Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN 15-09: um país em crise – confusões na equipe econômica; união de ruralistas e ambientalistas;   superendividados

Queimadas assustadoras, fraude para liberar falcatruas em áreas ambientais preservadas, inoperância no INSS, idas e vindas na condução (?) da economia, superendividamento, tudo mostrou que o país anda mal. Mesmo assim, houve espaço para (poucas) boas notícias, como experimento que muda a forma de os alunos se relacionarem com o aprendizado da matemática.

Vou comentar a partir desses grandes blocos temáticos.

MEIO AMBIENTE EM COLAPSO

Esse bloco mostrou um cenário muito preocupante em relação à questão ambiental no Brasil. Algo nunca visto, como salientam os ambientalistas e outros especialistas ouvidos nas reportagens. 

A primeira matéria da edição cumpriu a função de mostrar que há agentes por trás das cenas de devastação ambiental – a reportagem mostrou grandes fraudes no Ibama para liberar áreas embargadas, áreas de proteção ambiental no Mato Grosso. Segundo a reportagem, os  fraudadores se passavam por funcionários para alterar a liberação das propriedades. No entanto, no decorrer da matéria, a constatação de que as fraudes, como ocorriam, só podiam se efetivar com a ”colaboração” de funcionários com altos cargos, sendo um dos investigados o já conhecido deputado Sandro Mabel, de Goiás. O esquema mostrado é bem profissional, aliviando multas enormes e liberando as áreas para exploração.

A matéria seguinte mostra algo inédito no Brasil, dimensionando o tamanho do problema que vivemos: ambientalistas e ruralistas se unem para enviar ao governo proposta de contenção do desmatamento na Amazônia, com seis grandes ações que visam “estancar a destruição do meio ambiente e os prejuízos ao Brasil e à imagem do país lá fora”. Repito: ambientalistas e ruralistas unidos por uma causa. Entre as ações, intensificação da fiscalização e combate à grilagem em terras indígenas e florestas públicas. Segundo a reportagem: “O desmatamento acelerado e o aumento dos focos de queimada, que agora incendeiam serras, florestas e o Pantanal, uniram quem já esteve em campos que pareciam opostos. Ambientalistas e empresários do agronegócio estão juntos em busca de soluções que não podem mais esperar”. Boa reportagem, com 4 minutos, ouvindo os dois lados dizerem que o desmatamento é ruim para o Brasil. O representante da Associação do Agronegócio explicou a Coalização Brasil ressaltando que os setores que agora se juntam querem uma agenda positiva. 

A se considerar a reação inócua do governo, a Coalizão dará com os burros n’água.

Ainda no bloco ambiente, mais reportagens sobre a destruição Pantanal, com os incontroláveis focos de incêndio. Também no Tocantins, com as queimadas que se espalham por áreas de preservação, o espetáculo triste do “fogo por todo lado”. Um desastre incalculável. 

Depois de tudo isso, matéria mostra o vice, Hamilton Mourão, afirmando que “alguém” no Inpe prioriza a divulgação de “dados ruins” sobre as queimadas, os incêndios. A matéria de 4 minutos afirma: “Sem provas, Mourão diz que opositor no Inpe prioriza divulgação de dados negativos. Declaração foi feita nesta terça-feira (15) pelo vice-presidente ao ser questionado sobre as queimadas na Amazônia. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais nega manipulação”.

A matéria mostrou a fala de Mourão dizendo claramente que “alguém lá de dentro que faz oposição ao governo. Aí, quando o dado é negativo, o cara vai lá e divulga. Quando é positivo, não divulga”. A matéria então rebateu o exemplo dado pelo vice, relativo aos focos de incêndios (segundo ele, em queda se comparados com os do ano passado), mostrando o número de focos na Amazônia. E deu voz ampla aos especialistas do Inpe para explicarem as pesquisas feitas e os dados. Ao final, a reportagem mostrou que qualquer pessoa pode ter acesso aos dados, que estão disponíveis para consulta na página do Inpe. 

