A reação do mercado financeiro às intenções de Jair foi destaque na edição. A boiada de Salles passando repercutiu, mas não como poderia. E, curiosamente, a denúncia de Trump trazida pelo NYT não teve muito destaque na edição, foram 3 minutos apenas reproduzindo a reportagem e trazendo a contestação de Trump. Tudo bem burocrático.

Muito espaço para matérias positivas, mostrando um país que se reinventa, e matérias mostrando uma rotina normal de vida – assuntos periféricos que ganham a cena. 

Três pontos resumem bem o JN de ontem:

1 Reação do mercado financeiro – ou seja, o binômio “dólar sobe, Bolsa cai” volta à cena

O binômio é um sinalizador importante de que a elite financeira começa a se incomodar e não fica mais tão feliz. Muito utilizada durante a eleição de 2014 – toda vez que saía pesquisa e Dilma estava na frente, era isso que aparecia em primeiro plano. Com Bolsonaro, já apareceu algumas vezes, não muitas, e agora retorna estando bastante ligado à obsessão do presidente com um novo programa. Segundo Bonner, com caras e bocas, o presidente Bolsonaro, depois de proibir que se fale em “Renda Brasil”, retorna à cena com um novo projeto, o Renda Cidadã, com a mesma intenção. A reportagem começa mostrando a reunião com os líderes do governos e ministros e ressaltando que a expectativa era de que o governo apresentasse a reforma administrativa. No entanto, a discussão foi sobre o novo projeto. Ou seja, há sinais de preocupação com o uso que Bolsonaro vai fazer do novo programa, de onde sairá o dinheiro e com o estouro do teto de gastos.

O tom da reportagem foi de crítica comedida – políticos e especialistas criticaram a nova proposta e, sobretudo, os meios para financiar o substituto do Bolsa Família. A ideia é de tirar recursos do Fundeb e de precatórios para bancar o novo programa. A intenção foi muito criticada, e a reportagem mostrou, de certa forma, o absurdo que é retirar recursos da educação para bancar outros programas. Uma boa construção, com várias vozes tecendo muitas críticas e chamando a atenção para o teto de gastos.  

No entanto, apesar do tom crítico, o grande acordo nacional parece ainda estar de pé. Na construção da cena enunciativa, há muitos elementos que revelam isso:

– a reportagem é de Delis Ortis (pra modalizar Jair, é sempre com ela); 

– a aparição de Bolsonaro continua no mesmo ethos de presidente confiável, um novo personagem bem construído: Jair, o presidente. Nesse caso, ele  aparece sempre ao lado dos ministros, com cabelo arrumado e terno alinhado, falando como um presidente normal, ressaltando o compromisso com o teto de gastos, com a responsabilidade fiscal, afirmando que o Brasil é um país confiável e que é preciso cuidar dos “invisíveis”). Discurso na medida, fala pausada, sem arroubos, sem mexer a face de modo grotesco e sem gesticular, e, claro, tutelado por Guedes (pelo menos na aparência);

– Todos fingem que Guedes ainda dá as cartas na Economia – Bolsonaro destaca que tudo acontece no tempo da cartilha de Paulo Guedes (hahahahahaha) e o ministro diz que há o timing da economia e que agora é o timing da política. Tudo muito encenado pra fingir normalidade e boa governança. Mas o mercado potente já sacou que há dissonância.   

2 Salles passa a boiada

Reportagem sobre a vergonhosa votação do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) entrou apenas no último bloco do jornal, com 5 minutos. Segundo Bonner, na abertura:  “Uma derrota do meio ambiente no Brasil. Uma votação do Conselho Nacional de Meio Ambiente, que é presidido pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, revogou regras que protegiam áreas de manguezais  e de restingas e provocou protestos e críticas”.

A reportagem mostrou então que a primeira regra a cair foi a que obrigava os projetos de irrigação (que são geralmente gigantescos) a terem licença ambiental, sendo que o pedido foi feito pela Confederação Nacional de Agricultura, e deu detalhes do pedido.

Seguiu mostrando outras regras e os impactos,  as regras derrubadas, e muitos detalhes da votação, com a fala dura de representante do MP, que não tem direito a voto no Conama, mas se posicionou contra a votação e afirmou que o caso será levado à justiça. A reportagem também lembrou em detalhes a fala de Salles na famosa reunião ministerial de 24 de abril, quando ele disse que era preciso aproveitar a oportunidade de “deixar a boiada passar”.

As críticas dos especialistas foram bem evidenciadas, assim como as mudanças sofridas no Conama – Bolsonaro diminuiu drasticamente o número de participantes e restringiu a voz da sociedade civil, ou seja, a maioria no Conselho é de representantes do agronegócio. A reportagem foi bem delineada pra se vender como informativa, explorou bem o assunto, mas ficou devendo: permaneceu a sensação de que moralizou, bateu pouco na questão – afinal, o agro é pop será diretamente beneficiado por essas medidas. Infelizmente, parece que só o boicote do exterior pode salvar o meio ambiente no Brasil.   

3 Coisas boas acontecem, vamos superar as adversidades

Essas matérias cumprem bem a função de mostrar que há saída, que o país não está tão desgraçado quanto parece. Enfim, cumprem a função de acomodar bem o acordo. Temos então:

A voz da garota Nicoly em Recife, 3 minutos: “Adolescente emociona comunidade onde mora no Recife com canto lírico. Nicoly tem 16 anos e, há quatro, estuda esse tipo de canto em um projeto social. A professora lembra que a aluna nunca faltou as aulas de música. Mas, por causa da pandemia, as aulas agora são pelo celular”. Reportagem bem bacana, alto astral, na medida pra esquecer que Salles está passando a boiada. 

A escola de Suzano/SP que ganha cores com Kobra e outros artistas: “Escola que foi palco de tragédia em Suzano passa por transformação. Artistas e estudantes participam de reforma da Raul Brasil, onde ocorreu um massacre no ano passado”. Boa reportagem, com 4 minutos, destacou a escola e a superação da tragédia. Mas muito grande, sem um apelo realmente destacado. 

Show do Criança Esperança: “Criança Esperança terá show nesta segunda-feira (28). O projeto, uma parceria da Globo com a Unesco, está completando 35 anos. O Show da Esperança terá apresentações de artistas como Ivete Sangalo, Péricles e Alcione”. Dois minutos de reportagem pra mostrar alegria e “o que é esperança pra você”. 

OBS 1.: Ontem o jornal O Globo deu destaque à notícia de que o MP havia denunciado Flavio e Queiroz pela rachadinha. Mais tarde, soltaram um desmentido afirmando que o MP não havia ainda feito a denúncia. Achei um erro bem esquisito para um jornal como O Globo. Nada disso saiu no JN. Aguardemos

OBS 2: Mudança no tom da matéria sobre o INSS: ontem, reportagem mostrou os peritos que não vão trabalhar mas estão atendendo em seus consultórios. Ou seja, o problema não é mais da falta de condições de trabalho no INSS, com as normas contra a Covid.