Reflexões sobre comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa e letramento midiático

BOLETIM DO JN 01-09: em nome do grande acordo nacional, a edição mostra uma grande passada de pano para o governo e Lula sob o velho recorte da imagem vermelha da corrupção

Neste Boletim, vou “inaugurar” um novo modelinho, trazendo à cena, com mais detalhes,  apenas algumas matérias que acho que se destacam e comentários gerais, quando houver necessidade. Reclamem se não gostarem rsrs.

PIB CAI 9,7%

A queda histórica do PIB brasileiro no segundo trimestre de 2020 foi atribuída única e exclusivamente à pandemia. Como Bonner anunciou na primeira matéria do jornal: “No segundo trimestre, a pandemia do novo coronavírus provocou um tombo histórico no PIB. A soma geral de toda a riqueza produzida  pelo Brasil no período caiu 9,7%. E a economia brasileira entrou oficialmente em recessão”. Na abertura, pela fala de Bonner, nada de mencionar que se trata de uma queda histórica em 24 anos (essa informação veio bem depois, no meio da reportagem).

Segundo a reportagem informou, a pandemia paralisou quase tudo. E então foram mostrados alguns exemplos, como o dono do bar que fechou por uns meses, depois reabriu como delivery, mas  não conseguiu manter, o restaurante que também fechou, os setores que mais caíram, como indústria e serviços, além de queda nos investimentos, nos gastos do governo. 

Mas, nos diz a reportagem, “há um consenso entre os economistas: os números poderiam ser piores”. E entra então a voz de autoridade – um economista (acho que ouviram minhas reclamações porque, dessa vez, o ouvido foi um professor da Universidade Federal de Pernambuco) a dizer que a retração poderia ser de mais de 12% – mostrando que o auxílio emergencial salvou a pátria. 

Entra na sequência o depoimento de Ercília, desempregada, para quem o auxílio emergencial é uma salvação, que possibilita a ela comprar comida para os filhos e “até um chinelo” e deu até pra ajudar a mãe numa pequena reforma.

Houve ainda comparação com outros países, mostrando que o PIB do Brasil teve a mesma queda do PIB  da Alemanha e uma queda menor que de outros emergentes, como Chile e México – assim apenas, sem comentar as diferenças entre as economias e as políticas econômicas. Ou seja, naquela linha do discurso construindo as referências e inferências, fica a ideia de que “até a Alemanha”, com economia tão forte, teve essa queda no PIB… não foi culpa do governo.  

Pra fechar, Paulo Guedes (com a estante ao fundo devidamente cheia de livros, para evitar críticas rsrs) fala que esse resultado de agora é “o som do trovão”, ou seja, o pior já passou. “O que você vê é o registro do passado.Foi esse som que chegou agora. O Brasil já está voltando em V”), disse o ministro. E a reportagem explicou o significado:  retomada em V significada uma volta rápida ao crescimento. Explicou também que os economistas estão mais cautelosos e que é necessário recuperar as perdas com as essenciais reformas. 

OBS: De fato, o auxílio emergencial foi a salvação, sem ele, a situação estaria ainda mais tenebrosa. No entanto, a reportagem poderia ter mostrado que o governo não queria dar qualquer auxílio e, quando decidiu, queria dar 200 reais. Mas não o fez. 

Só pra constar, o Bolsa Família nunca mereceu tamanha benesse…  

PRESTEM ATENÇÃO: O tema em geral foi dividido em 3 matérias de 3 minutos cada. 

– A primeira, que abriu o tema, mostrou o cenário ruim, lojas e estabelecimentos comerciais fechando, retratou o cenário. Mas puxou para um aspecto positivo, de evitar o pior, jogando luz no auxílio emergencial, como abordado acima.

– A segunda mostrou que “Consumo menor das famílias durante a pandemia tem impacto direto em PIB em queda. A economia desligou porque quem não sai para trabalhar não precisa abastecer, não gasta para se vestir, não sai para almoçar. O consumo das famílias sustenta e acompanha o ritmo da economia porque representa dois terços do PIB”. Ou seja, de novo reforçando somente o impacto da pandemia no desempenho do PIB. Se o consumo das famílias cai, a economia fica sem combustível. Como se fosse assim, numa relação direta apenas. A reportagem mostra o retrato de uma família cuja renda vinha do transporte de alunos e que “a vida estacionou junto com a van”. 

– A terceira matéria mostra a prorrogação do auxílio emergencial pelo governo, com metade do valor. Joga mais luz no benefício concedido e na articulação do governo com o Congresso. Segundo Délis Ortiz (que volta a cobrir Bolsonaro e o governo), “líderes de partidos foram chamados para um café no Palácio da Alvorada. Todos puderam falar, e foi com o apoio e a presença deles que o presidente Jair Bolsonaro fez o anúncio”. Entra então um novo Jair – civilizado, palatável, comedido, humanizado – a anunciar a prorrogação do auxílio e o novo valor, explicando que pode não ser um valor “suficiente para todas as necessidades”,  mas que atende, “em cima da responsabilidade fiscal”. Guedes também falou, em sintonia com o presidente.  Depois,   o deputado Ricardo Barros, líder do governo na Câmara, salientou que essa é “a nova forma de fazer articulação política: acordar com os senhores líderes primeiro”. E Délis Ortiz volta para dizer que Rodrigo Maia também já “empenhou” apoio, cuidando para “atender os mais vulneráveis”.

