Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN 04-09: Sem muitas novidades, surpresa da edição foi reportagem falando bem do SUS

VACINA RUSSA 

“A vacina russa foi rapidamente da desconfiança à esperança”. Assim foi aberta a reportagem sobre a divulgação de artigo sobre a vacina russa, Sputnik 1, que vinha merecendo pouca cobertura da imprensa em geral. Reportagem abriu a edição. Ao todo, foram três reportagens sobre o assunto. A primeira, com  4 minutos,  destacou o artigo da revista Lancet com resultados dos testes da vacina, mostrando bastante os detalhes. O JN fez até uma entrevista com o editor da revista, que falou que a publicação é um marco importante na corrida por uma vacina contra a Covid e que as evidências são, sim, promissoras, mas que foi uma investigação tímida.

Como não podia deixar de ser nesse caso, o contraponto, ou seja, as abordagens para dizer que a vacina não é essa maravilha toda, que há poucos testes e que a eficácia ainda depende de muitos fatores, tiveram 7 minutos ao todo, distribuídos em duas outras reportagens. Uma delas trouxe a voz de autoridade da OMS, com o diretor-geral afirmando que a OMS não vai endossar vacina que não seja eficaz e segura. Obviamente, não foi citada a vacina russa, mas o recado estava bem claro. Segundo a reportagem, agências reguladoras nacionais têm o poder de aprovar vacinas dentro dos seus territórios. Mas o ‘ok’ da OMS funciona como um selo de qualidade. 

A outra reportagem mostrava muitos pesquisadores e cientistas brasileiros dizendo que a eficácia de vacina russa depende de mais testes para ser comprovada. Segundo a reportagem,  “as avaliações de cientistas brasileiros sobre o que se viu têm aspectos que são positivos, mas há críticas também”.

SUS GANHA DESTAQUE

No “retrato da saúde no Brasil”, apresentado pelo IBGE, o SUS, finalmente, ganhou uma pontinha de destaque no JN. Segundo a reportagem, “Números divulgados nesta sexta (4) pelo IBGE mostram também que menos de 30% da população tem plano de saúde”. E mostrou então, em destaque, que quase 150 milhões de brasileiros dependem do SUS. Para ilustrar, o caso de Flávio, que há quatro anos perdeu o emprego e há quatro meses descobriu um câncer. Ele está fazendo todo o tratamento pelo SUS. Ouvido, Flavio disse que a quimioterapia é caríssima e que talvez nem o plano de saúde cobrisse tudo.

É um avanço em termos de cobertura jornalística sobre o Sistema Único de Saúde. Nada mais de imagens de hospitais super lotados, como sempre ocorreu. Agora, só ode ao  trabalho do SUS…

A reportagem prossegue mostrando que menos de 30% da população tem plano de saúde e que 149,9 milhões de brasileiros usam o SUS. E dá um espaço grande para o professor de Saúde Pública da UFRJ, Amâncio de Carvalho, falar da excelência do SUS e de como a pandemia revelou sua eficiência, destacando a parte do Sistema que não é visível, como a vigilância epidemiológica e o estudo do movimento da saúde da população. “Isso é SUS! Esse sistema sofisticado, articulado, funcionando, com inúmeros profissionais dedicados, ele é do Sistema Único de Saúde. E ele é para 100% da população brasileira”. Surpreendente.  

PROCURA POR IMÓVEIS NO PAÍS DAS MARAVILHAS

A reportagem foi feita no País de Alice e mostrava que a pandemia levou muita gente a trabalhar em casa, o que “mexeu com o mercado de imóveis”, com o aumento da procura por imóveis maiores e mais confortáveis. Na cena construída, uma família típica de classe média alta, todos loiros, que se mudou para uma casa grande, e a garotinha ganhou um quintal enorme só para ela e a cachorrinha Frida. A nova casa tem churrasqueira e tal. Aí a reportagem prossegue mostrando que uma “Plataforma digital que negocia imóveis” mostra que o número de pessoas em busca por imóveis com quatro quartos (prestem atenção: 4 quartos) aumentou 58%. 

Num país em que uma parcela gigantesca da população vive de auxílio emergencial de 600 reais, tendo ou não que trabalhar em casa, reportagem desse tipo procede? Com esses dados? Que nicho da população é esse que busca apartamento de 4 quartos?

A reportagem não caiu bem e não se justifica pelo “interesse jornalístico”.  

LAVA JATO

Ocaso da Operação tem deixado a bancada bem triste. Na reportagem, destaque para a saída do coordenador da força-tarefa que investiga bancos e fundos de pensão, Anselmo Lopes, que  pediu demissão. Com a prorrogação da força-tarefa em SP, pelo vice-procurador geral, Lopes foi o único a ficar com dedicação exclusiva. E não quis. “É a terceira baixa em operações de combate à corrupção só nessa semana”, sinaliza a matéria. Com 5 minutos, ela explorou bastante o combate à corrupção feita pela Lava Jato, sempre enfatizada como essencial, e os embates com o PGR Aras, que já havia afirmado que “o lavajatismo vai passar”. A reportagem destacou o caso de Lopes e mostrou outras ações importantes das forças-tarefas, com cenas dos presos pela corrupção. Detalhe: Lula não aparece. Vozes externas – presidente da Associação Nacional dos Procuradores e representante da Transparência Brasil – apareceram para ressaltar a importância da Lava Jato no combate à corrupção. Mas o tom geral era de derrota pelo fim melancólico da Operação, aos poucos.