Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN 16-09: caos no meio ambiente e idas e vindas de Bolsonaro

Edição mais breve de quarta-feira. Vamos aos destaques.

MEIO AMBIENTE EM COLAPSO

A edição começou com a notícia de que embaixadores de oito países europeus enviaram carta ao governo brasileiro  cobrando o país por medidas para conter o desmatamento na Amazônia, alertando que a devastação dificulta a compra de produtos do país. Ou seja, um alerta perigoso que coloca o agro é pop em polvorosa (ainda que isso não tenha sido efusivamente mostrado). A carta foi enviada ao vice Mourão.

A reportagem destacou muitos detalhes do documento enviado, ressaltando as cobranças feitas e o alerta de que há o interesse no consumo de produtos e alimentos produzidos “de forma justa, ambientalmente adequada e sustentável”. É um alerta bem importante, e a reportagem revelou a preocupação com o assunto. 

A reportagem mostrou também que o vice Mourão se reuniu com ministros para discutir o assunto e deu uma desculpa bem esfarrapada ao ser indagado sobre a questão: disse que, no feriado de 7 de Setembro, “parece que a nossa turma saiu fora, não combateu nada, e a turma do fogo entrou pra valer”. Uma beleza de justificativa diante do caos instalado.  A Associação dos Servidores que atuam na área ambiental reagiu fortemente, questionando a declaração, e a matéria destacou bem a dimensão do problema, mostrando os números que revelam a inação do governo: nos 14 dias de setembro deste ano, o número de focos de incêndio já supera o total registrado em todo o mês de setembro do ano passado. Mourão também se reuniu com o Inpe, reconhecendo os dados, e disse que pretende viajar com os embaixadores europeus pra mostrar a Amazônia. O assunto tem destaque, mas o questionamento a Mourão é muito brando. 

Detalhe: somente no final, e de modo meio tímido, a reportagem citou os especialistas em comércio exterior para dizer que os produtos brasileiros já estão perdendo espaço no mercado estrangeiro.  Na verdade, essa é a grande questão, o grande temor em relação a essa “carta” dos embaixadores. O fato é que já existe boicote a produtores brasileiros, e o movimento tende a crescer. Parece que a reportagem não quis intencionalmente salientar esse ponto, que é péssimo para o agro é pop.

Logo na sequência, reportagem na medida para fritar o ministro Salles, do Meio Ambiente, o que disse que ia “deixar passar a boiada”. Em mais 3 minutos, mostrou-se que o Ministério do Meio Ambiente, mesmo com dinheiro em caixa, não gastou nem 1% da verba para preservação. Segundo a matéria, “a partir de dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento, o Observatório do Clima, rede de organizações da sociedade civil, concluiu que nos primeiros oito meses do ano o ministério tinha em caixa mais de R$ 26,5 milhões, mas usou pouco mais de R$ 105 mil”.

E então, “das queimadas ao lixo no mar, do desmatamento ao clima. O dinheiro do Ministério do Meio ambiente serve para planejar ações de prevenção e combate a desastres ambientais. Mas, neste ano, o Ministério gastou quase NADA em política ambiental”, a reportagem mostrou a total negligência do Ministério comandado por Salles. Ou seja, ele tem o dinheiro e não fez o que deveria ser feito. Como disse uma ambientalista: “Sobrar o dinheiro sem execução, em termos de política pública, é um equívoco. Porque aquele dinheiro, naquele ano, não vai ter produzido políticas públicas. E o dinheiro público é valioso”. 

Uma boa matéria pra ser usada para pedir cabeça de ministro. A ver.     

BOLSONARO VOLTA ATRÁS

Bonner anuncia: “No intervalo de 24 horas, o presidente Jair Bolsonaro abandonou o programa Renda Brasil. E deu sinal verde para o Congresso ressuscitá-lo”. A reportagem, com Delis Ortiz, manteve o mote da “péssima repercussão dos estudos do governo”, que previam congelamento de aposentadorias e pensões, menos parcelas do seguro-desemprego e corte no número de beneficiados pelo BPC. De novo, a fala de Jair afirmando que, até 2022 não se fala mais em Renda Brasil, pra mostrar que não é bem assim e que a conversa foi outra: Bolsonaro se reuniu com o relator do projeto do orçamento, que saiu do encontro autorizado a buscar uma saída para o novo programa. O relator disse, porém, que é preciso mostrar de onde o dinheiro vai sair. 

