Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN 10-06: novo quadro destaca o papel dos jornalistas  para “proteger o cidadão das fake news”

Qual posicionamento? O afastamento frontal em relação ao negacionismo de Jair Bolsonaro.

Qual voz? Aquela do jornalismo a serviço do bem comum, da sociedade.

Qual imagem? A do jornalismo gente como a gente, que sofre os medos da pandemia mas não se furta a levar a notícia.

Qual sentido? A do jornalismo profissional como a instância mais legitimada para levar a informação correta e verdadeira à população.

A edição foi na véspera da participação da pesquisadora Natália Pasternak como convidada da CPI. Ela é uma crítica contundente a Bolsonaro. E foi também no mesmo dia da live do presidente.

A edição pode ser alinhavada a partir de duas partes gerais que explicam bem a construção narrativa e o posicionamento marcado. Já na escalada, uma sucessão de pancadas em Jair Bolsonaro marca muito bem o distanciamento em relação ao conjunto de  valores expresso pelo presidente: alerta da Fiocruz para a situação crítica dos leitos de UTI em quase todo o país; Ministério da Saúde reduz de novo a previsão de entrega de imunizantes; documentos mostram que a Pfizer procurou  ate a embaixada brasileira em Washington; Joe Biden anuncia doação de vacinas para 92 países, o Brasil não está na lista.

Distanciamento frontal – só faltou a bancada falar em “o idiota do presidente”.

Vamos aos detalhes.

PARTE 1: O NEGACIONISMO E A TRAGÉDIA BRASILEIRA

As reportagens e a sequência das reportagens vão dimensionando a negativa reiterada do governo, a ação intencional de ignorar o vírus e a oferta de solução e a postura anticiência. E ressaltam enfaticamente como tudo isso levou o país ao caos e a uma situação de emendar uma onda da Covid em outra. 

A primeira matéria da edição foi sobre as tentativas da Pfizer em obter uma resposta do governo brasileiro em relação à venda das vacinas. Reportagem de 4 minutos com todos os detalhes e datas das investidas da farmacêutica pra negociar a vacina com o governo brasileiro, sem obter qualquer resposta. O governo brasileiro solenemente ignorou a oferta de vacinas em meio a uma pandemia, é isso o que mostra a matéria. Para fechar, a fala do senador Rogério Carvalho (PT-SE) ressaltando a oitiva do executivo da Pfizer e afirmando que ficou claro que a empresa tentou de todas as formas negociar com o governo brasileiro a compra/venda de vacinas e que o governo “negava” a necessidade de vacinas.  

Na sequência, matéria repercute um documento sigiloso entregue à CPI da Covid que mostra que o presidente Jair Bolsonaro tentou convencer a Índia a enviar ao Brasil matéria-prima da hidroxicloroquina para uso contra a Covid. Renata arremata dizendo que “pesquisas dos órgãos mais importantes e reconhecidos do mundo já concluíram que esse medicamento é ineficaz contra a doença”.  A reportagem mostra trechos das mensagens de Bolsonaro a Modi (da Índia). Além disso, cita claramente as empresas para as quais Bolsonaro fez intermediação para a compra de cloroquina – EMS e Apsen.

Depois, matéria mostra que a CPI quebrou os sigilos telefônico e de mensagens dos ex-ministros Pazuello (Saúde) e Ernesto Araújo (Relações Internacionais), de assessores do Planalto e de médicos integrantes do gabinete paralelo e de empresas. E retomou ainda o caso do falso relatório do TCU que foi amplamente citado por Bolsonaro para dizer que havia uma supernotificação de mortos pela Covid, ou seja, que os dados estavam errados e o número de mortos, portanto, era bem menor.

E logo na sequência, reportagem mostrando alerta da Fiocruz para o agravamento da situação de leitos de UTI para Covid em quase todo o país. Reportagem de 4 minutos começa com um apelo desesperador de uma mulher por um leito para a mãe – “Mais que um pedido, Rosa implora por ajuda”. Na matéria, o professor Gonzalo Vecina afirma que a situação é muito preocupante e que está se agravando bastante. 

Em seguida, matéria mostrando que mais de 4 milhões de brasileiros não foram tomar a segunda dose da vacina, o que implica prejuízos, muitos, para a imunização coletiva.

Depois, o balanço da pandemia em números. 

E após vermos aumento do número de casos e a vacinação lenta, entra reportagem falando sobre a determinação do governo Joe Biden de doar 500 milhões de doses de vacinas para 92 países. E o detalhe de que o Brasil vai ficar de fora do grupo de contemplados, porque é considerado um país que pode pagar pelos imunizantes.  

Uma reportagem sobre pesquisa realizada no Brasil pelo Conselho Nacional da Juventude, em parceria com outras entidades da sociedade civil, veio logo em seguida. A reportagem – que começa com a imagem de “mãos esfregadas com angústia” – mostrou a dificuldade dos jovens que enfrentam o segundo ano da pandemia e destacou que muitos já pensaram em parar de estudar. Ela se encerra com a fala de um jovem negro, que diz: “A gente precisa de uma resposta. Até quando a gente vai ficar sem vacina? Até quando a gente vai ficar sem saber quando tudo isso vai acabar e quando a gente vai voltar ao anormal, a ter as nossas vidas, os nossos sonhos continuarem, porque a gente vive de sonhos”.      

