Na abertura da reportagem do JN de segunda-feira, dia 21, uma Renata vacinada e feliz anunciou o seguinte: 

“No Senado, depois de levantar dados e depoimentos sobre a negligência do  governo federal na compra das vacinas e sobre a existência de um gabinete de paralelo com incentivo a práticas negacionistas, a CPI começou uma terceira linha de investigação. O foco agora é em alianças do setor público com o privado”.

Então entrou a reportagem, que teve sete minutos e mostrou a denúncia da investigação da compra da Covaxin, vacina da Índia. O processo teve intermediação de uma empresa  sem vínculo com a indústria de vacinas. O imunizante indiano foi o mais caro negociado pelo governo até agora e o que teve o acordo de compra fechado mais rapidamente pelo Ministério da Saúde.

E agora o MPF investiga a compra. O empresário dono da Precisa, a empresa citada, fez a intermediação entre o governo brasileiro e o laboratório indiano; ele iria depor hoje (quarta-feira) à CPI, mas alegou que precisa ficar de quarentena após viagem à Índia. A reportagem informou que Jair Bolsonaro intercedeu PESSOALMENTE junto ao primeiro-ministro indiano, em janeiro, para efetivar a compra, e naquele momento, Pfizer e Butantan já tinham  oferecido contratos para fornecimento de 170 milhões de doses de vacinas. A reportagem dá todos os detalhes da compra, informando que o contrato para aquisição da Covaxin foi “de longe” o que teve o desfecho mais rápido:

 

A reportagem segue dando vários outros detalhes da investigação, colocando foco na procuradora da República que diz querer saber se houve algum tipo de pressão que indique algum tipo de favorecimento. 

Muito bem. Ainda nessa edição, vimos também uma reportagem de três minutos falando que que empresas de pequeno porte que conseguiram “a duras penas” se manter na pandemia sofrem agora com a inflação. Segundo a matéria, o aumento dos preços vem pesando, sobretudo o da energia elétrica. Com demanda ainda reduzida pela pandemia, donos tentam não repassar preços para os clientes, mas fica difícil. A reportagem mostra pessoas comuns, pequenos empresários (donos de bares, de lojas, de salão etc.) que “acordam cedo com sangue nos olhos” e “não sabem o que vai acontecer” com a economia na pandemia. Aqueles que buscam se reinventar, inovar, manter os clientes, gente como a gente, trabalhadores, empreendedores, não ricos. E agora, essas pessoas têm de lidar com um inimigo que vem ganhando força: a inflação. Os itens que puxam a alta são, sobretudo, energia e combustível – ou seja, itens que afetam todo mundo. A reportagem mostrou o aperto das pessoas que tentam se manter com seus pequenos negócios, apesar dos percalços.

Na edição do dia 22 de junho, reportagem de quatro minutos retomou, com mais detalhes, a questão da compra nebulosa da Covaxin. A matéria mostrou, a partir de novos documentos, que o Ministério Público alertou para temeridade do risco do contrato de compra da vacina indiana. A empresa brasileira que intermediou o negócio tem entre os sócios pessoas envolvidas em outras irregularidades no Ministério da Saúde. De novo, muito foco nas declarações da procuradora responsável pelas investigações, que vê indícios de irregularidade no contrato e que afirmou que ele não atende ao interesse público. 

Na mesma edição, matéria de um minuto centrou na questão da economia, mostrando que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) avalia que a pressão sobre os preços está mais persistente do que o esperado, ou seja, a inflação está mais persistente, não diminui e há pressão das tarifas de energia. De novo, o tema incômodo da inflação, da economia num viés negativo.

Pois bem, essas quatro reportagens em dias seguidos mostram o retorno – ainda com pouco espaço – de um binômio que já foi muito, muito utilizado pelo JN em outros tempos, e com sucesso: os repertórios CORRUPÇÃO e CRISE ECONÔMICA. Eles estão novamente sendo colocados na pauta, na grade, todo dia, em conjunto. E com objetivos bem claros.

Em linhas gerais, repertórios são temas que compõem uma linha argumentativa midiática, substratos que constroem sentido para determinada narrativa da mídia; os repertórios “contornam” o noticiário, e os assuntos são inseridos em determinadas construções de sentido – repertórios não são simplesmente “assuntos”, são construções temáticas que alinhavam o sentido para reforçar determinadas percepções – corretas ou não.

Esse binômio de que tratamos na construção simbólica da narrativa midiática – CORRUPÇÃO E CRISE ECONÔMICA –, em conjunto, é capaz de desidratar qualquer presidente. Ele foi o responsável, por exemplo, por dar suporte à construção do apoio da população ao inexplicável processo de impeachment de Dilma Roussef – num cenário em que o Brasil tinha uma taxa de desemprego de 4,8% e a classe média feliz ia pra Disney. Mesmo assim, reportagens e mais reportagens sobre o “medo” da inflação e de uma crise econômica (quando havia renda e o aumento de preços era sazonal – lembram-se do caso do tomate?) foram catalisando esse temor na população. Assim como foi responsável por dar força à ideia da tal “pedalada fiscal”, que se transformou em símbolo máximo de prática de corrupção, além, claro, das ligações com a Petrobras, da compra de sítios e triplex.

No recente passado político do Brasil – que começa em 2013 e chega ao impeachment de Dilma –, a marcação simbólica desses repertórios na grade diária do JN, com direito a imagem ilustrativa, foi muito relevante e determinante para muitos acontecimentos, construindo na população a “percepção”, falseada, de que a presidenta era corrupta. Àquela época e hoje, nada se provou contra Dilma nem contra Lula.

Se o funcionamento simbólico é efetivo quando não há provas, imaginem quando há evidências mais que fortes, como no cenário atual.

Os repertórios são efetivos na construção midiática porque ganham cara e nome, eles se materializam nas dificuldades e nos medos de gente como a gente – Josué do bar, dona Silvana da padaria, Silvia do salão, que tomou um empréstimo pra manter tudo funcionando; e Jair, que compra vacina superfaturada quando deveria zelar pela população. Não são abordagens mais meramente técnicas sobre economia ou atos de corrupção, elas ganham materialidade, rostos, dados, cores.

Além disso, para serem muito efetivos, os repertórios – especialmente a corrupção – precisam ter lastro em vozes de autoridade. Quem diz ou acusa não é o JN, Bonner e Renata. Quem diz é o Ministério Público, a CPI. 

Óbvio, como construções simbólicas, os repertórios não são mágicos – interagem com o cenário, com o contexto político e econômico, com os atores. Por isso, fico aqui pensando: se essas construções foram capazes de causar tamanho estrago em atores políticos como Lula e Dilma – em relação aos quais nada se provou, pelo contrário –, imaginem o que farão com Jair, o incomível do cercadinho, agora que ele se torna indigesto para aqueles que o alimentaram?

Aguardemos.

P.S.: JN fez chamada inusitada e inédita para entrevista de Hamilton Mourão, o vice, para falar sobre tudo e sobre nada… mas é o vice que pode garantir a não implosão e o não golpe em caso de renúncia ou impeachment

P.S.: Folha de S. Paulo trouxe hoje reportagem sobre a Fiat Elba, aquele carro jurássico que derrubou Collor de Mello, o caçador de marajás que renunciou