Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

A estrutura da edição pode ser pensada mais ou menos em termos da construção de narrativas para  justificar a instalação da  CPI: de um lado, matérias para explicar os trâmites e a justificativa legal; do outro, reportagens para a justificativa moral da abertura do processo, com enfoque na tragédia cotidiana de mortes, aumento de casos, descontrole, boom de doenças psíquicas. Um país caótico, numa pandemia sem controle, justifica a instalação de CPI.

Vejamos.

CPI – JUSTIFICATIVA LEGAL

A notícia mais “quente” do dia, que foi a instalação da CPI, foi a primeira reportagem da edição. A reportagem de 6 minutos mostrou que “Apesar da pressão de Bolsonaro, Senado cria CPI sobre a atuação do governo na pandemia”. E o tom que se seguiu foi esse, expondo a pressão dos governistas, as táticas para melar o processo. Mas tudo em vão, porque o presidente do Senado acabou acatando a determinação e considerando que não cabe mesmo a investigação em relação a prefeitos e governadores, como queria o presidente. A reportagem bateu também na tecla de que as investigações vão abranger  “as ações e omissões do governo federal” e o repasse de recursos para estados e municípios. Vejam bem, não só as ações, mas também as omissões. Um belo argumento.

A matéria explorou os trâmites legais, as justificativas legais, os procedimentos, a composição das mesas, a representação dos partidos, as questões de funcionamento, com falas destacadas de governistas e da oposição, em especial Randolfe Rodrigues, da Rede. Tudo foi relativamente técnico, com pinceladas das manobras políticas, mas sem grandes discussões, apesar de algumas falas contundentes e do desenho do alcance de uma CPI – ou seja, o dimensionamento do poder da Comissão Parlamentar de Inquérito, que é grande. 

O complemento que deu os caminhos de interpretação para se entender as reais motivações veio com as reportagens seguintes. 

CPI – JUSTIFICATIVA MORAL

A segunda reportagem do JN, imediatamente na sequência da matéria sobre a CPI, começou com um Bonner compungido afirmando:

“As incertezas, as inseguranças em relação à pandemia têm afetado a saúde mental de milhares de brasileiros”.

A reportagem começa apenas com o som do bip bip bip e imagens de doentes graves em hospitais e mortos, e o vaticínio: “Os marcadores são de um paciente em estado crítico. O Brasil está doente. E não é só de Covid”. Entram então especialistas para dizerem que há uma nova e preocupante onda de adoecimento psíquico em função de toda a indefinição com a pandemia.  A  matéria foi muito detalhada, procurando explicar as causas desse adoecimento, explicando que  há um grande avanço de doenças psíquicas em função do medo da pandemia, em função das incertezas e inseguranças da população.

E, claro, fez uma ligação com a situação de outros países – por onde passa, o vírus deixa dor e tristeza, mas nada é tão intenso quanto no Brasil. Por isso, nenhum outro país no mundo viu um aumento tão grande de casos de depressão e ansiedade, pois “falta horizonte” para os brasileiros. “Sofremos mais que os outros porque, aqui, a pandemia demora a ceder”, diz a reportagem. E depoimentos de pessoas mostraram o nível desse adoecimento, o nível de ansiedade e depressão que está sufocando os brasileiros. Tudo muito didático, mostrando até os sintomas, a sensação de sufoco, dor no peito, típicos das crises de ansiedade – para que todo mundo se identificasse, afinal. .

Na sequência, reportagens mostrando os números da pandemia, com a média absurdamente alta, o ritmo muito lento da vacinação, a falta de vacinas, o atraso na segunda dose, ou seja, expondo toda a negligência do governo federal na condução da pandemia.

Depois, os exemplos muito bem-sucedidos do Reino Unido e de Israel, países que fizeram lockdown, fizeram as medias de isolamento, em que os governantes deram o exemplo e, hoje, deixam a população frequentar bares e cinemas. Tudo o que o Brasil não fez.

Por fim, matéria de 4 minutos mostra os decretos do governo que facilitam oa acesso da população a armas. Não há acesso para vacina, mas existe para armas de fogo. 

Enfim, uma boa construção narrativa. Se o Brasil está doente – física e psiquicamente –, há um culpado, e ele se chama Jair Bolsonaro.