Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN  10-09: Palco para a Lava Jato, “esperança vigilante” e tragédia do Pantanal

Meio ambiente é uma pauta forte, foi bem marcada nesta edição, mas continua sendo tratada de uma forma ainda tímida, sem explorar muito os culpados. Interessante também o espaço para a mobilização das comunidades nas favelas, no caso, a Favela da Maré, para fazer frente à falta de ação do poder público. Vou fazer alguns comentários breves.

“Esperança vigilante”

A queda bem acentuada da média móvel foi motivo de muita alegria para a bancada do JN – afinal, todos estão esperando por boas notícias. O assunto abriu a edição do jornal com uma chamada, levando a reportagem para o final, no 4º Bloco. Antes dela, matéria novamente justificando e explicando a suspensão temporária dos testes com a vacina do laboratório AstraZeneca e outra mostrando que o governo da Bahia firmou acordo com o governo russo para adquirir doses da vacina Sputnik I.

E então temos a grande novidade da média móvel, que caiu 21%. Bonner se levanta para chamar Márcio Gomes e, todo feliz, anuncia a esperada tendência de queda. Ele agradece e fala de novo em esperança.  E ressaltou também que é preciso manter os cuidados: “Ele não está dizendo isso por ele não, mas por tudo que nós todos jornalistas temos visto acontecer no mundo. Vamos ter calma, vamos olhar para esses números, e até agradecer o fato de que os números estão caindo, mas a gente não pode relaxar de jeito nenhum”. E Renata completa lembrando a “esperança vigilante”.   

MEIO AMBIENTE

O tema ocupou quase todo o primeiro bloco do jornal, com vários assuntos. A matéria de abertura, bastante longa, foi sobre a morte de um indigenista, que cuidava de tribos isoladas, com uma flechada. 

Logo em seguida, as matérias sobre a destruição do Pantanal, do Cerrado e as negativas do governo. Foram 8 minutos ao todo. Sobre o Pantanal, com 2 minutos, a matéria mostrou que o fogo já destruiu o equivalente a 10 vezes as cidades do Rio e de São Paulo juntas, mais de 2,3 milhões de hectares. Muitas imagens aéreas e também em terra, com tudo queimado. Há imagens de animais, mas elas não têm grande destaque.

Na sequência, foi bastante explorado o mico, que não é leão-dourado, do Ministério Salles ao compartilhar vídeo dizendo que não há queimadas na Amazônia. A peça foi produzida pela Associação de Criadores do pará para dizer que a Amazônia não está queimando. O  ministro da porteira aberta e o vice Mourão negam incêndios confirmados em números e imagens de satélite na Amazônia. O vídeo divulgado mostra um mico-leão-dourado como comprovação de que tudo está bem na região. Detalhe: o habitat do mico é a Mata Atlântica, não a floresta. O presidente da ACRIPARÁ teve espaço pAra dizer que foi uma “gafe” e que o objetivo era tentar defender um setor produtivo. Questionado, Mourão disse, em tom jocoso, que aquilo era resultado de uma “integração” entre a floresta e a Mata Atlântica, que o pessoal do Pará conseguiu fazer. 

Ambientalistas criticaram a negação em relação às queimadas.  Segundo o video reproduzido por setores do governo, as queimadas são “culturais”. O jornalista Vladimir Neto descobriu a pólvora ao citar ambientalista que a maioria das queimadas ocorre em grandes e médias propriedades. 

Isso é muito, muito antigo.E nunca foi explorado devidamente. As queimadas não são culturais. São a forma maios barata de limpar o terreno para plantio ou pasto. Agora, saíram de controle.

Apesar das imagens e da divulgação, a matéria poderia ter explorado de verdade esses incêndios, obra dos grandes fazendeiros. Com mais imagens, mais especulação, mais indagações. Mas o tema promete, porque o governo não tem interesse em mudar nada do que ocorre.

PERFUMARIA

As pautas gerais e mais leves e alegres estão cada vez mais presentes no jornal. Esporte, superação, boas notícias. E nadica de economia. Apenas espaço para a ministra da Economia dizer que o preço do arroz vai abaixar com as medidas adotadas. 

Estabelecer uma comparação com a cobertura de economia durante o governo Dilma é até desonesto: crise, inflação, alta do tomate, brasileiros assustados, eram temas que estavam na grade todos os dias. Mesmo sendo irrelevantes. 

POSSE DE FUX

“In Fux We trust”, sendo assim, vamos efusivamente festejar a posse dele como presidente do STF. Nove minutos para a cobertura da posse, em duas reportagens, que mostraram o evento e a trajetória de Fux. Tudo muito celebrado.

REPERTÓRIO CORRUPÇÃO

Está voltando com força total ao noticiário, para além da defesa da Lava Jato. Esse repertório é bem construído e delineado pra surtir efeito. E surti. Há várias estratégias discursivas para que isso seja bem efetivo, desde a construção das cenas à conformação de um grande inimigo. E o tema cresce e toma corpo nas edições. 

Ontem tivemos a ação contra Marcelo Crivella, prefeito do Rio, que foi “alvo de buscas em operação anticorrupção”. Segundo a matéria,  o Ministério Público do Rio e a Polícia Civil investigam um suposto quartel-general da propina para liberação de pagamentos”.

Depois, foco total na na nova fase da Lava Jato – redesenhada e com novos atores –, o espetáculo das ações e a defesa inconteste permanecem. Destaque para o projeto de Pacote com nove projetos quer mudar lei brasileira contra corrupção. Segundo Renata, o projeto (de deputados do Novo) quer tornar mais “efetivo o combate à corrupção”. Lembrou-se muito o movimento das “10 medidas contra corrupção” deflagrado por Dallagnol, que arregimentou muitos seguidores. Segundo a matéria, “As propostas tornam penas mais duras e aceleram a responsabilização de pessoas que praticam crimes contra a administração pública. Elas são inspiradas nas 70 medidas contra a corrupção, apresentadas pela Transparência Internacional em 2018”.