Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN 10-11: Recados a Jair

A edição do dia 10 escancara a repulsa a Jair já na escalada: 

“Foi por suicídio a morte do voluntário da testagem da Coronavac. Mas pesquisa o presidente Bolsonaro erra ao atribuí-la à vacina produzida no Instituto Butantan e provoca espanto e repulsa ao comemorar, como vitória dele o que achava ser um fracasso de uma arma contra a Covid. E torna ainda mais explícita a guerra política que trava contra a Coronavac”. 

Mas, talvez para marcar o distanciamento em relação a Jair e um outro país, a primeira matéria mostrou a pujança do agronegócio brasileiro, com a expectativa de safra recorde – dois Brasis, né? 

O tema da vacina proibida por Jair dominou todo o segundo bloco do JN. Em 22 minutos, em matérias distintas, o jornal deixou clara a indignação com a “politização”. 

A primeira matéria da série mostrou que a morte de voluntário, que causou pausa dos testes da Coronavac, não teve a ver com vacina, e já ressaltou a “indignação” com a atitude de Jair. Anunciou Renata:

“O anúncio da suspensão dos testes da Coronavac, uma das vacinas contra a Covid, acabou provocando indignação com a politização evidente do assunto pelo presidente Jair Bolsonaro. Numa rede social, ele comemorou o que achava ser um fracasso da vacina do Instituto Butantan e disse que era uma vitória dele, Jair Bolsonaro. Na verdade, a causa da morte do voluntário não teve nada a ver com a vacina. Foi mais um caso triste de suicídio”. 

A reportagem mostra, então, a decisão da Anvisa de interromper os estudos e coloca em cena o protagonismo do Instituto Butantan, com Dimas Covas em destaque para ressaltar o “estranhamento” com a decisão da Anvisa, uma vez que o óbito não se relacionava à vacina. “Portanto, não existe nenhum argumento para interrupção do estudo clínico”, disse a voz de autoridade a contradizer o órgão do governo, e com muita propriedde. Dimas Covas apareceu em outros momentos, sempre num tom muito sóbrio e com imenso respaldo – em evidente contraposição  com  a fala da Anvisa.

A reportagem prosseguiu mostrando a manifestação matutina de Jair, com muito destaque, nas redes sociais: “Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la (sic). O Presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”. Muitas imagens de Jair e a informação de que sua postagem havia provocado um “tsunami de protestos indignados”.  E explicitou ainda que a preocupação maior era a “suspeita, gravíssima, de que teria havido uma ação política por parte da Anvisa”.

Portanto, muitos adjetivos e asserções claras para evidenciar o problema, a intervenção e a postura de Jair. Nada ocultado. E mais muitos momentos de Dimas Covas falando à imprensa e criticando abertamente a decisão da Anvisa e ressaltando que o relatório que estava em mãos do órgão dizia claramente que o episódio não se relacionava à vacina. 

Na sequência, a comprovação de que se tratava mesmo de um caso de suicídio.      

A reportagem seguinte explicitou a incapacidade da Anvisa na condução do caso – e destacou a decisão política. Na abertura, Bonner enfatiza:

“A comemoração política do presidente Bolsonaro nas redes sociais e a explicação do Butantan de que a morte do voluntário não estava relacionada à vacina obrigaram a Anvisa a se manifestar publicamente”.

No decorrer da matéria, a explicitação de que houve muitas críticas de vários parlamentares e as tentativas de explicação da Anvisa, com o diretor Antônio Barra Neto dizendo que as informações sobre o suicídio deveriam estar no documento. Novamente, o diretor do Butantan, Dimas Covas, teve todo o espaço para rebater. Vários especialistas também se manifestaram. Por fim, Dimas Covas aparece novamente pra dizer que até o Comitê Internacional já havia se manifestado dizendo que a morte não tinha relação com o estudo da vacina. 

Do início ao fim, a  reportagem ressaltou  a questão da conotação política da decisão.       

A matéria que veio em seguida enfatizou o “ataque” de Jair à vacina. 

“Não foi a primeira vez que Jair Bolsonaro atacou a vacina desenvolvida em São Paulo. E também não foi a primeira vez que o presidente pôs os interesses políticos acima da ciência, mas foi o episódio mais explícito e o que provocou mais repulsa”, anunciou Renata, abrindo a reportagem. 

Que prosseguiu mostrando que a campanha de Jair contra a Coronavac tem um longo histórico. Muitas imagens e falas de Jair contra a vacina, afirmando que ela não será obrigatória e que ele é o presidente e, portanto, decide. De novo, vários especialistas criticaram e falaram em “contaminação política” da ciência. A reportagem também informou o ultimato dado pelo ministro do STF, Ricardo Lewandowski, para a Anvisa dar mais detalhes sobre a decisão.

Foi um mix de desconstrução – ligando Jair à anticiência, ao obscurantismo, à interferência política em questões de saúde pública – e recado. Afinal, não foi para isso que todos aqueles que hoje criticam contribuíram para colocar Jair onde ele está. 

OBS.: A vacina Coronavac é reiteradamente nomeada como “vacina do Instituto Butantan” ou “vacina desenvolvida em São Paulo”. Jamais “vacina chinesa”

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Na edição do dia 11-11, o JN anunciou a retomada dos testes afirmando na reportagem que a suspensão havia causado críticas e repercussões além do Brasil. Mas sem muitas novidades. 

DESTAQUE: No finzinho da edição de ontem, a informação de que o ministro do STF, Ricardo Lewandowski, determinou que a PGR decida se vai investigar o uso de órgãos do governo para defender o senador Flávio Bolsonaro. A abertura de inquérito foi pedida pela deputada do PT, Natália Bonavides (informado na matéria), para “apurar uma reunião do presidente Bolsonaro com o filho senador, os advogados, o gabinete de segurança  institucional e a Agência Brasileira de Inteligência para discutir meios de anular o caso das rachadinhas”. Potencial explosivo dessa notícia… aguardemos.