(Foto: Adriana Vieira)

Ontem, o jornal Estado de São Paulo publicou um novo editorial reeditando o “dilema” de 2018. Não vou entrar em detalhes sobre o texto em si, muitos já o fizeram (vejam análise de Letícia Sallorenzo), só quero pontuar algumas questões a partir dessa nova pérola editorialista, sob o título “A quem interessa a crise”.

  1. O ponto mais importante, algo em que venho batendo há muito, é o seguinte: a imprensa vai continuar normalizando o governo Jair (ainda que bata com alguns tapinhas mais intensos no presidente em alguns momentos e mostre aquela indignação republicana que nos faz arrepiar…). Isso porque, se realmente fizerem jornalismo, Jair não sairá sozinho, o que reforçará a percepção de todos os problemas existentes no processo eleitoral – e antes dele. Para manter a situação mais ou menos sob controle, é essencial o segundo ponto:
  2. Polarização: Lula e os petistas (representando aí todo o campo de esquerda) são os eternos radicais que estão no polo oposto a Jair. A polarização é uma construção discursiva, tal como o foi a corrupção – empacotada para ser levada efetivamente a todos.

    LUIZ INÁCIO –––––––––––––––––––– JAIR
  3. Polos assim colocados não são boas coisas para o “meu Brasil”. Pouco importa se um tem desejos de fechar o Congresso e o outro sempre teve atitudes republicanas (às vezes, até demais). A construção simbólica da ideia de pólos-que-atrapalham-o-país é o que interessa.
  4. É preciso firmar a ideia de que Lula e Bolsonaro se equivalem no radicalismo, na tentativa de levar o país ao caos. Portanto, apontam o mesmo radicalismo para um cara que saiu da prisão e não jogou ninguém nas ruas manifestando, ao contrário, está quietinho, namorando, viajando, costurando… e para o ocupante do Palácio do Planalto que divulgou vídeos incitando manifestações contra os poderes da República. Vai saber que critérios são esses que utilizam…
  5. Portanto, “Uma escolha difícil” + “A quem interessa a crise” = “Precisamos desesperadamente de uma alternativa”. Essa alternativa não existe ainda, o que há são possíveis candidaturas ainda fraquinhas.
  6. O editorial do Estadão é uma resposta ao mercado financeiro, depois de matérias e da jornalista da casa (que o fez brilhantemente e corajosamente) terem exposto a face nada republicana do atual ocupante do Palácio do Planalto. Que ele é o que é, todos sabem, mas daí a mostrar, fortalecendo o outro campo, já é uma história diferente. Então, prontamente, o Estadão tratou de mostrar que o outro cara, que está viajando, namorando, construindo pontes na Europa, é um radical de primeira linha.
  7. O outro cara, o tal de Luiz Inácio, está sendo diuturnamente chamado para a briga. E está ignorando os apelos. Isso está inquietando sobremaneira os adeptos da teoria da polarização – afinal, é preciso haver um radical barra pesada do outro lado para que ela se justifique. Para que não fique escancarado de vez que não há polos – há apenas um ex-capitão a quem deram plenos poderes.

Por último, fica esse marco simbólico de uma cena do carnaval. Ao fim e ao cabo, é disso que se trata. Daí decorre a desconstrução necessária.

P.S: Para esclarecer: quando falo em imprensa, não me refiro a jornalistas individualmente. Refiro-me a um bloco de poder. Uma máquina de produzir informação. Conglomerados que se estruturam e agem como atores políticos na disputa ideológica.