Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN 17-09: fome de volta ao país, caos no meio ambiente e Lula esquecido

Vou destacar hoje questões que considero mais marcantes e deixar a grade para vcs também avaliarem. 

PANTANAL QUEIMA… E BOLSONARO IGNORA

Em mais 6 minutos, duas reportagens, a devastação de áreas importantes no Brasil fica escancarada. Dessa vez, segundo o Inpe, “ano de 2020 já é o pior da história do Pantanal em número de queimadas. Só em setembro, o Inpe notificou mais de 5.200 focos de calor no Pantanal. É o pior mês em registros desde o início da série histórica, em 1998. No ano todo, já são quase 16 mil”. As imagens são cada vez mais impressionantes, dimensionando a devastação. 

Os especialistas ouvidos – todos com lastro em pesquisa e universidades federais ou órgãos reconhecidos (isso é importante destacar, não são os desconhecidos de lugar nenhum ouvidos pra se falar de economia) – ajudam a enfatizar a ideia de que se trata de algo que “fugiu completamente do controle”. Como salienta o climatologista da UFMT: “A gente vai pagar um preço muito alto porque a gente não vai recuperar tudo o que perdeu e vai levar um bom tempo pra recuperar parte do que foi perdido”. Ao fundo, no decorrer da fala dele, imagens de animais carbonizados, matas queimadas, fogo.

Depois, em outra reportagem, áreas do cerrado que deveriam ser preservadas, no Tocantins, sofrem com o desmatamento ilegal. A reportagem mostrou flagrantes de equipes do Ibama perto do Parque do Jalapão, importante região turística do estado. A reportagem mostrou, a partir dos ambientalistas e dos fiscais do Ibama, os métodos utilizados, como o correntão, e as imensas áreas – de proteção – devastadas. Absoluta e total falta de poder de Estado, de controle.  

O QUE FALTA: Apesar de dimensionarem a situação e mostrarem o tamanho da tragédia no país, as reportagens não mostram os sujeitos responsáveis. Não há sujeitos. QUEM são os culpados? QUEM desmata? QUEM autoriza? QUEM taca fogo pra fazer pasto?

Na sequência imediata, o presidente Jair, numa inauguração na Paraíba, diz que o Brasil é o país que mais sofre ataques de fora em relação ao meio ambiente, mas o país está de parabéns. A reportagem de um minuto mostrou Jair falando que o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente e que “o. Brasil. está. de parabéns. pela forma. como preserva. esse. seu. meio ambiente (*os pontos são para ilustrar a forma pausada, palavra por palavra, da fala do presidente).

O olhar incrédulo de Renata, na volta à bancada, foi ímpar.          

A FOME VOLTA AO BRASIL

Foi a terceira matéria da edição, no primeiro bloco, e teve um destaque bem interessante. Com 5 minutos, a reportagem mostrou que a fome volta a assombrar o país. Segundo Renata, “o contingente de brasileiros que passa fome voltou a aumentar”. Construção interessante, “voltou a aumentar”, pois marca uma distância em relação a momentos em que a fome caiu. E a reportagem ilustrou isso.  

Poderia, claro, ter falado que o Brasil já havia saído do Mapa da Fome, ter mostrado as políticas que existiam, mas essa é outra história (é pedir demais). 

A reportagem mostrou a cara da fome. Não mostrou números apenas. Mostrou, por exemplo, Sandra, de Baixada Fluminense, no Rio, enxada na mão, barriga vazia, chefe da casa que tem 12 pessoas. Ela contou das inúmeras vezes em que dormiu de barriga vazia para deixar um pouco de comida para os netos pequenos. “Pra mim comer e deixar meus netos com fome, melhor elas comerem do que eu”, diz Sandra.  A neta Sofia, 5 anos, também contou que, às vezes, não tem dinheiro pra comprar pão, e ela dorme com fome.

É uma pesquisa de orçamentos familiares, que investiga insegurança alimentar grave, feita pelo IBGE em 2017 e 2018, divulgada agora.

A reportagem mostrou muitas cenas de muita pobreza, e nenhuma ação do atual governo nesse sentido. Aliás, não há governo no jornal.

Os números tiveram um tratamento exemplar, ou seja, foram mostrados para serem efetivamente compreendidos pelo espectador, os percentuais foram traduzidos. E revelaram, por exemplo, que de cada 100 lares brasileiros, em 4, nem as crianças têm o que comer. A pesquisadora do Observatório da Segurança Alimentar da UnB (de novo, pesquisadores de ponta) enfatizou que “o sofrimento da fome gera situações e consequências perenes não só no corpo, mas também em todo o desenvolvimento cognitivo”.

De modo muito claro, a reportagem mostrou os três níveis da insegurança alimentar definidos pelo IBGE. Em cada ponto, um depoimento ou imagem dolorosa. No primeiro, a preocupação com a falta de comida, e Fernanda de Oliveira, com um bebê no colo, dizendo: “Nessa semana, eu olhei para meu armário e pensei ‘meu Deus, o que vai ser de mim?’”. Depois, os lares considerados moderados a graves, aqueles em que é preciso diminuir a quantidade de comida no prato ou pular refeições, e a cena mostra uma senhora bem idosa comendo num pratinho pequeno. Projetando números na tela, a reportagem mostrou que a situação melhorou muito de 2004 a 2013… obviamente, não foram citados nem os governos responsáveis nem as políticas adotadas. Mas os números estavam lá, assim como a piora rápida a partir de 2018. Nos caos de insegurança grave, a piora é muito acentuada.  