CONFUSÃO NA ECONOMIA

“Sepultamento” do projeto Renda Mínima gera mais confusão na condução da economia. Segundo Bonner, na abertura da reportagem: “A repercussão desastrosa de estudos do governo para criar um programa substituto do Bolsa Família levou o presidente Jair Bolsonaro a sepultar o projeto e a desautorizar a equipe econômica”. Marcação importante: repercussão desastrosa. 

Entra então a reportagem com Delis Ortiz, mostrando o secretário especial de Fazenda, em entrevista ao G1, afirmando que a área econômica do governo Jair Bolsonaro apoia que os benefícios previdenciários, como aposentadorias e pensões, sejam desvinculados do aumento do salário mínimo e congelados. Todos os jornais estamparam as intenções claras do governo, e isso gerou o destempero de Jair. A reportagem prosseguiu mostrando os cálculos, o impacto na previdência, a possível economia, dando a entender que a intenção do governo era cortar em benefícios já existentes para criar o projeto desejado por Bolsonaro. Com vistas à eleição, claro.

A reportagem mostrou em destaque a matéria do jornal Folha de São Paulo, com foco na manchete “Governo quer decreto para cortar 10 bi de carentes”. Nem é preciso dizer que Jair ficou louco com as manchetes. Em live, mostrada com destaque pela reportagem, ele aparece nervoso, mostrando as manchetes nos jornais (com criticas à Folha) e dizendo que é tudo mentira, dando cartão vermelho para a equipe econômica. E ressaltou que no seu governo “jamais vai tirar dinheiro dos pobres para dar para os paupérrimos”. E disse que está proibido falar em Renda Brasil.

A matéria mostrou ainda outras “intenções” ocultas da equipe, como a interferência no BPC – Benefício de Prestação continuada. 

PArece-me que a reportagem ficou um pouco “bipolar” – mostra o “desastre” da intenção do governo, mas dá muito tempo para exposição de Bolsonaro, para sua explicação numa live. Depois, claro, Guedes aparece em outra live live pra dizer que “cartão vermelho não foi pra ele” e que o presidente tem o direito de dar uma resposta política. Uma fala bastante idiota de um ministro da Economia. A reportagem expôs a briga de Bolsonaro com a equipe econômica, mas sem incentivar o potencial explosivo, sem mostrar que estamos na verdade à deriva (sei bem que não há intenção de se mostrar isso)         

FILAS NO INSS E DESRESPEITO AO CIDADÃO 

Prosseguem as reportagens sobre o caos no INSS. O tom destacado era: “Mesmo depois de passar mais de cinco meses com as portas das agências fechadas por causa da pandemia, o INSS ainda não sabe quando o serviço de perícias médicas vai voltar ao normal”, ressaltando a inoperância e a falta de planejamento a partir da fala de especialistas.

CIDADÃOS SUPERENDIVIDADOS

“Milhões de brasileiros estão com tantas contas atrasadas que entram na categoria de cidadãos superendividados. A renegociação em bloco, com vários credores ao mesmo tempo pode ser uma saída”. A reportagem dimensionou o problema e tentou mostrar que há alguma possibilidade de saída.

No entanto, a dureza dos relatos de pessoas que perderam sua renda  evidenciou uma realidade que é muito grave e que se agrava muito no Brasil. É claro que a matéria puxa um pouco a questão da responsabilidade de cada um no “descontrole” dos gastos domésticos. Mas fica meio evidente que a precarização da situação econômica no país avança. São 63,5 milhões de brasileiros endividados. E 35 milhões de superendividados. Que são, segundo bem explicou uma professora da UFRGS, aquelas pessoas que já não conseguem sobreviver da mesma maneira digna. A fala de um representante do Centro de Prevenção ao Superendividamento apontou alguma luz  a partir das negociações, com o modelo de conciliação em bloco, com um projeto tramitando na Camara, e a possibilidade de educação financeira. Mas o problema é grave, e mesmo com a pílula dourada, ficou exposto.