Pode até parecer estranho pensar em letramento midiático e abordar as prévias do PSDB. Mas só parece mesmo, porque, se tomamos ( e eu tomo) o letramento midiático ou a educação para a mídia como um arcabouço que nos possibilita compreender criticamente o papel da mídia na sociedade, precisamos entender esses jogos e as relações de poder embutidas nesses movimentos,  senão, falar em letramento midiático vai ser apenas um exercício retórico, de discurso vazio, inócuo, sem efetividade. 

O arcabouço do letramento midiático, em linhas gerais, consiste no desenvolvimento, por meio de várias estratégias, da habilidade para acessar, avaliar, analisar e criar mídia em uma variedade de formas. E ele possibilita um conjunto de conhecimentos para que as pessoas sejam capazes de construir um pensamento crítico em relação à mídia. Mas vejam bem: essa aquisição de competências de letramento midiático não pode ser conceituada meramente como um conjunto de habilidades técnicas e operacionais. Não se trata disso. Para nos apropriarmos desse arcabouço precisamos fazer algumas ligações e leituras. Precisamos, por exemplo, compreender que há três aspectos principais que devemos considerar para buscar entender de fato o papel da mídia:

1 Há uma lógica de mercado que regula a prática da grande imprensa – há empresas por trás da notícia. Essas empresas precisam comercializar seu produto e garantir o lucro. 

2 A informação é um produto, um objeto mediado. Como objeto discursivo, ela é construída e repleta de sentidos. Ela não é preexistente e não está pronta, à espera de ser recolhida. 

3 A transmissão da informação envolve vários atores e não se dá de modo linear. Esses atores têm papéis atribuídos e constroem representações, que delineiam o modo como um acontecimento é narrado como informação.

A partir disso, vamos pensar também que:

  • TODAS as mensagens da mídia são construídas. Então, precisamos nos questionar sobre QUEM é o autor dessas mensagens? De onde ele vem, a quem se dirige, quais seus valores. Pensando que não estamos falando de sujeitos, pessoas, mas de grupos econômicos.
  • Na produção de CONTEÚDO, a mídia traz representações de realidade e embute pontos de vista nas notícias. Transmite valores (dos grupos) como se fossem informação.
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  • O campo midiático reconfigura, redesenha, ressignifica o campo político, o campo econômico, o campo social. 

Feitas essas introduções, vamos pensar então no tema do título: Grupo Globo vai transmitir primeiro debate das prévias do PSDB.

Aparentemente, nada demais. E tudo está sendo tratado assim mesmo, como algo corriqueiro, comum, normal, que ocorre todo dia. Todo dia. Mas não me cheira como algo normal. O maior grupo de comunicação do país, que tem um poder fabuloso e pauta as discussões políticas e econômicas, redesenhando os cenários, construindo e destruindo candidatos e presidentes, agora está  transmitindo debate das prévias de UM partido político?

Assim por acaso, num momento político turbulento, em que os atores se posicionam rumo a 2022, quando o governo Bolsonaro já caiu de podre e os que o apoiaram tentam saltar do barco furado? Quando os grupos de poder articulam na desesperada tentativa de viabilizar uma coisa chamada terceira via? O maior grupo de comunicação com um partido que apoiou o golpe de 2016 e que nunca foi penalizado pela mídia? Transmitindo prévias para escolha de candidato? Não se trata de debate entre candidatos, mas debate entre candidatos de UM MESMO partido, prévias para escolha do candidato. Nunca antes…

O debate será promovido pelo jornal O Globo, no dia 19 de outubro. E se é tudo natural, normal, nada mais normal e natural que transmitir também as prévias do PT, maior partido do país, diga-se de passagem, e colocar em evidência a aclamação a Lula.

Vamos pensar aí no papel da mídia reconfigurando cenários políticos?? Influenciando talvez numa escolha em que ela aposta para trabalhar na perspectiva da terceira via? Discutir o papel da mídia é também discutir coisas assim num país em que a concentração dos meios de comunicação é absurda.

O governador de São Paulo, João Doria, um dos concorrentes, tem tido um espaço nobre na cobertura do grupo que promove o debate. No dia 7 de setembro, por exemplo, diante do caos arranjado por Jair, o incomível, o político que apareceu em destaque na edição bombástica do Jornal Nacional falando da necessidade do impeachment foi ele mesmo, João Dória. O paladino da vacina, governador do Estado mais rico do país, bem quisto por grupos 

Como Riobaldo, eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa…