Vou destacar alguns blocos de sentido, porque acho que fica mais claro pra nossa reflexão, vendo a  edição como um todo.   

VACINA DA ASTRAZENECA

Foi o assunto que abriu a edição. Num tom bastante sóbrio, Bonner e Renata anunciaram que o laboratório AstraZeneca e a Universidade de Oxford suspenderam temporariamente os testes com a vacina, que já se encontrava na fase 3. O motivo teria sido um efeito colateral em um dos voluntários que tomaram a vacina. Bonner também anunciou que isso surpreendeu a comunidade científica e que as ações do laboratório caíram vertiginosamente. Em cerca de um minuto, o jornal fez um resumo do caso e chamou para mais informações ao final da edição. 

No final da edição, o que se viu foi uma peça de defesa do laboratório em questão e da vacina prometida. Foram 7 minutos para explicar sem explicar. O ponto era ressaltar que, segundo o laboratório e outros especialistas ouvidos, o procedimento de interrupção era padrão nesse tipo de teste. Duas questões:

1 Se é mesmo um padrão e todo mundo faz, por que é notícia? O padrão, o corriqueiro não é notícia. E se fosse padrão não ia derrubar “vertiginosamente” as ações do laboratório. E se é padrão, por que ninguém mais fez? 

2 Qual foi o efeito colateral? Por que ninguém mencionou ou falou sobre ele? Ou indagou? Há um rol de efeitos colaterais… e muitas especulações

E então Bonner, de pé, anuncia: “A informação de que o laboratório AstraZeneca e a Universidade de Oxford suspenderam os testes com a vacina teve repercussão imediata na imprensa mundial pôs em suspense a comunidade científica e afetou o mercado de ações”. Para um procedimento que é padrão, corriqueiro, isso causou um  estardalhaço…

Entra então Ismar Madeira, direto de NY, com mais detalhes. Que são, na verdade, explicações oficiais da empresa. O laboratório disse que decidiu “fazer uma pausa para permitir uma revisão dos dados de segurança por uma comissão independente”. Bem, para uma vacina que reúne duas instituições inquestionáveis, que estava sendo ovacionada como “a” esperança de imunização para a Covid, que foi comparada à vacina russa e ressaltada como tendo seguido todos os procedimentos, ao contrário da experiência oriental, é no mínimo estranha uma pausa agora.

Parece-me, brincando um pouquinho e guardadas as proporções, a história de um casal que se diz apaixonado, faz uma viagem dos sonhos para o Caribe para confirmar os laços, posta fotos lindas e apaixonada em rede social todo dia e, quando retorna à realidade, diz que vai dar um tempo para repensar a relação. Algo não bate…

Continuando com a reportagem, Ismar reproduziu a fala do porta-voz do laboratório, ressaltando que é um procedimento padrão, e informando que um dos voluntários apresentou uma reação adversa séria. A seguir, Ismar recapitulou todo o histórico de excelência da vacina, com os testes, os voluntários, os procedimentos e os resultados. Falou também sobre a queda no preço das ações do laboratório, mais de 8%.

Bonner disse que era curioso que esse procedimento tenha ocorrido exatamente no dia em que vários laboratórios assumiram um compromisso em relação à segurança das pesquisas. E Ismar emenda falando que a AstraZeneca “não está sozinha na preocupação em garantir a eficácia dessa vacina tão esperada”. Detalhe: o tal compromisso foi assinado por laboratórios europeus e norte-americanos.  

Bonner falou que as pessoas devem ficar tranquilas, porque faz parte do processo de testes de qualquer medicamento, de qualquer vacina que “de vez em quando aconteça algum problema dessa natureza, e aí as coisas param”. E Renata interveio, pra completar: “Como disse Ismar Madeira, é um procedimento padrão”. “Exato”, disse Bonner, “é um procedimento padrão, de segurança. Então, sem desespero. E vc que está preocupadíssimo porque estava esperando que saísse logo essa vacina de Oxford, sobre a qual existe tanta expectativa, tranquilize-se porque não é a única que está em teste no Brasil, tem outras sendo testadas aqui também”. A fala de Bonner define a excelência da vacina de Oxford – como se fosse a única esperada (o mundo é o Ocidente). 