Uma cena linda de civilidade. Simbólica, marcante de um grande acordo nacional.

PAÍS FUNCIONANDO

Imediatamente na sequência, com 5 minutos, reportagem mostra a cena perfeita de novo – ministros e líderes anunciando a entrega do texto da reforma.”Governo anuncia que entrega texto da reforma administrativa ao Congresso nesta semana. Junto com o teto de gastos, líderes do governo se comprometeram a aprovar o texto como parte do esforço para o equilíbrio das contas públicas”, diz Renata. E a reportagem sinaliza que a decisão é uma vitória do ministro Paulo Guedes – agenda ultraliberal salva, portanto.

De novo, grande espaço para a fala agora civilizada de Bolsonaro, mencionando a reforma e garantindo que ela será apenas para os futuros servidores, não para os atuais. e Guedes entra logo em seguida, explicando tudo e falando em “futuro”. Depois, os líderes da Câmara (Maia) e do Senado (Alcolumbre) também falam e defendem a reforma. Pra fechar, Paulo Guedes de novo, numa videoconferência, falando da importância do controle do teto de gastos.  

GUARDIÕES DE CRIVELLA

Mais 10 minutos, em duas reportagens, escancarando o esquema da Prefeitura do Rio. Segundo a reportagem, a Policia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão contra funcionários da Prefeitura do Rio que atacavam imprensa em hospitais. Os mandados de busca e apreensão foram contra membros de grupo que intimidavam jornalistas e cidadãos na porta dos hospitais municipais do Rio de Janeiro. e o MP vai investigar se houve prática de crimes pelo prefeito, Marcelo Crivella. Reportagens muito detalhadas, mostrando os funcionários sendo levados para depor e recuperando todo os histórico de ação do grupo.  

LULA E A CORRUPÇÃO

A reportagem era sobre decisão que beneficia Lula.. Segundo a matéria, “Quarta Turma do TRF-1 decide, por unanimidade, trancar ação penal contra Lula. Na prática, a decisão arquiva o processo, que é de 2016, quando o ex-presidente virou réu por suposta participação em um esquema de fraudes em contratos da Odebrecht com o BNDES. Também nesta terça, em outra instância, o STJ rejeitou sete de oito pedidos de Lula”. 

Mas o tom foi diferente. A começar pela exibição da imagem de fundo – a clássica cena dos canos enferrujados por onde escorre dinheiro. Se a matéria mostra que Lula foi inocentado, por que a recuperação dessa memória discursiva para o espectador? De novo a cena da corrupção? Foram 10 segundos com destaque para a imagem. E a reportagem começa recuperando os motivos da acusação feita à época, e não pela decisão que inocenta Lula.

De volta à bancada, a imagem dos canos com fundo vermelho retorna (permanecendo na tela por mais 29 segundos), com Renata informando com certa ênfase que o  “Superior Tribunal de Justiça rejeitou SETE de oito pedidos do ex-presidente Lula”.

OBS 2: Ao final da edição, Bonner volta com uma correção, de poucos segundos: “Ao contrário do que dissemos mais cedo, o ex-presidente Lula não foi condenado pela primeira instância em Brasília, no processo em que era acusado de usar de sua influência para favorecer a construtora Odebrecht. Ao contrário, em julho de 2019, o juiz de 1º grau, acolhendo os pedidos da defesa de Lula, absolveu sumariamente  o ex-presidente da prática de organização criminosa e  rejeitou uma parte da denúncia do MP contra Lula. Hoje, o TRF1 mandou trancar o restante da ação penal”.

PRESTEM ATENÇÃO: Em todas as correções de erros do JN, Bonner encerra falando assim: “A fulano, pedimos desculpas pelo nosso erro”.

Lula não mereceu essa deferência do jornal…

DALLAGNOL E A RETIRADA ESTRATÉGICA

Em reportagem de 3 minutos, que mereceu apenas uma seca abertura de Renata, a informação de que o coordenador da Lava Jato em Curitiba está deixando a força-tarefa. Tudo muito formal, expondo a justificativa do procurador, de que vai se dedicar a questões de saúde na família. Logo aparece o novo coordenador, e depois Dallagnol aparece falando sobre os motivos, que ele e a esposa passaram a identificar, apenas há algumas semanas, problemas de desenvolvimento na filha mais nova. E para dizer com ênfase que não houve qualquer ingerência da PGR na escolha do novo coordenador. Teve 30 segundos para se expor como quis. 

Depois, a reportagem mostrou de leve os atritos havidos com a PGR e as acusações de abuso de poder, como no caso do power point sobre Lula. Tudo bem rápido e sem muitas problematizações, colocando de novo a fala do novo coordenador. Fim. 

Talvez, em mais um grande acordo silencioso, Dallagnol sai de cena – para não ser julgado ou para tomar outros rumos. Aguardemos.