Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN 14-03: GASOLINA ESTÁ CARA? A CULPA É DE PUTIN…

O Jornal Nacional, desde a semana passada, estabeleceu essa ligação de modo bastante claro e quase desenhado – como reforçou a abertura de uma das reportagens sobre o tema: “É o preço da guerra da Ucrânia, que começa a ser pago pelos brasileiros no país inteiro”. Ou seja, de Norte a Sul do país, os brasileiros têm um motivo a mais para odiarem o presidente russo. Por aqui, desde antes do começo da pandemia, milhares de brasileiros voltaram a usar álcool para cozinhar porque não conseguem mais comprar o botijão de gás – vejam: a guerra começou há 18 dias, e os brasileiros já cortam o gás desde 2020. Mas nada disso é relembrado.

A relação de causa e efeito GUERRA NA UCRÂNIA –– AUMENTO DO PREÇO DA GASOLINA não se sustenta como justificativa única e absoluta para a explosão dos preços. Claro, a guerra provocou um aumento no preço do barril de petróleo – isso é fato; mas isso apenas não justifica a gasolina custar 10 reais em postos Brasil afora. Se houvesse, por exemplo, uma política de preços que considerasse também o consumidor e não apenas os lucros que devem ser distribuídos para os acionistas, isso seria bem diferente, não seria?

No ano passado, a Petrobras teve lucro recorde de R$ 106,6 bilhões. Segundo o jornalista Luis Nassif, no Twitter: 1) a empresa tem um custo de produção de 30 dólares, mas vende o produto por 120 para acompanhar o mercado internacional;  2) todo o super lucro foi distribuído entre acionistas 3) “Dizer que subsidiar a gasolina beneficia ricos que a consomem é não ter a menor noção sobre o peso do combustível no orçamento do rico e do pobre. É o mesmo que dizer que o subsídio à cesta básica beneficia o rico que come feijão”.

Muito bem. A partir dessa contextualização breve, eu quero chegar às edições do JN em relação ao assunto e às operações de apagamento. Vejam: estabelecer ligações com a história, com o contexto, com aqueles fatos mais antigos é uma das bases para a construção de narrativa – tomada aqui como a construção de argumento, e não como simples relato de alguma coisa que aconteceu. Sempre há algo a ser recuperado, ou não, para provocar as ligações e as conexões para explicar coisas do presente. Portanto, o apagamento de fatos e contextos e versões é também ação proposital, intencional que compõe igualmente a construção de narrativas. Os fatos históricos, mesmo recentes, são importantes para explicar os fatos do presente. Se a gasolina aqui está sem controle, isso não é somente culpa de Putin ou da guerra.

Pois bem, esse apagamento esteve bastante presente na cobertura do JN sobre o aumento do preço da gasolina: o fato foi totalmente vinculado à guerra na Ucrânia. É claro que a guerra influencia, pois o preço do barril de petróleo aumentou. Mas será mesmo somente esse fator o que explica a gasolina no Brasil estar custando mais de 8 reais o litro?

O aumento recorrente dos preços da Petrobras só se explica pela guerra? Será que a política de reajuste de preços da petroleira, que se volta agora somente para os acionistas, também não mereceria nenhum destaque, nenhuma especulação?

Não caberia comparar com outros momentos da vida nacional, quando havia crise internacional, aumento do barril de petróleo e, mesmo assim, a gasolina aqui custava a bagatela de 2 reais e 80 centavos?!?

Pois bem, agora que a situação é grave – porque o aumento no preço da gasolina, do gás e do diesel impacta TUDO na vida nacional, e é hipócrita quem diz que isso somente afeta os ricos e que pode ser bom para o meio ambiente – é preciso achar um culpado. E esse responsável não será nunca o ministro que só se preocupa com offshore em paraíso fiscal. Paulo Guedes, na verdade, nem mais aparece no noticiário. Portanto, o culpado é Putin.  

É bastante curioso dizer que o aumento do preço da gasolina, do gás de cozinha e do diesel é somente fruto da guerra quando, desde a posse de bolsonaro e Paulo Guedes, já houve vários aumentos, levando os brasileiros a, por exemplo, voltarem a usar álcool para cozinhar pq não podem mais pagar pelo botijão de gás. 