Ismar então retorna pra falar de outras 3 que têm a autorização para testes no Brasil. 

E Bonner fecha dizendo que temos a torcida de um planeta inteiro e ressaltando que a Unifesp também salientou que é um procedimento comum (essa foi a tônica todo o tempo). A Fiocruz, de modo muito apropriado, disse que foi informada pelo laboratório mas que aguarda mais detalhes para se pronunciar.    

Curiosamente, a OMS não foi ouvida para dizer de novo, como apropriadamente fez em relação à experiência russa, que somente aceitará uma vacina dentro de todos os padrões de segurança e eficácia… 

Aguardemos.        

NÃO PODEMOS MOSTRAR A RACHADINHA, MAS…

A construção dos modos de dizer do JN – mais do que enquadrar determinado assunto, o modo de dizer, de falar sobre determinado tema ou assunto – é uma estratégia discursiva das mais bem trabalhadas pelo jornal. Ontem assistimos a uma essas construções. Por determinação da Justiça, a Globo não pode mais divulgar documentos e mostrar depoimentos “sobre a outra investigação, a da rachadinha” que envolve Flávio Bolsonaro. Mas isso não significa que o tema será silenciado, bloqueado, impedido de se mostrar. Pelo contrário, será sempre lembrado, resgatando-se, além disso, outros casos em que Flávio está envolvido.

Desde segunda-feira, é isso o que o JN faz: relembra um caso cabeludo em que Flávio está envolvido de algum modo, mostra “que o JN teve acesso aos documentos” e diz, ao final da reportagem: “A Globo não pode mais divulgar informações e  documentos sob segredo de justiça da outra investigação, a das rachadinhas, que é conduzida pelo Ministério Público do Rio. A pedido do senador Flávio Bolsonaro, que é  o principal investigado, a 33ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Rio proibiu a divulgação. A Globo vai recorrer”. E vai, claro, mostrar que há vários outros podres que poderão ser mostrados com exclusividade. 

Ontem, o JN mostrou que “teve acesso com exclusividade” a trechos do depoimento  de Fabrício Queiroz, “ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro”, JN tem acesso  ao  depoimento de Queiroz no inquérito que investiga vazamento de operação Furna da Onça. “Flávio Bolsonaro era deputado estadual e não era investigado. Mas um relatório do COAF apontou uma movimentação financeira suspeita na conta de Queiroz”, e então, a reportagem diz que Paulo Marinho afirma ter ouvido do próprio Flávio que um delegado da PF vazou informações antes de a operação acontecer. O foco é bem evidente nas declarações de Paulo Marinho. Depois, trechos em vídeo do depoimento de Queiroz são exibidos, falando da exoneração e da filha dele. De novidade, essencialmente, a matéria não tem nada. O diferencial é a estratégia de mostrar outras aventuras de Flávio. Vamos aguardar a de hoje, se houver…

PRISÃO EM 2ª INSTÂNCIA FOREVER

Quatro minutos para dizer que “Parlamentares pedem reabertura de comissão sobre prisão após condenação em 2ª instância. Pedido foi feito ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, do Democratas. A discussão da PEC na comissão especial da Câmara está parada desde março por causa da pandemia”. A notícia podia ser dada em um minuto, pois a novidade é exatamente o pedido de reabertura. Mas, ela entrou na defesa quase explícita da prisão em segunda instância, com Zileide Silva narrando e  explicando que o assunto se tornou tema de discussão no Congresso após a mudança de entendimento do STF e especialistas e deputados argumentando que ela é importante, pois colocaria meliantes imediatamente na prisão, sem tirar deles, no entanto, a possibilidade de defesa, “se” houver algum erro no julgamento. 

Uma resposta ao pronunciamento de Lula (explico depois por que), sem citá-lo em nenhum momento da reportagem ou dar seu caso como exemplo.  