E um economista desconhecido apareceu falando que é preciso mostrar como será o aumento dos gastos. É uma estratégia discursiva interessante essa do JN: sempre que é preciso repercutir um assunto picante de modo brando, o jornal traz “especialistas” para reafirmarem algo que a reportagem já disse, mas especialistas sem grande destaque, que vão falar de um modo bem suave.     

E Delis mostra então, de modo sutil, o que explica os movimentos de Bolsonaro: os custos – financeiro (orçamento apertado) e político (“que o presidente preferiu transferir para o Congresso”). O ponto principal dessa questão, que explica essas idas e vindas, é sem dúvida o custo político, com Bolsonaro de olho na eleição de 2022, o que a reportagem poderia ter explorado bem mais, com detalhes etc. Mas não o fez. Talvez haja a repercussão em outro momento. Vejamos. 

GLOBO PERDE NA JUSTIÇA

De modo bem seco, sem grandes arroubos editoriais, Bonner informou que desembargador negou recurso da Globo e manteve a liminar que proíbe TV Globo de divulgar informações sobre inquérito. A liminar, que proíbe a divulgação de informações e documentos sob segredo de Justiça do inquérito da rachadinha, conduzido pelo MP-RJ, foi concedida ao senador Flávio Bolsonaro, principal investigado.

“A globo afirma que a decisão judicial foi um cerceamento à liberdade de informar, uma vez que a investigação é de interesse de toda sociedade”, disse Bonner, de modo super sereno.

É, sem dúvida, um golpe para o poderio da Globo, que já mostrou até áudio vazado com conversa de presidente… 

Outra derrota, esperada talvez, foi a manifestação contrária do procurador Aras a investigar ameaça de Bolsonaro a repórter. Segundo a nota seca, “no mês passado, ao ser questionado sobre os cheques do ex-assessor Fabricio Queiroz para a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, o presidente disse, em outras palavras, que tinha vontade de bater no repórter”. Entre muitas caras e bocas, Bonner disse que, “segundo Augusto Aras, não houve constrangimento ilegal porque a conduta do presidente não obrigou o jornalista a fazer algo contra a lei ou o impediu de cumprir a lei”. A manifestação vai para Rosa Weber decidir.

Enfim, a Globo está muito cordata e aceitando todas as decisões. Isso pode indicar um contra-ataque (vamos ver o que vem por aí), mas pode indicar também que o bolsonarismo está acuando a platinada. O que, sinceramente, não me anima. 

PF INTIMA CARLOS E EDUARDO BOLSONARO

Os dois foram intimados como testemunhas no inquérito sobre a realização de atos antidemocráticos. Não foram divulgados detalhes dos motivos para os depoimentos dos filhos do presidente Bolsonaro nem a data em que vão ocorrer. Nota bem sequinha também.

BAGUNÇA NO INSS

O secretário da Previdência resolveu ameaçar os médicos peritos que não voltarem ao trabalho – terão os dias descontados. A reportagem de 3 minutos mostrou a fala oficial (creio que deu muita ênfase a explicações descabidas) e trouxe também a manifestação da Associação dos médicos, que destacou a falta de equipamentos de segurança para execução do trabalho. Como o assunto já foi bem explorado, esse é talvez o desfecho. Mas podia ter sido mais “apimentado”, expondo a leniência dos dirigentes do órgão. 

COVID 

Boa reportagem mostrando a desaceleração do contágio do coronavírus no Brasil, de acordo com pesquisa ampla que vem sendo realizada pela Universidade Federal de Pelotas

POSSE DE PAZUELLO

Apenas um minuto para a posse do interino como efetivo, sem nenhum destaque. A fala dele foi cortada bruscamente na reportagem, no meio do discurso de posse. E nenhum comentário da bancada. Negligência total.