâmico. Mas não creio num recuo desse posicionamento do JN/Globo tão cedo. 

Vamos à integra do editorial:  

“Em agosto de 2020, quando o Brasil ultrapassou o registro escandaloso de 100 mil mortes pela Covid, o Jornal Nacional se manifestou sobre essa tragédia num editorial. Parecia que o país tinha superado um limite inalcançável, 100 mil mortos. Neste sábado (19), são 500 mil. Meio milhão de vidas brasileiras perdidas. O sentimento é de horror e de uma solidariedade incondicional às famílias dessas vítimas. São milhões de cidadãos enlutados. Hoje, é evidente que foram muitos – e muito graves – os erros cometidos. Eles estão documentados por entrevistas, declarações, atitudes, manifestações. A aposta insistente e teimosa em remédios sem eficácia, o estímulo frequente a aglomerações, a postura negacionista e inconsequente de não usar máscaras e, o pior, a recusa em assinar contratos para a compra de vacinas a tempo de evitar ainda mais vítimas fatais. No editorial que marcou as 100 mil mortes, nós dissemos que era preciso apurar de quem é a culpa. Dissemos textualmente que esse momento chegaria. Desde o início de maio, o Senado está investigando responsabilidades. Haverá consequências. E a mais básica será a de ter levado ao povo brasileiro o conhecimento sobre como e por que se chegou até aqui. Quando todos nós olharmos para trás, quando nos perguntarem o que fizemos para ajudar a evitar essa tragédia, cada um de nós terá a sua resposta. A esmagadora maioria vai poder dizer, com honestidade e com orgulho, que fez de tudo, fez a sua parte e mais um pouco. Nós, do Jornalismo da Globo, estamos há um ano e meio, com base na ciência, cumprindo o nosso dever de informar, sem meias palavras. Muitas vezes nós pagamos um preço por isso, com incompreensões de grupos que são minoritários, mas barulhentos. Não importa. Nós seguimos em frente, sem concessões. E seguiremos em frente, sem concessões. Porque tudo tem vários ângulos e todos devem ser sempre acolhidos para discussão. Mas há exceções. Quando estão em perigo coisas tão importantes como o direito à saúde, por exemplo. Ou o direito de viver numa democracia. Em casos assim, não há dois lados. E é esse o norte que o Jornalismo da Globo continuará a seguir”.

O texto do editorial não cita nominalmente Jair Bolsonaro. O que pode parecer um recuo, uma “passada de pano”, mas, na verdade, isso deve ser entendido como menosprezo – não é nem necessário citar, não vale a pena nem mencionar o nome, porque elencamos as ações: “Hoje, é evidente que foram muitos – e muito graves – os erros cometidos. Eles estão documentados por entrevistas, declarações, atitudes, manifestações. A aposta insistente e teimosa em remédios sem eficácia, o estímulo frequente a aglomerações, a postura negacionista e inconsequente de não usar máscaras e, o pior, a recusa em assinar contratos para a compra de vacinas a tempo de evitar ainda mais vítimas fatais”. Os erros graves foram sinalizados, bem como a existência de farta documentação sobre esses erros, à qual o jornalismo da Globo tem acesso… 

Todos os recados foram dados: nós dissemos que a culpa tinha de ser apurada, sabemos que há documentação farta, a CPI do Senado está investigando, haverá consequências.  E a marcação final do posicionamento: “Quando estão em perigo coisas tão importantes como o direito à saúde, por exemplo. Ou o direito de viver numa democracia. Em casos assim, não há dois lados”. 

Não há a possibilidade de dois lados – é a civilização contra a barbárie, não é questão de opinião; e a bandeira do Brasil voltou a andar na manifestação junto com as bandeiras vermelhas.

A Terra redonda capota…