Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN 09-09: Os heróis anticorrupção retornam à cena, num timing perfeito

A edição de quarta-feira, mais curta por causa do festival, destacou principalmente esses dois pontos, com o teatro da Lava Jato de volta à TV.

VACINA

A primeira matéria da edição foi, de novo, a paralisação dos testes com a vacina do laboratório AstraZeneca. Muitos especialistas brasileiros falando, como Margareth Dalcolmo, além de Átila Iamarino e Julio Croda, especialistas estrangeiros e a manifestação da OMS, todos defendendo a lisura do processo da pesquisa e ressaltando que a paralisação é normal. Mencionou-se a intercorrência _ uma mielite que acometeu uma mulher voluntária que tomou a vacina, mas não se sabe ainda se a intercorrência está relacionada à dose tomada. Enfim, muita defesa da lisura do processo e muito empenho em garantir que isso é um procedimento absolutamente corriqueiro e padrão. Em 7 minutos de reportagem, isso ficou bem evidente. A vacina é tratada como se fosse a única existente, a “única esperança”, a única em fase tão avançada de testes – e nem estou falando da vacina russa, que é sim bastante polêmica e tem problemas questionáveis.

E por outro lado, não há qualquer conjectura em relação a esse procedimento, a essa interrupção dos testes nas reportagens, é quase como uma grande assessoria de imprensa do laboratório. Um aspecto que me inquieta é que, se no caso da vacina russa há sem dúvida uma gigantesca pressão do governo Putin (e isso foi explorado e mostrado), do lado de cá, do laboratório ocidental gigante, a pressão de “investidores” e do tal mercado é monstruosa, ou seja, há pressão igualmente. Porque, pelo tom das reportagens, o que parece é que essa vacina é fruto de abnegados pesquisadores e laboratórios que estão pensando no futuro da humanidade. Nada mais longe disso, pois a direção do laboratório fez várias reuniões com os investidores para explicar. E isso nem de longe aparece como problema. Meu ponto é: se há essa grande pressão de investidores – vacina é lucro gigantesco –, esse aspecto não pode ter forçado uma corrida desumana dos pesquisadores por resultado , o que levou a um erro grande? Enfim, especulações necessários. Jornalismo deveria ser isso, e não assessoria de imprensa…

LAVA JATO RETORNA (REPAGINADA)

E vamos então ao ressurgimento da Lava Jato, com novos atores centrais – sai Dallagnol, entra Bretas (o juiz que malha). Mas o modus operandi continua o mesmo: de novo, num timing excelente (eleições que se avizinham), de novo, fazendo jogadas políticas, de novo, colocando os blocos de poder representados por Lula e Bolsonaro como sendo equivalentes sob o manto da grande corrupção que destrói o Brasil. A reportagem, com 5 minutos, abriu o segundo bloco do jornal: “Lava Jato investiga advogados suspeitos de desviar R$ 151 milhões do Sesc e do Senac do RJ. Operação ocorreu nesta quarta (9) em cinco estados e no DF. Entre os escritórios envolvidos nessa investigação, estão nomes ligados ao presidente Jair Bolsonaro, ao ex-presidente Lula e ao governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel”.

As velhas cenas dos Avengers em ação retornam ao JN. Muitas delas, com muitos detalhes, mostrando os heróis de sempre à procura dos velhos corruptos. 

Cenas bem construídas, e o foco em dois atores: os advogados Roberto Teixeira e Cristiano Zanin, “que defendem o ex-presidente Lula”, cujos nomes aparecem congelados na tela e permanecem por um tempinho, para que todos se recordem. O delator tem todo o controle da voz, os acusados não aparecem para se manifestarem e fazerem um contraponto.

A reportagem junta todos os casos e todos os acusados – dos advogados de Lula aos advogados de Witzel, passando por Wassef, ex-advogado de Flávio Bolsonaro – em um só bolo, o da corrupção e desvio geral de dinheiro. Com essa tática, constrói-se a percepção de que a Lava Jato é super isenta e “pega todo mundo” – a luta é contra a grande corrupção.

Ninguém mais é ouvido, não há outras vozes. A cena enunciativa da reportagem é construída para mostrar a acusação, o grande mal, a ação dos heróis e, então, o veredito: todos culpados. Fala-se, de novo, na “organização criminosa”, a que todos aderiram. Não qualquer contraponto, qualquer dissonância, qualquer elemento que discorde da narrativa. O direito à defesa não se observa por aqui.  

Outro recurso interessante é a menção reiterada aos montantes de dinheiro, às cifras desviadas, mas um detalhe é que não se utilizou a velha imagem do cano (acho que ela está guardada para peixes maiores…).

Ao final, para fingir o contraponto necessário, Bonner lê a declaração da OAB de que houve clara tentativa de criminalização da advocacia brasileira. Mas uma nota seca, exibida após uma chuva de cifras e de informações de desvio de dinheiro, é muito pouco efetiva como contraponto. São lidas também declarações de Zanin, de Roberto Teixeira e de Wasseff. 

Dallagnol, o crente, sai de cena; entra Bretas, o juiz que malha. Vamos ver no que vai dar…