É um quadro econômico sobre o qual o JN silencia – mostra pinceladas, aqui e acolá, mas não estabelece as ligações necessárias para que a gente compreenda que o buraco é gigantesco. 

A primeira reportagem é sobre o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, que neste ano teve o menor número de inscritos desde 2007 – pouco mais de 4 milhões de estudantes fizeram a inscrição. O exame foi criado em 2005. A reportagem de 3 minutos começa com o personagem Jhonne da Silva, um jovem negro que mora com a avó e dois tios numa comunidade em São Paulo. Diz a reportagem que “ele conseguiu um estágio para ajudar nas despesas e desistiu de fazer o Enem este ano para tentar uma vaga na faculdade de música”. E Jhonne aparece falando que tinha de obter 600 pontos, mas como ele ia conseguir isso se nem foi à escola?

Vejamos a construção: Jhonne CONSEGUIU um estágio e DESISTIU de fazer o Enem. 

Soa positivo, não é? O rapaz foi agraciado com a oportunidade de um estágio, pensou bem e optou por não fazer o exame que poderia garantir a ele a vaga na faculdade sonhada, de música. 

No entanto, Jhonne não “escolheu” adiar o Enem; ele foi OBRIGADO pela crise no país a procurar um estágio (nem é efetivamente emprego, ou seja, deve pagar mal), não teve condições de estudar para fazer o Exame. Arrumar o que chamaram de “estágio” (deve ser subemprego) não foi uma opção para Jhonne, foi uma obrigação.

Entra na sequência o caso de Camila, que segundo a reportagem “não se adaptou ao ensino online e por isso não se preparou para a prova”. Ela mora em Natal, Rio Grande do Norte, e conta que teve crise de ansiedade com a pandemia.

Depois, vemos o caso de Hugo, que passa o dia todo trabalhando na oficina do pais mas que conseguiu concluir o Ensino Médio. Hugo diz que vai sim fazer o Enem: “pretendo PERSISTIR, sem dúvida alguma, e cada vez mais me dedicar, se não for dessa vez, seguir em frente e continuar caminhando até conseguir”. 

A velha ideia da superação, a velha ideia de que basta “persistir” num cenário miseravelmente adverso para obter êxito. A velha receita e falácia neoliberal. Não, não basta persistir para “triunfar”. Num país miseravelmente desigual e açodado pela pandemia e pela crise econômica, não resta muito a fazer.

Todas as questões da reportagem são tratadas como se dependessem apenas da atitude INDIVIDUAL dos jovens estudantes. Como se o problema não fosse conjuntural, sistêmico – o país em frangalhos, açodado por uma pandemia, sem esperança, desemprego batendo mais de 14%; qual a condição de que jovens mais empobrecidos tenham tempo e disposição para os estudos? 

A reportagem prossegue informando o número pequeno de inscritos e projetando um gráfico que mostra a evolução desde a criação do Exame, em 2007. Este abaixo.

Vejam que não há uma comparação histórica e conjuntural – nos anos de crise, o número de inscritos cai! Isso é básico, porque, se falta dinheiro, o jovem precisa trabalhar para ajudar em casa. Simples assim.  Em 2014, por exemplo, primeiro mandato de Dilma Rousseff, com um desemprego na casa de 4,8%, muito baixo, os jovens não precisavam parar de estudar para terem subemprego (porque o jovem sem qualificação tem subemprego, esse eufemismo de estágio é para fingir que a coisa é positiva), eles podiam estudar, sonhar com a faculdade, e as inscrições bateram recorde. 

O número de inscritos, diz a reportagem, pode ser ainda menor, pois a inscrição só é confirmada quando o candidato paga a taxa de 85 reais. Aí entram também as explicações dos “especialistas”, e a presidente do CNE diz que os jovens se sentem “despreparados”. 

Logo em seguida, uma reportagem tenta mostrar o lado mágico e bom do “estágio”. Isso mesmo. Entre constrangida e meio incrédula, Renata Vasconcelos anuncia que a economia brasileira – que já foi a sexta economia do mundo – “voltou a criar  oportunidades de estágio”. E aí a reportagem mostra que a pandemia também criou demandas para “impulsionar a retomada”. Os dados são do Centro de Integração Empresa Escola, CIEE, única fonte ouvida.

Com o desemprego batendo em mais de 14%, faz algum sentido matéria de quase três minutos para falar da geração de 20 mil vagas de ESTÁGIO? A reportagem ainda ovaciona o fato de haver mais oportunidades para áreas que não tinham tantas vagas assim antes da crise sanitária. E a fonte para falar que tudo está bem e que o cenário é lindo é do CIEE. A especialista destaca uma coisa em sua fala que é a cereja o bolo: “Desde a pequena até a grande empresa precisou se adaptar de alguma forma, todas elas, e o estudante, ele passa a ser sim uma saída muito mais prática para as organizações, de todo tipo de porte dessas organizações”.  Ou seja, creio que o nome disso é “subemprego” – as empresas estão tirando funcionários mais caros e colocando estagiários, simples assim. Lembrando que os estagiários não têm garantias trabalhistas e benefícios. Enfim, tudo empacotado para parecer legal, quando é uma tragédia, pois a reportagem também informa que, no ano passado, 70% desses jovens usaram a “bolsa-auxílio” para ajudar a pagar as contas básicas de casa – luz, supermercado, aluguel.      

E vemos então o depoimento de Mariel, estudante de Relações Públicas, que com a bolsa do estágio consegue pagar a faculdade. Ela entrega o vale-alimentação (o mesmo que o Congresso quer acabar) para a mãe fazer compra de supermercado. O depoimento dela mostra que a realidade da economia péssima chegou à classe média com força. 

Discurso não se faz sem os vínculos históricos. É essencial entender os movimentos da história para entendermos os movimentos de agora, para entendermos o buraco em que o país foi mergulhado. Números puros não dizem nada – eles precisam estar ligados, conectados, precisam ser interpretados. Essas duas reportagens se conectam não por que mostram oportunidades ou superação ou nova realidade – mas porque revelam uma realidade de muita precariedade. 

Observando e fazendo as conexões todas, vemos também como a imprensa embrulha peixe podre em saco dourado para nos vender.