Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN 14-09: muitas queimadas e destaque moderado para nova denúncia contra Lula

Ao contrário do que se poderia supor, a nova denúncia do MP contra Lula não teve o estardalhaço possível,  nem chamada na escalada.  Outro aspecto importante foi o escamoteamento da notícia ruim que encobriu a euforia com a média móvel e a queda acentuada que se vinha observando no número de casos. Destaque também para o caos do INSS, no retorno aos atendimentos presenciais. Vamos aos destaques.

LAVA JATO E LULA 

Cobertura sem muita euforia nem destaque. A notícia saiu no meio do 3º Bloco, e a matéria teve 3 minutos ao todo, com um tratamento relativamente normal: “Lava Jato denuncia o ex-presidente Lula em mais uma investigação. Desta vez, o ex-presidente é acusado de receber propina disfarçada de doação para o Instituto Lula”. A reportagem trouxe à cena explicações sobre a denúncia, citando também acusações contra Paulo Okamoto e Antonio Palocci. A cobertura desse assunto tem pontos interessantes. 

A tradicional imagem do fundo vermelho com o cano por onde jorra dinheiro não saiu – apenas no meio da matéria, quando se falou que o MPF apresenta 4 recibos das doações ao Instituto Lula, aparece a imagem de um chão coberto por dinheiro, de modo muito breve e pouco destacado: 4 segundos.

Há também pouquíssimas imagens de Lula (e elas não são aquelas costumeiramente ruins) – ele aparece por 5 segundos, em duas imagens distintas, falando normalmente, em palestras, de terno e gravata, quando a matéria menciona de modo seco as denúncias. 

A reportagem tem ao todo 3 minutos. Desses, a metade foi a cobertura do assunto, e a outra metade foi dedicada às explicações da defesa – claro, sem aparecerem os advogados, apenas com a leitura das notas. 

Achei uma matéria bem interessante pela abordagem quase protocolar do assunto – trata-se da Lava Jato contra Lula, o que sempre foi um espetáculo nas mãos do JN. Aguardemos.  

NADA DE IURD

Não houve repercussão sobre as denúncias apresentadas no sábado falando que a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD para os leigos) era usada para lavagem de dinheiro. Relativo ao assunto, apenas a notícia de que “Defesa de Crivella pede habeas corpus contra operação de busca e apreensão. O Ministério Público do Rio fez operação de busca e apreensão na residência do prefeito do Rio e no Palácio da Cidade”. A defesa menciona reportagem feita pela Rede Globo, o que é mencionado, assim como a afirmação dos procuradores sobe a investigação. Não há imagens de Crivella.   

CAOS NO INSS

Foi a reportagem de abertura do JN, com bastante destaque para as filas, a falta de médicos, as pessoas revoltadas na reabertura das agências do INSS. O descaso desse governo foi bem explorada. “Um pesadelo para milhares de brasileiros em todo o país”, ressaltou Bonner. Ao todo, 8 minutos de reportagem sobre o assunto, em duas matérias. Muito destaque para as filas em todo o país e a população revoltada. Depoimentos muito indignados de pessoas que fizeram o agendamento, mas, mesmo assim, tiveram de enfrentar filas enormes e NÃO FORAM ATENDIDAS. Um total descaso com a população – isso ficou bem evidente.

Depois, também ficou evidente a desfaçatez do presidente do INSS ao dizer que realmente faltou planejamento e que aproveitava a oportunidade para pedir desculpas. Ele recomendou também que as pessoas fizessem novo agendamento e consultassem o site – que, faltou a reportagem do JN mostrar, não funciona.       

COVID DISFARÇADA

A reportagem tentou mostrar que, após uma acentuada queda em uma semana, “o Brasil volta à estabilidade na média de mortes por Covid. Segundo o levantamento do consórcio de veículos de imprensa, o Brasil registrou 454 mortes por coronavírus em 24 horas. O total de mortos chega a 132.117”.