Curiosamente, Rodrigo Maia, que se tornou fonte fidedigna e qualificada do JN, “procurado, não retornou a ligação”. Ou seja, dessa vez, não quis falar, já que ele ainda não decidiu se reabre ou não…

GRAU PREDATÓRIO DO GOVERNO

Duas reportagens mostraram muito claramente, sem menção direta ao governo, o quão prejudiciais algumas condutas governistas estão sendo para a população.

A primeira foi sobre a cobertura vacinal do Brasil: o país não atinge meta de vacinação das crianças. A reportagem ressaltou vários aspectos e perigos dessa conduta, de não vacinar, e salientou que informações falsas “estação levando o Brasil a perder uma de suas maiores conquistas”.  Segundo a matéria, o Brasil não atingiu a meta de vacinação em crianças de até um ano para nenhuma das principais vacinas e que Especialistas estão preocupados porque “não cumprir o calendário oficial de vacinas é como quebrar um pacto social pela erradicação de doenças”. Isso é muito relevante uma semana depois de o próprio presidente dizer que ninguém é obrigado a tomar vacina.

A reportagem centrou no ponto de que o Brasil tinha uma cobertura vacinal invejável – sem, obviamente, lembrar as ações de governos anteriores e como isso foi feito. A reportagem mostrou a queda na vacinação em relação às principais vacinas, essenciais para eliminar doenças como sarampo, tétano, coqueluche, meningite, hepatite, poliomielite. No caso da pentavalente, que previne cinco doenças, a cobertura não chegou nem a 70%. A reportagem mostrou ainda a queda acentuada a partir de 2018. Um medico infectologista ouvido diss que “tínhamos uma situação controlada e, de repente a gente passa a ter um descontrole total sobre essas doenças”.

Obviamente, a matéria poderia ser muito mais enfática e sair do âmbito de entendimento de que vacina é uma decisão individual e mostrar a relação direta entre governo que acredita em terra plana e cobertura vacinal, mas já foi um começo.

A outra matéria  que salienta o desgoverno mostrou o Pantanal em chamas, queimando, animais morrendo, tendo a região atingido o maior número de focos de incêndio em 10 anos. E falou diretamente nas queimadas ilegais como motivo para a tragédia, com uma bióloga mandando ver: 90% dos focos são fruto da ação humana. Os indígenas também falaram e nomearam os culpados: grandes fazendeiros que fazem queimadas. Nunca antes na história do JN…    

LAVA JATO

Punição a Deltan Dallagnol, pelo CNMP, por postagens contra Renan Calheiros teve boa repercussão e uma defesa bem velada, sem ênfase, ao ex-coordenador da Lava Jato. O Conselho Nacional do Ministério Público aplicou uma pena de censura. Foi uma matéria recheada de coisas técnicas para mostrar o caso e a decisão que coube a Gilmar Mendes em função do afastamento de Celso de Mello (em licença médica). E que Gilmar reabriu o caso, sem esperar pela volta de Celso de Melo, atendendo a um pedido da PGR. Ou seja, é fogo em Dallagnol. A matéria mostrou muitas imagens do ex-coordenador, mas nenhuma fala, apenas uma nota dele reproduzida de rede social. 

Mesmo com a tendência a proteger Dallagnol, a reportagem mostrou a fala certeira do relator, que afirmou que não é possível reduzir esse caso a uma questão de liberdade de expressão: “Reduzir esse caso a um debate sobre liberdade de expressão é ignorar os imensos riscos à democracia quando se abrem as portas para agentes não eleitos, vitalícios e inamovíveis disputar espaços, narrativas e, em ultima análise, o poder com agentes eleitos, dependentes do sufrágio popular”. Excelente fala e uma surpresa que tenha sido colocada assim, na íntegra. 

Logo na sequência, a Lava Jato do PR afirmou não cabe à  PGR ‘vasculhar’ dados em busca de investigados com foro. Segundo a matéria, a Força-tarefa afirmou que não cabe à PGR realizar varreduras periódicas no banco de dados da operação para analisar se pessoas com foro privilegiado foram investigadas na 1ª instância.