Imediatamente no encadeamento da edição, logo depois de um jovem questionar quando vai retomar a vida normal estando vacinado, entra a reportagem que mostra que Jair Bolsonaro quer flexibilizar o uso de máscaras, desobrigando do uso as pessoas que já tomaram a vacina ou que já tiveram a doença. Os especialistas falaram em temeridade. A reportagem é aberta com a fala de Bolsonaro, que se refere ao ministro da Saúde como “o tal de Queiroga” e dizendo claramente que pediu um estudo para desobrigar o uso de máscara. O discurso é deixado no ar, sem edição, quando ele mostra a máscara e se refere a ela como “esse símbolo”. Depois, a reportagem mostra a Lei que obriga o uso de máscaras e a expõe a fala dos especialistas. 

E assim se encerra o primeiro bloco. Na chamada para o segundo bloco, destaque para reportagem sobre a tentativa de formação de um gabinete de contrainformação no governo.   

Detalhe: o presidente apareceu em muitas imagens, sem ser as do cercadinho, mas não apareceu falando. Apenas no momento da reportagem sobre o uso de máscaras é que o discurso aparece.   

O segundo e o terceiro blocos mostraram assuntos mais gerais, com destaque para o caso de Kathlen Romeu, jovem grávida que foi morta pela polícia no Rio. 

PARTE 2: A INFORMAÇÃO COMO ANTÍDOTO À BARBÁRIE

Depois de toda a desconstrução da perspectiva negacionista e anticiência do governo, na primeira parte do jornal, chegou a vez de o JN se distanciar de Bolsonaro e mostrar que os jornalistas também sofreram com a pandemia mas que, apesar disso, não deixaram de cumprir o compromisso de levar a informação verdadeira aos brasileiros. Satisfeitos e bem emotivos, Bonner e Renata (que chorou) apresentaram o novo quadro “Fatos e Pessoas”. Segundo Bonner:

“A partir de hoje, nos intervalos da programação, a Globo vai dividir com você alguns mometos da intimidade de nós, jornalistas, algumas conversas que tivemos fora do ar. Longe dos olhos e dos ouvidos do público que acompanha as notícias aqui na Globo, no G1, na CBN, nos jornais O Globo, Extra e Valor Econômico. Você vai ouvir mensagens de audio de celular que nós trocamos com parentes nossos, nossas famílias. O motivo dessa iniciativa é desfazer uma ideia equivocada que esses dias tão difíceis ajudaram a criar na imaginação de muita gente. Porque, desde o início da pandemia, nós, jornalistas, nunca deixamos de trabalhar. Assim como outras tantas categorias profissionais, as da saúde em primeiríssimo lugar, a nossa também não poderia fazer isso. Nós tivemos que tomar todo o cuidado pra manter você informado sobre os fatos e protegido das fake news. Mas acontece, e também como outras categorias, que o dever profissional não afastou a gente dos medos, das angústias, das aflições que são comuns a todos. Jornalista trabalha firme, mergulha na notícia, cumpre o dever de informar. Jornalista pode até passar uma imagem de que faz isso tudo com facilidade, como se fosse invencível, sem medo de adoecer, sem cansaço, sem saudade. Mas não”.

Corte e entra em cena uma repórter e ao fundo a conversa dela com a mae. Depois, outra conversa de um repórter falando com os pais.  Na projeção das imagens, o dizer: “Jornalismo é assim: feito por gente de verdade. Como você”.

E entra Renata, bastante emotiva:

“A partir de hoje, filmes como esse vão mostrar que nós jornalistas damos a notícia que nós próprios vivenciamos. Nós somos jornalistas. E nós estamos aqui por você, pelo nosso país, cada um de nós. Essa é a nossa missão. É como a gente pode ajudar”.

Entra a música-tema do JN no violão, e todos de pé na redação enquanto a câmera passeia.  

Um discurso bom, eficiente para projetar o ethos de jornalistas gente como a gente que têm medos na pandemia mas que continuaram em campo não só para informar, como também para PROTEGER o cidadão das fake news. Separados, portanto, do negacionismo exposto no primeiro momento do jornal e se colocando ao lado do cidadão para protegê-lo e defender “a” verdade. Um discurso que humaniza a categoria e a coloca na condição também de vítima da pandemia. Boa estratégia discursiva num momento em que os jornalistas estão sendo muito atacados. 

No jogo de disseminação de desinformação e discurso de ódio que se avizinha para 2022, colocar-se ao lado da informação “verdadeira” e da defesa do cidadão é sempre efetivo. Uma boa aposta, portanto.         

Vale lembrar que o JN trabalha muito bem a construção simbólica e de sentidos a partir da estruturação de quadros temáticos, como o de ontem, sempre em períodos políticos significativos. Não é a primeira vez que o fazem, isso já ocorreu em 2018 com o quadro “O Brasil que a gente Quer”. 

E não tenho dúvida em afirmar que esse novo quadro do JN é uma armadura e uma precaução para a pancada e a guerra de desinformação que virá em 2022 – as hordas bolsonaristas negacionistas e antijornalismo estão a postos, será uma dura batalha. E nada melhor do que buscar legitimar a voz de um pretenso jornalismo “real”, feito por gente como a gente, comprometido com a “verdade” contra a desinformação. Claro, sem nenhuma mea-culpa por parte do jornal, um dos responsáveis por toda a confusão que aí está. Apenas estratégias discursivas para projetar uma boa imagem e se precaver na guerra que virá.