No entanto, uma olhada um pouquinho mais apurada nos números vai revelar que eles, na verdade, voltaram a subir. Ou seja, nada como algumas estratégias de discurso pra deixar de dizer certas coisas. A matéria não explica o que está ocorrendo de verdade e fica centrada na exposição de percentuais, o que ninguém entende, e insiste na ideia de “estabilidade”.

Portanto, se havia uma queda acentuada em 08-09, uma queda de 26%, bastante expressiva, isso NÃO  se manteve – se os percentuais diminuem, há uma subida no número de mortes. Segundo a reportagem, os “especialistas” (que não aparecem dessa vez) falaram que esse percentual de 15% é o “limite” da estabilidade. Diz a matéria: “Ou seja, depois de sete dias de queda,  nós temos agora uma tendência de estabilidade”. Bem, no meu parco entendimento, estabilidade significa não alteração, e o quadro não mostra isso. Vejam na imagem.

Ela revela que a tendência de queda se reverte e está diminuindo muito. Mas, como tudo está se reabrindo, Sampa precisa funcionar, o Rio também, a economia, Natal chegando, não dá pra dizer que nossa tendência de queda está fazendo água…

PANTANAL SOB CHAMAS

Dessa vez, as reportagens (foram duas) mostraram muitas imagens das chamas destruindo tudo.  Na aldeia do Parque do Xingu, o fogo destruiu as casas, e um enfermeiro que trabalha no local filmou tudo e lamentou a destruição da casa da equipe: “que dó, gente, que dó”. Na estrada que liga Cuiabá à Chapada, interrupção do trânsito e cenas impressionantes do fogo que quase pegou o carro de uma família (“cuida, Jesus! Cuida, Jesus”), além de cenas de muitos animais sendo encontrados agonizando. E somente agora o Mato Grosso decreta estado de calamidade pública. Um ambientalista declarou que é um verdadeiro colapso ambiental, “algo que a gente nunca tinha visto”. E enquanto ele falava, as imagens rodavam, muito impressionantes. Depois, nota seca do governo do estado.

Na outra matéria, a situação de calamidade também no Mato Grosso do Sul, finalmente reconhecida pelo governo federal. Além disso, a matéria mostra que “há suspeita de que o fogo tenha sido colocado para depois transformar a área em pastagem”. Parece que a PF descobriu a pólvora. Quem ia imaginar que grandes fazendeiros fossem capazes de tacar fogo em áreas preservadas pra fazer pasto, não é mesmo? Todos muito inocentes diante de todas as evidências de que esse governo deixa livres os adeptos das queimadas.   

BOLSONARO E A DÍVIDA DAS IGREJAS

Reportagem um pouco confusa: “Bolsonaro sugere que Congresso derrube o seu próprio veto ao perdão de dívidas de igrejas. O presidente Jair Bolsonaro vetou o trecho da lei que isentava as igrejas da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido e anulava as multas já aplicadas pelo não pagamento dessa contribuição”.

Mostrou a questão da CSLL (contribuição sobre lucro líquido) com as igrejas, ressaltando que o lucro é tributado. O mais interessante foi a manifestação de Bolsonaro nas redes sociais, dizendo que é obrigado a vetar para evitar “um quase certo processo de impeachment”. A reportagem apenas mostrou a declaração, sem muita repercussão. No mais, explicação bastante confusa, com vários depoimentos de integrantes da bancada evangélica e outros, mas sem entrar muito em grandes discussões.

PERFUMARIA E PROPAGANDA

F1 continua em evidência às segundas-feiras (propaganda bem feita), e destaque também para as queixas de Neymar.  

VACINAS

Assunto AstraZeneca sumiu da pauta. E ontem, uma nota de 19 segundos informou que as autoridades russas anunciam que já recrutaram 55 mil voluntários para teste de vacina. Sem mais repercussão. 

SOLIDARIEDADE E ESPERANÇA

Pra encerrar a edição, aquela dose de esperança e alento pra seguir em frente. Matéria de 3 minutos mostrou queMúsicos da favela da Maré, no Rio, homenageiam profissionais de saúde da UPA da Maré. Depoimento muito emocionante da enfermeira Ágata, que perdeu a filha com Covid.