Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

Boletim do JN 07-02: Edição explica que o Brasil tem os juros mais altos do planeta e mostra imagem alegre de Dilma com Obama

De modo surpreendente – pela tendência dos últimos dias e pela blindagem ao ministro da Economia –, a edição do JN mostrou, de maneira quase didática, o que significa de verdade a alta da taxa de juros, da taxa Selic, determinada pelo Banco Central. Na abertura da reportagem, a afirmação bem contundente: “Brasil ocupa topo do ranking dos juros mais altos do planeta”.

A reportagem de quase três minutos foi bem didática, ao contrário de outras reportagens sobre o tema especificamente e sobre questões econômicas de um modo geral. Ela teceu comparações com outros países que têm juros altos, mostrando que o Brasil está deixando todo mundo “pra trás”, e destacou a taxa de juros reais e o valor da Selic, que passou dos dois dígitos. Em seguida, trouxe um desenho da trajetória do Brasil rumo ao pódio dos juros altos, também explicado de modo bem razoável.  Claro que as fontes preferenciais são as do mercado financeiro para, exatamente, relatarem que o deus Mercado está “começando a ficar preocupado”. Mas há outra fonte distinta, um economista da FGV, que escapole um pouco desse perfil estritamente mercadológico. Um avanço em termos de pauta econômica no JN.

A reportagem prosseguiu e chegou a falar em “dois lados da curva de juros”: do investidor (para quem o aumento é favorável, pois ele lucra) e de que quem faz um empréstimo (que perde). A reportagem fez então um percurso que eu diria interessante em se tratando do assunto “juros” no JN: afirmou que “o primeiro lugar o ranking mundial de juros  faz o Brasil um lugar difícil para quem precisa de financiamento, e favorável só pra quem pode poupar”. A palavra correta não deveria ser, exatamente, “poupar” – é quase um eufemismo para “especular –, mas, de qualquer forma, o assunto foi colocado e esses  dois lados foram mencionados e explicados. “A curva das telas do mercado que atrai dólares é uma linha mais longa até o fim da fila do desemprego, até o crediário ou negócio próprio”, ressaltou a matéria, com esclarecimentos de um economista da FGV, que ligou essa medida do governo à tentativa de controlar a inflação.  Com o arremate de que o Brasil vive essa realidade em grande parte de sua história. 

Em seguida, outra reportagem de três minutos mostrou o que significam, na vida prática das pessoas, os juros altos. E o gancho foi muito bom, pois toca diretamente no coração da classe média: os juros altos dificultam o financiamento de imóvel para milhões de brasileiros. A reportagem mostrou que muitas pessoas estão revendo a compra do imóvel por causa dos juros altos. De novo, um economista da FGV que mostrou o impacto nas prestações – tudo bem desenhado, destacando o valor novo de uma prestação para financiamento de imóvel de 250 mil e  um aumento na renda exigida, que impacta a classe média. Enfim, não foi um desenho positivo.

A matéria ainda tentou mostrar um “oásis” na zona portuária do Rio – um local onde 700 apartamentos, de 30 a 70 metros quadrados, com valores entre 250 e 500 mil reais, estavam sendo negociados com juros baixos. O local – que não sabemos exatamente do que se trata, qual empresa, ou se era um feirão da Caixa, estava lotado, mas todos nós sabemos o que significa um apartamento de 30 metros quadrados…não é exatamente um contraponto super positivo.       

Na edição como um todo, os assuntos periféricos – como o encapamento de fios da rede elétrica para evitar morte de aves no interior da Bahia e o nascimento de cisnes no zoológico – estão ainda dominando a pauta, assim como o conflito na Ucrânia (com mais destaque para o encontro entre Macron e Putin do que para o convescote de Biden e Scholze – Biden não empolga nem o JN). 

Mas a abordagem diferente do assunto “alta da taxa de juros” revela, tenho o palpite, duas coisas:

1. O tema econômico é grave, o aumento da taxa Selic, depois de anos sem reajuste, mostra que a inflação está descontrolada e que que o cenário econômico é péssimo e pode piorar; portanto, fica bem difícil esconder tudo para blindar Paulo Guedes; 

2. JN (editores, Grupo Globo) já faz a avaliação de que Lula será eleito e, portanto, a abordagem de alguns temas “dolorosos” pode ser feita sem o temor de mexer muito na ordem do tabuleiro político das eleições.

Claro, a abordagem desses temas incômodos será contida, eles não serão explorados como deveriam ou poderiam ser, mas vão aparecer aqui e acolá. 

Como não poderia deixar de ser, para mostrar que nem tudo está perdido e honrar a assessora de imprensa bem paga, reportagem de dois minutos, logo na sequência da reportagem sobre os juros, mostrou a “pujança” e o “aquecimento” do agro é pop, que “mostra força na criação de empregos com carteira”. Nem preciso tecer muitos comentários.

E para completar o ineditismo da edição, até a ex-presidente Dilma aparece em destaque, ao lado de Barack Obama, numa reportagem sobre a adesão do Brasil ao programa que agiliza entrada nos Estados Unidos. A reportagem mostrou que os brasileiros poderão entrar nos EUA sem enfrentar as filas de imigração e que essa negociação começou há 10 anos, cujo acordo foi inicialmente fechado em 2015, com os dois presidentes – entram então duas cenas de Dilma, num aperto de mãos efusivo com Obama. Um super sutil reconhecimento de que “a gente era feliz e sabia” rsrs. Aguardemos.