Voltemos à edição de ontem do JN, que teve uma reportagem, de três minutos, para explicar por que o Brasil importa petróleo se o país é produtor, numa tentativa de encontrar justificativas para o cenário atual. Na abertura, a antecipação do enquadramento do tema: “O aumento do preço do petróleo é uma preocupação planetária”. Ou seja, não há efetivamente muita coisa que o governo de Jair Bolsonaro possa fazer, o planeta todo está sofrendo as consequências. Uma observação: crise externa somente passou a ser considerada como fator de impacto em questões internas, pela cobertura da imprensa, a partir de 2016. Antes, o tema era tratado como desculpa – ou seja, crises externas até 2016 não eram consideradas motivos de problemas internos.  

A reportagem do JN foi bastante didática: informou que o Brasil produz 3 milhões de barris/dia, que consome 2,5 milhões, que mesmo assim importa 300 mil barris, que há tipos diferentes de petróleo  e construiu uma explicação para mostrar por que não somos autossuficientes. Foi trazida a voz de autoridade dos laboratórios para dar a explicação – há vários tipos de petróleo, “alguns são mais viscosos, mais pesados; outros são chamados de leves, são ideais para fazer alguns tipos de combustíveis”. A reportagem explicou que essa diferença é fundamental na hora de transformar o óleo bruto em gasolina, diesel etc.      

Houve também uma breve retomada histórica pra falar das refinarias, “quase todas construídas até a década de 1970”, quando o país importava óleo do Oriente Médio. “Em 1979, encontramos as grandes reservas da Bacia de Campos, no litoral do Rio de Janeiro; e nos anos de 1980, adaptamos as refinarias para processar o petróleo pesado que extraíamos de lá. Na primeira década dos anos 2000, tivemos que fazer novas adaptações. Dessa vez, para o petróleo do pré-sal. Ele é mais leve do que o de Campos, mas ainda mais pesado que o do Oriente Médio, por exemplo”. E o pré-sal, na reportagem, é só isso mesmo, um detalhe no tempo.  

Muito bem, dadas as explicações sobre a produção – com fontes variadas, incluindo pesquisadores –, entra em cena a justificativa para os preços. Claro, outro especialista, Eberaldo Almeida, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás, vai dar a justificativa:

“A análise é feita até por inteligência artificial. São milhares de variáveis que entram aí, e que variam também de acordo com a precificação desses subprodutos no mercado internacional. Tem época que a gasolina vale mais, tem época que vale menos, então o que se coloca quando vai se planejar uma carga da refinaria, você leva essas variáveis todas em consideração para que você otimize o resultado dessa refinaria em termos de rentabilidade e de atendimento ao mercado”. 

O grifo foi meu e é para destacar que a justificativa do preço atende a esses interesses, ou seja, do mercado. Isso não é sequer problematizado na reportagem – tá tudo certo deixar falar  voz do mercado.

A reportagem retoma, então, a informação de que a produção das refinarias não é suficiente para o consumo, por isso, o Brasil continua importando combustíveis e exportando o excesso de óleo bruto. Outra fonte ligada ao mercado afirma que a Petrobras investiu, nos últimos anos, muito mais em exploração e produção de petróleo do que no refino porque isso  dá uma taxa de retorno muito maior. 

Trocando em miúdos, a reportagem constrói a seguinte narrativa:

Os preços dos combustíveis aumentam por causa da guerra. O Brasil ainda depende da importação de petróleo, mesmo com a produção das refinarias. Então, se o preço aumenta lá fora, vai aumentar aqui dentro. E ninguém pode fazer nada em relação a isso, é assim que o mercado se autorregula para não ter perdas, coitado do mercado, e está tudo certo. A Petrobras não investiu em refino, somente na exploração de óleo bruto (um erro). Os acionistas não podem perder dinheiro. O Governo não tem culpa.

Se vocês tiverem tato para conversar com qualquer motorista de Uber ou táxi, com certeza ouvirão essa justificativa aí – é a guerra…

Tudo explicadinho, portanto. As vendas das refinarias a preço de banana, o bombardeio em cima da empresa com a Lava Jato, o bombardeio em cima do governo Dilma Rousseff (com Graça Foster à frente da estatal) por causa da política de preços (que não beneficiava somente o mercado), as mãos gulosas do deus mercado em cima do pré-sal, os investimentos em pesquisa para a tecnologia de extração de petróleo em águas profundas (dominada pela Petrobras), a riqueza do pé-sal e o significado disso para a economia do país e para os brasileiros – já que parte dos lucros iria para a saúde e a educação, não para o bolso dos acionistas; enfim, nada disso é mencionado ou problematizado. Nada disso existiu, nenhuma dessas questões é recuperada para a memória do telespectador. 

Sigamos, assim, pensando que a culpa é de Putin…