No dia 11 de agosto, a CPI da Covid anunciou que vai pedir o indiciamento do presidente Jair Bolsonaro por charlatanismo e curandeirismo. Segundo a Comissão, o presidente defendeu o uso de remédios sem eficácia comprovada no tratamento da doença. Na data, os senadores ouviram Jailton Batista, diretor da empresa farmacêutica Vitamedic, uma das principais produtoras de ivermectina, que foi responsável por bancar propaganda desse medicamento. A reportagem do JN teve quatro minutos e mostrou que o medicamento foi incluído no chamado kit Covid, amplamente divulgado pelo presidente Jair Bolsonaro.

O faturamento da Vitamedic, durante a pandemia, aumentou 29 vezes. A matéria destacou que Renan Calheiros mostrou vídeos do presidente Bolsonaro fazendo propaganda do medicamento e perguntando, em seguida, se as falas ajudaram nos negócios. O depoente então afirmou que, em junho e julho, meses em houve pico da pandemia,  houve um aumento na demanda pelo medicamento. O senador Randolfe Rodrigues interveio para ressaltar que, nos meses citados, os piores da pandemia, houve aumento na demanda pelo medicamento e, consequentemente, nas vendas e no faturamento da farmacêutica. Renan lembrou que o custo do investimento em anúncio da farmacêutica foi “pago em vidas”, e a reportagem ressaltou que os senadores consideram que o presidente Jair colocou em risco a vida dos brasileiros ao recomendar medicamento sem eficácia contra a Covid.

Sem dúvida, um depoimento importante que revelou os absurdos da divulgação inconsequente e inescrupulosa, pelo presidente da República, de um medicamento comprovadamente ineficaz contra a Covid, o que se transformou em um lucro fabuloso para uma farmacêutica. Informações muito importantes que dimensionam sem dúvida o tamanho da responsabilidade do governo na nossa tragédia pandêmica.

Uma reportagem razoável. No entanto, apesar da gravidade do tema e dos desdobramentos, esse não foi o assunto mais importante da edição do JN de ontem.

O assunto que mereceu uma reportagem de destaque, com mais de seis minutos, não tinha a ver com a saúde e a morte dos brasileiros pela falta de vacina, pela venda de medicamentos ineficazes e pela ação ou inação do presidente da República. O assunto do dia na edição do JN foi um tema do mercado financeiro, uma reportagem com toda a cara de um informe publicitário, mas vestida com as cores do jornalismo. Na abertura da reportagem, com feição alegre e empolgada, Renata Vasconcelos anunciou:

“Depois de amanhã, sexta-feira, o sistema financeiro vai entrar numa nova era no Brasil. Um momento que o presidente do Banco Central afirma ser tão revolucionário quanto a internet”.

Entra então a reportagem, ao melhor estilo das melhores e mais caras propagandas, até com música de fundo e um jogo de cenas entre passado e presente, mostrando a evolução dos serviços, além de personagens muito cativantes para mostrar a relação humana entre banco e clientes. Seu Miguel Romano, cliente de um banco há mais de quatro décadas, diz alegremente que, quando chega ao banco onde tem conta, as pessoas já o conhecem pelo nome. A reportagem faz um desenho bem ilustrado e didático para detalhar o que é o relacionamento de um cliente com os bancos e abusa das construções simbólicas e imagéticas para mostrar o que foi chamado de “mais uma revolução do sistema financeiro”, quando o cliente, “na prática, vai virar dono dos dados dele e levar as informações para onde achar melhor”. O tom da reportagem é absolutamente positivo, há apenas vantagens, muitas vantagens, na novidade denominada open banking. Segundo a repórter, “é como se cada um, a partir das informações pessoais que decidir compartilhar, criasse o próprio banco”. Ou seja, uma nova era de maravilhas no mundo financeiro.  

Não desconsidero que a notícia seja relevante e que caberia, sim, na edição do JN, até com algum destaque. De fato, é uma mudança relevante. Não sei avaliar, contudo, se é assim  tão positiva ou se há furos e problemas, pois as vozes contraditórias a mostrarem outros lados não apareceram na “reportagem”, houve espaço apenas para os divulgadores do mercado financeiro, para representantes da Febraban e economistas ligados ao sistema financeiro.

A construção da matéria de mais de seis minutos não tem, em si, erros; não há problemas no uso simbólico e bem desenhado, na estrutra de apresentação, na forma de enunciar o assunto, o tema. Não há problemas na performance da repórter ou na linha editorial. O problema está na divulgação, em horário nobre, para milhões de espectadores, de um conteúdo publicitário vestido com roupa de conteúdo jornalístico para divulgar um produto do sistema financeiro.

O problema é fingir que se trata de uma reportagem quando, na verdade, é um anúncio que divulga o produto ou inovação de um setor que acumula lucros astronômicos mesmo em tempo de pandemia, que tem um péssimo serviço para a população, que tem uma das mais altas taxas de juros do mundo e cobrança de juros escorchantes da população, que retira direitos dos trabalhadores e diminui postos de trabalho.

O problema é que os espectadores, desavisados, vão achar que se trata de uma inovação que trará muitos benefícios para TODOS, o que não é exatamente verdade. O problema é que, no país da pandemia sem controle, o mercado financeiro controla cada vez mais, minando inclusive os processos democráticos. 

O problema é que para a mídia corporativa, a descoberta de que o presidente da república contribuiu para divulgar um medicamento ineficaz contra a Covid, alavancando imensamente o faturamento de uma farmacêutica que vendia esse produto tem menos importância do que o anúncio de uma mudança no esquema de operacionalização do financeiro.

O problema é que a concentração dos meios de comunicação no Brasil não possibilita leituras contraditórias, não possibilita outros pontos de vista.

E assim, exatamente por esse conjunto de problemas, é que precisamos, com urgência, de um processo efetivo e sistemático de letramento midiático e informacional para dar às pessoas instrumentos para elas perceberem que um anúncio publicitário com roupagem de matéria jornalística é um engodo e uma grande picaretagem. E traz enormes prejuízos para a sociedade e a democracia.