Outrora recheada de cenas simbólicas da pátria amada Brasil, a edição ressaltou assuntos frios, sem grande relevância, que dominaram o jornal e dividiram espaço com temas incômodos a Bolsonaro e sua trupe.

Vamos aos destaques:

PANELAÇOS PARA JAIR

Apenas no 4º Bloco, sem chamada na escalada, apareceu a informação de que o presidente Jair Bolsonaro havia feito “há pouco um pronunciamento em rede de rádio e TV pelo 7 de Setembro”. O JN  deu a notícia em 38 segundos, salientando apenas que Bolsonaro destacou a importância da democracia e o compromisso com a soberania e a liberdade. Mas o pronunciamento teve mais ingredientes, tais como a defesa do golpe de 64 e  a afirmação de que o Brasil é um país temente a Deus. O JN não mostrou nada disso, e Bolsonaro apareceu falando apenas por 17 segundos. 

Corte imediato para os panelaços, matéria que teve um minuto. “Durante o pronunciamento do presidente, houve panelaços em quase todas as regiões do país” – tivemos então, por um minuto, o som das panelas, as imagens das janelas dos apartamentos e a legendas mostrando as várias cidades do Brasil. Só a imagem e o som das panelas e dos gritos de “fora, Bolsonaro”.  

7 DE SETEMBRO SEM MÁSCARA

No 2º Bloco, após três matérias, a comemoração oficial do 7 de Setembro:  “Em Brasília, o 7 de Setembro foi comemorado com uma cerimônia no Alvorada”. Entra então Delis Ortiz falando que essa é a primeira vez, desde a redemocratização, que não há desfile militar, cancelado pelo Ministério da Defesa”, e “contrariando a recomendação do Ministério da Defesa para evitar aglomeração, o espaço foi aberto para quem quis assistir à cerimônia, e o presidente Jair Bolsonaro desfilou no Rolls-Royce, sem máscara e cercado de crianças”. As imagens mostraram rapidamente Bolsonaro desfilando com as crianças, desprotegidas; depois, cenas de Michelle Bolsonaro cumprimentando as pessoas e de Bolsonaro fazendo o mesmo, além da esquadrilha da fumaça. O tom foi uma mescla de cobertura burocrática com críticas à conduta do residente.  

COVID EM CENA

O tema voltou a abrir o jornal mostrando a evolução da pandemia, no país, com a queda de 17% no número de mortes em relação aos últimos 14 dias. Destaque também para a aglomeração no feriado e a Índia ultrapassando o Brasil em número de casos, mas não em número de mortes.

Para ressaltar ainda mais a insensatez da celebração oficial do 7 de Setembro sem máscara, no bloco da Covid no Brasil, matéria sobre descuido com uso da máscara mostrou alerta de infectologistas. A reportagem de 3 minutos destacou que, nessa fase em que todos estão saindo mais de casa, o uso correto da máscara é essencial – e que o “nariz pra fora é um deslize perigoso”, pois o vírus pode ficar suspenso no ar. Foi uma matéria muito técnica, com especialistas ressaltando que sem tampar o nariz, o uso não é eficaz.

No “Aqui Dentro”, a médica do trabalho enfatiza que “Quando deixo de usar máscara, eu deixo de cuidar do outro”. Mais uma cutucada nos que ignoram o uso.

TEMAS INCÔMODOS

Destaque para a gravidade das queimadas que castigam o Pantanal. A reportagem de 2 minutos mostrou cenas de animais queimados, com as patinhas machucadas, resgate dos veterinários, animais fugindo e ressaltou o caráter criminoso de muitos desses focos, originários de fazendas da região. Não mencionou o governo.  

Reportagem destaca pesquisa do IPEA que mostra que o impacto da pandemia na geração de empregos atingiu com mais força as trabalhadoras e que há mais mulheres sem emprego do que trabalhando. O eleitorado feminino é sempre um ponto nevrálgico para Bolsonaro, e a reportagem mostrou depoimentos de mulheres que perderam o emprego e não conseguem nem receber o auxílio emergencia, como Larissa, que tem dois filhos pequenos e depende da ajuda do pai. 

Matéria mostra que MPF nega pedido de Flávio Bolsonaro para mudar data de acareação entre ele e o empresário Paulo Marinho na investigação do suposto vazamento da operação Furna da Onça. A reportagem recuperou as denúncias contra Flávio e destacou a afirmação da defesa de que o senador não vai comparecer na data marcada – 21/09 – pois parlamentares  têm o direito de escolher dia, local e  hora   

Imediatamente veio a informação da decisão judicial (ocorrida na sexta-feira) de que a Globo não pode mais divulgar informações e documentos, sob segredo de justiça, “da outra investigação, a das rachadinhas”. Segundo a nota, a Globo vai recorrer. Apenas isso, bem seco, sem mais polêmicas. 

PERFUMARIA E MATÉRIAS PERIFÉRICAS

F1, Crise na Belarus, lobo-guará no Colégio do Caraça, justiça saudita condena 8 pessoas por assassinato de jornalista Jamal Kashog, que foi morto no consulado da Turquia, além do caso do líder russo e de incêndio na Califórnia. Tudo isso ganhou muito destaque na edição do 7 de Setembro.

SEM PRONUNCIAMENTO DE LULA

O JN nem mencionou a relevante fala de Lula, em redes sociais, para lembrar o 7 de Setembro. Nenhuma novidade, era de se esperar que o ex-presidente não tivesse mesmo espaço fora do quadro da corrupção. 

CAETANO ENCERRA O JN

O documentário sobre prisão de Caetano Veloso durante a ditadura militar, que estreou em Veneza, teve um bom destaque no jornal. A reportagem mostrou Caetano contando da prisão, se emocionando ao lembrar e se dizendo otimista com a capacidade do Brasil de superar o momento atual: “A gente em de dar conta de mostrar algo novo”.

E com o toque de esperança de que tudo vai mudar, o JN encerrou a edição. 

Boa noite.