Mas nesta edição extra do Boletim eu quero aproveitar para discutir a cobertura do JN a partir de uma categoria estratégica: o silenciamento. Já falei sobre esse aspecto e voltarei ao tema sempre que necessário, pois o silenciamento é utilizado pelo JN como política editorial, de maneira muito bem estruturada. 

Silenciar ou impor o silêncio – em relação a acontecimentos, atores – é impedir a emergência de um outro discurso, como ressalta a pesquisadora Eni Orlandi. E o silenciamento como política editorial não é censurar ou simplesmente não dar determinado assunto. É aquela estratégia muito bem feita de falar sem falar direito, de dar um acontecimento retirando dele todo o seu significado, toda a sua potência de sentidos.

O silêncio é aquilo que é colocado de lado, aquilo que é apagado, e na estruturação de uma notícia, o ato de silenciar diz muito sobre os posicionamentos da mídia corporativa, que quase nunca são claros ou transparentes.  Portanto, o ato de silenciar assuntos ou temas ou personagens não é apenas deixar de dar na edição do dia. Eu posso muito bem falar de um assunto e retirar dele todo o seu significado, toda a sua importância. Essa operação é absolutamente intencional e estratégica. A mídia corporativa no Brasil, como um todo, se vale disso, mas o Jornal Nacional é um grande mestre nessa arte. E por isso eu quero destacar aqui três acontecimentos significativos nesta semana que foram objetos dessa estratégia.

DESIGUALDADE RECORDE

A Fundação Getúlio Vargas divulgou uma pesquisa bastante completa sobre a desigualdade no Brasil, apontando um recorde histórico no primeiro trimestre do ano. Entre vários outros dados, a pesquisa mostra que a desigualdade no país bateu novo recorde, que a classe média encolhe, que a renda dos trabalhadores caiu, que a renda dos mais pobres caiu quase 21 por cento, que o bem-estar diminuiu.

Pois bem, na edição de quinta, o JN deu uma nota de 38 segundos para falar sobre o assunto. O enquadramento da nota foi o temático, destacando o assunto e evidenciando  números – a nota mencionou o índice que mede a desigualdade, o índice de Gini, e explicou que quanto mais próximo de 1, pior é a situação, no Brasil, o índice está em 0,67. Na tela, foram projetados os números mostrando o índice de gini e o percentual de queda da renda dos trabalhadores e da população, como vocês podem ver abaixo.

Uma nota de trinta e oito segundos para falar de um problema que é avassalador no Brasil e que piora cada ano do governo Bolsonaro por conta da total incompetência e da política predatória. A nota de 38 não explorou mais os dados da pesquisa nem ouviu qualquer fonte ou mostrou um retrato, em imagens, da situação das pessoas na pobreza. Muito menos explicou em bom português que o aumento expressivo no índice de Gini quer dizer que há um salto gigantesco na diferença entre a renda dos mais pobres e a renda dos mais ricos no Brasil. Ou seja, mais uma vez, não dimensionou o que é a desigualdade de fato.

Logo após a nota e para ilustrar o “drama” da desigualdade, entra uma reportagem cujo anunciando que, mesmo quem tem pouco reparte para que outras famílias não passem fome. E a reportagem mostra então a realidade de um bairro muito pobre de Aracaju, ilustrando a queda de quase 21% na renda dos trabalhadores. O que é tolerado e de alguma forma resolvido pela solidariedade. Não há governo,  não há culpados pela desigualdade. E a solução passa, então, pela solidariedade, e não pelo estabelecimento de políticas públicas.  

WILSON WITZEL NA CPI

Na quarta-feira, dia 16, a CPI da Covid ouviu o ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Ele tinha obtido o habeas corpus com direito a não comaprecer, ams fez questão de ir. Antes aliado de Bolsonaro, Witzel discordou do presidente no enfrentamento à pandemia. Foi retaliado e sofreu processo de impeachment.

O depoimento de Witzel foi muito importante. Ele apontou várias irregularidades em relação à saúde e mostrou a omissão do Ministério e do governo na gestão da pandemia. Além disso, o ex-governador trouxe detalhes que colcoaram o caso Marielle Franco muito perto de Jair Bolsonaro. 

Witzel relembrou a história do depoimento porteiro do condomínio da barra, onde Jair Bolsonaro tem casa. segundo as investigações, o porteiro havia dito que alguém da casa tinha autorizado a entrada dos assassinos de Marielle. Ele então afirmou afirmou que o ex-juiz Sérgio Moro era o garoto de recados de Bolsonaro e que interveio nas investigações do caso. Segundo ele, o porteiro foi coagido e, pouco tempo depois, mudou o depoimento. O ex-governador falou ainda que o governo federal passou a fazer retaliações contra ele à medida que as investigações sobre o caso avançavam e que por isso ele foi vítima do impeachment. Witzel vai voltar a falar em sessão secreta da CPI.

Enfim, foi um depoimento muito contundente. Mas, à noite, na edição do JN, não se viu nada dessas declarações. O peso do depoimento de Witzel com as novas denúncias foi abafado, silenciado. Quem assistiu ao JN viu apenas uma matéria burocrática de 10 minutos sobre o depoimento. A reportagem teve um tempo menor do que o que tem sido dedicado aos outros depoimentos. Ao longo da matéria, esclarecimentos sobre a situação jurídica de Witzel, que é réu por improbidade administrativa, numa jogada bem clara para tirar o peso da fala do depoente. E nada, nenhum detalhe sobre as acusações feitas a Sérgio Moro. Trocando em miúdos, o Jornal Nacional  silenciou a denúncia grave de Witzel em relação a Moro e o caso Marielle Franco. Nada foi mencionado, nem a história do porteiro foi relembrada.     

GUEDES E AS SOBRAS DE COMIDA

Uma declaração nada singela do ministro da Economia, Paulo Guedes, na quinta-feira, dia 17, voltou a provocar muitos debates e indignação. Numa apresentação no Fórum da Cadeia Nacional de Abastecimento, que foi promovido pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), ele sugeriu que a questão da fome no Brasil pode ser enfrentada se forem utilizadas as sobras de comida de vários lugares, como restaurantes e supermercados, para alimentar a população mais pobre. Ele ressaltou que as sobras de comida podem ser aproveitadas, que há muito desperdício no Brasil. A declaração gerou muito mal-estar e reações contrárias. 

Mas, novamente, só tivemos conhecimento dessa declaração do ministro e da repercussão por causa da mídia independente. A edição dJN não mostrou a fala de Guedes, não repercutiu a declaração, não problematizou a questão, não mostrou as reações, não fez uma ligação com a situação de extrema desigualdade do país. Ou seja, silenciou.

Por todos esses exemplos – e há outros – o silenciamento é uma estratégia a ser problematizada e sempre discutida porque ela dialoga de perto com a estrutura de comunicação que temos no Brasil. Essa estratégia se potencializa em função da estrutura de enorme concentração dos meios de comunicação que temos por aqui. Se tivéssemos uma estrutura de mídia mais plural, mais democrática e menos concentrada, não estaríamos tão à mercê das operações de silenciamento da mídia comercial. E certamente uma grande parte dos brasileiros teria ouvido falar sobre esses assuntos e teria condições de formar uma avaliação a respeito e de estabelecer conexões entre os temas.