Para arrematar, a explicação de que, para os especialistas, o problema da fome vai além da economia, ou seja, depende da vontade do governo. Elisabeta Recine, da UnB, explicou isso com todas as letras, pontuando o que os últimos governos (Lula e Dilma, sem citar) fizeram: “O conjunto de políticas que configuravam o que a gente chama de rede de proteção, e que foram fundamentais para os resultados positivos que o Brasil vinha alcançando, também foram precarizados, ou por redução drástica de orçamento, ou por fragilização das instituições, das equipes que faziam a implementação desses programas. Em cinco anos, nós regredimos 15”. 

O retrato da fome pelo país também foi mostrado com a discrepância por região, e o recorde ainda no Nordeste. E em Juazeiro, na Bahia, dona Gonçala, de 66 anos, conta sua rotina com a fome: “Dá uma dor por dentro, aquela dor na cabeça, aquela vontade de chorar, aquela vontade de arribar no mundo”. E o corte para a casa da Sandra, no Rio, mostrando as menininhas que, muitas vezes, dormem com fome. “Dormem chorando, né? Com fome… vou fazer o quê?”. 

Nada de governo na matéria. Ninguém ouvido, questionado, qualquer informação. Brasil sem rumo.                 

INEFICIÊNCIA DO GOVERNO: AUXÍLIO EMERGENCIAL E INSS

A reportagem de 4 minutos sobre o auxílio emergencial focou na explicação de quem vai receber e quem não tem direito aos novos valores, a partir de outubro, mostrando casos de pessoas que não receberam todas as parcelas de 600 e nem vão receber as de 300. Citou números – gasto do governo e beneficiados –, mostrou um secretário do Ministério da Cidadania (o ministro Ônix é desaparecido) tentando explicar as regras, “mas a necessidade e as dúvidas ainda levam muitas pessoas para as filas”, explicou Delis Ortiz. E o tom geral da reportagem, apesar de não carregar muito em críticas e  imagens (quando é para dourar, as reportagens são sempre de Delis…), sinaliza ineficiência na condução da política pública e uma grande massa de pessoas que dependem desses recursos. Não é uma boa projeção de governo.

Na primeira matéria da edição, a situação ainda caótica do funcionamento do INSS, mesmo com a reabertura das agências. A reportagem mostrou com destaque o embate entre os médicos peritos e o governo – dos mais de 3 mil peritos, apenas cinco foram trabalhar. Eles alegam que não estão sendo cumpridos os protocolos de segurança. Muitos depoimentos indignados dimensionaram a situação: “A gente fica assim, pra cima e pra baixo, gastando o que não tem. Eu acho isso uma falta de respeito”.

O embate ficou bem explicitado, com explicações do INSS e a nota da Associação dos Médicos Peritos de que, se não forem feitas as vistorias técnicas, eles não voltam ao trabalho. O secretario especial fez um apelo dizendo que os médicos são servidores públicos.  

MENOS DINHEIRO PARA O MEC

A educação corre o risco de perder mais de um bilhão em recursos no orçamento do ano que vem. O ensino médio integral, por exemplo, responsável pela melhoria do principal índice da educação no país, deve perde mais de 500 milhões.  A reportagem mostrou que a equipe do governo está realocando recursos, ou seja, retirando de algumas pastas para outras.

A mais afetada com os cortes será a da Educação Básica. O atual ministro, Milton Ribeiro, disse que não conseguiu reverter esse corte no orçamento e criticou gestores do ex-ministro Weintraub. Segundo ele, esses gestores não apresentaram projetos, não usaram o dinheiro previsto.  Ele citou, e a reportagem mostrou, a ex-secretária de Educação Básica de Weintraub, que não apresentou nenhum projeto, e foi exatamente a pasta houve maior corte, por falta de execução orçamentária. Trocando em miúdos: a secretária tinha o dinheiro, na Educação Básica, e NÃO utilizou…

A reportagem deu um bom espaço para o ministro falar e se expor, mostrando que parte dos recursos cortados serão direcionados a emendas parlamentares – obras e projetos escolhidos pelos parlamentares. Houve críticas do dep. Felipe Rigoni. A reportagem poderia ter discutido mais o absurdo que é uma pasta como a Educação, num país como o Brasil, ter dinheiro e não ser capaz de implementar nenhum projeto.

Ao final, Bonner informou que o JN procurou o Planalto, o ministério da Economia, da Casa Civil, e ninguém deu retorno.    

LULA NÃO É MOSTRADO

Matéria bem destacada na Folha de S. Paulo de ontem (17-09) mostrou o ex-presidente Lula em visita a Renan Calheiros, que está em tratamento contra o câncer. O detalhe destacado pelo jornal, apropriadamente, é que Lula, na visita, faz foto ao lado de Renan SEM MÁSCARA. Quando li a matéria, esperei o alarde no JN, mas o fato não foi sequer mencionado. O jornal não destacou nada, não fez comparações com Bolsonaro (podia-se esperar isso). Enfim, sinalizações que acho relevantes. 

E no mesmo dia, pesquisa do PoderData (Poder360) mostra empate entre Lula e Bolsonaro num eventual segundo turno. De largada, Bolsonaro tem 35%; Lula, 21%. Isso também não é mencionado. No segundo turno, 45 a 45.