A começar pelo bug já na escalada da edição, com problemas técnicos bem acentuados que impediram até de mostrar os destaques, a edição tinha um “jeito” diferente – morno e apático rsrs.  

Esquisita no tom excessivamente morno, na escolha das pautas, na estruturação da grade – resumindo: havia uma certa “apatia” da bancada, como num cenário bem parecido com uma final de Copa do Mundo em que o Brasil levava de 7 x1…

Há, emoldurando as edições do JN, o fingimento da normalidade. Pelo tom, pelas matérias, fingem que vivemos uma situação normal, num país normal que vai vencendo a pandemia. Silenciam o presidente ogro para fingir que ele não existe. Mencionam em brevíssimas notas – cerca de 20 segundos sempre – a situação de desemprego grave, para também fingir que a economia reage. Fingem que o Pantanal, o Cerrado, a Mata Atlântica estão torrando por causa do clima quente e seco. Fingem que há “equilíbrio” e boa convivência entre os Poderes quando, na verdade, há uma grande movimentação de Bolsonaro para salvar os filhos e se manter em 2022 com o aval dos Três Poderes – e o encontro na casa do ministro Toffolli mostra isso bem, assim como a pouquíssima repercussão em relação às denúncias com provas feitas pelo deputado Alexandre Frota sobre Dudu.

Enfim, fingem… porque, por ora, Bolsonaro está “domado” e prometendo entregar todas as reformas bem ruins que vão beneficiar os de sempre.

Destaques da edição:

– Matéria com muito confete para o PIX, novidade lançada pelo Banco Central. Com um viés super positivo, a reportagem bem longa mostrou as vantagens, os benefícios e as novidades. A voz de autoridade, a fonte, foi o BC. Até as fraudes que já surgem foram tratadas como sendo manifestações apenas externas que não vão atingir o novo sistema de pagamento.

– Meio ambiente vai perdendo espaço. O Pantanal em chamas continua a ser mostrado, mas o fogo é mesmo obra do clima seco, da falta de chuvas. Portanto, tudo natural. A tragédia é dimensionada, mas sem um sujeito agente – não há responsáveis, a não ser os fenômenos naturais. O agro continua pop.

– Reportagem sobre obrigatoriedade de os rótulos nas embalagens passarem a mostrar quantidade de açúcar e sal – a tal tabela de informação nutricional. A briga das entidades de defesa do consumidor era para que os produtos brasileiros viessem com um selo na frente da embalagem falando da quantidade de açúcar, da quantidade de sal, como ocorre nos EUA. Mas não é isso que vai acontecer – as quantidades virão na parte de trás dos produtos, bem minúsculas. A reportagem foi vendida como grande novidade e como grande benesse da indústria, que se torna moderna e preocupada com o consumidores – a fonte a dizer isso foi um representante da indústria. Nada mais distante do real. 

– Teleperícia do INSS: reportagem também grande, requentando o assunto da precariedade do atendimento e trazendo a “novidade” da realização da teleperícia, que vai funcionar apenas em poucos casos. Ou seja, o problema não será resolvido.

–  Homenagem a Celso de Mello, que deixa o STF para se aposentar. Matéria enorme, 6 minutos, com Fux protagonista, Celso de Mello meio entidade, o STF funcionando lindamente. A reportagem mostrou que o último voto do decano foi contra o recurso do presidente Bolsonaro para prestar depoimento por escrito na investigação sobre a suposta interferência política na Polícia Federal. A reportagem mostrou isso com destaque.

– Na novela da reforma administrativa, Guedes e Maia mostrando “sintonia do governo com o Congresso na defesa das reformas”, segundo Delis Ortiz. Os dois apareceram juntos e falaram também sobre a proposta, que já quer incluir os atuais servidores. 

Ou seja, o tom desses afagos e da “sintonia” mostra o acordão funcionando para a efetivação de reformas que interessam ao establishment. A agenda do governo, segundo Guedes, converge com a agenda do congresso “reformista”. A matéria mostrou que “Proposta não poupa magistrados, parlamentares, promotores e procuradores. O grupo de parlamentares quer, por exemplo, proibir aposentadorias e pensões vitalícias e proibir licença remunerada para disputa eleitoral” – duvido muito que tal desenho se efetive no Brasil, essa falácia é apenas para servir de mote na propaganda pela reforma que começa a ganhar corpo. Aguardem as matérias sobre “altos salários”.  

–  Muita euforia pra anunciar que “Vendas do comércio atingem em agosto o maior nível em 21 anos. Agosto superou em 2,6% o recorde anterior, que era de outubro de 2014. A mudança de comportamento dos brasileiros da pandemia tem parcela importante na alta das vendas”. Sinceramente, eu não consigo identificar essa “mudança de comportamento dos brasileiros” pra fomentar assim a economia – pode ser algo que se explique pelo fato de o comércio estar sendo reaberto agora. De qualquer forma, a matéria de 3 minutos fez esse alarde na tal reação e, num link muito interessante, cobriu de flores o auxílio emergencial, mostrando como ele foi importante para as famílias comprarem comida. Uma exaltação ao programa do governo, mostrando como ele foi efetivo. 

Na sequência, nota pra mostrar que “Quinze milhões deixam a pobreza em agosto, com pagamento do auxílio emergencial. Estudo da FGV Social prevê que essa população volte à pobreza com o fim do pagamento do benefício”. Chamada forçada para, novamente, exaltar o auxílio emergencial. É um absurdo dizer que 15 milhões saíram da pobreza – esse contingente talvez não tenha tido a vida muito piorada por causa do auxílio, mas a situação não mudou. 

Depois, aumento no consumo de energia – o que é mostrado também como sinal de reação da economia.

Ou seja, boas notícias para o país.  

–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– 

Linhas gerais – tendências nas edições

TUDO “NORMAL”

Se não fosse pelas máscaras de alguns entrevistados, ninguém ia perceber que o Brasil, após sete meses de pandemia, não consegue sair do patamar de 700 ou 800 mortes diárias. No mapa mostrado na edição, a tal da média móvel, cada vez com menos espaço e mais relegado a uma leitura seca de números, o que se vê é a aberração de um platô que custa muitíssimo a cair. De fato, a situação melhorou um pouco, mas está muito longe de ser “normal”. 

ECONOMIA POSITIVA

Apenas as questões enquadradas para serem positivas ganham destaque em termos deReal desvalorizado. O que vale é comemorar poucas vagas sazonais de emprego e um crescimento de produção aqui e acolá. Tudo será vendido como “reação” da economia. Esse enfoque positivo ajuda a dar suporte para a proposta de reforma administrativa – ninguém faz reforma se a percepção é de que a economia está muito ruim.   

EXALTAÇÃO AO JUDICIÁRIO

Tendência a mostrar a força e o papel determinante do Judiciário, sobretudo do STF. 

CLIMA SECO É O CULPADO

As reportagens sobre o meio ambiente continuam, mas o tom mudou. A queimada como sujeito responsável pelo desastre perde muito espaço. O clima e o calor são os responsáveis, ou seja, não há ação humana por trás. O agro para sempre pop 

** Fica a perfeita sensação de que está tudo bem acomodado, com Bolsonaro sendo de alguma forma blindado – até entregar as reformas prometidas.