Quero tecer alguns comentários sobre a pesquisa XP Ipespe – traduzindo, do Mercado – sobre o governo Bolsonaro, a pandemia, as eleições 2022. Foram realizadas 1.000 entrevistas de abrangência nacional nos dias 29, 30 e 31 de março, com margem de erro máxima de 3,2 pontos percentuais para o total da amostra.

A pesquisa mostra uma situação ruim para o governo Bolsonaro e para ele próprio, com números negativos em alta – e números que envolvem desde a percepção em relação à economia até o desejo de mudança da forma de administrar o país.

A sondagem considerou quatro tópicos principais: (1) Política Nacional, (2) Conjuntura e Coronavírus, (3) Personalidades da Política, (4) Eleitoral.  

É uma pesquisa bastante completa, apesar do número pequeno de entrevistados (a do PoderData ouviu 3.300 pessoas – mas vale dizer que são metodologias diferentes), com muitas questões sendo colocadas.

Vou destacar algumas percepções mais gerais a partir dos dados. Vamos lá. 

ALTA CONTÍNUA DA REJEIÇÃO AO GOVERNO BOLSONARO

48% dos entrevistados consideram o governo ruim ou péssimo, na pesquisa anterior, eram 45%. Isso confirma a continuidade na trajetória de alta da rejeição ao governo de Jair Bolsonaro. Essa tendência, segundo a pesquisa, se iniciou em outubro: a avaliação negativa era de 31% naquele momento e saltou para os 48% de agora.

27% consideram o governo ótimo ou bom. Na pesquisa anterior, esse percentual era de 39%, queda também expressiva.

60% desaprovam a maneira de Bolsonaro governar o país, número que se eleva bastante desde outubro. Outros 33% aprovam a maneira de governar;  em outubro, esse percentual era de 47%. 

BRASILEIROS COM MEDO DA PANDEMIA

Segundo a pesquisa, nunca foi tão alto o percentual de brasileiros que dizem ter muito medo da doença: 55%. Interessante observar que o índice vinha se mantendo relativamente estável, em cerca de 40%, nunca com uma oscilação tão grande em relação ao medo. 

INTENÇÃO DE SE VACINAR

80% dos brasileiros dizem que, com certeza, querem se vacinar; em janeiro, esse percentual era de 69%. Apenas 5% dizem que não vão se vacinar, percentual que era de 11% em janeiro. Ou seja, os brasileiros estão voltando a encarar a vacina como algo de fato fundamental.  

LULA ULTRAPASSA JAIR 

Pela primeira vez na pesquisa XP, o ex-presidente Lula aparece numericamente à frente de Jair Bolsonaro na projeção de votos no primeiro turno. No levantamento anterior, Lula tinha 25%, e Bolsonaro, 27%. 

Tecnicamente, agora, estão empatados, mas com Lula à frente numericamente:

Projeção do primeiro turno:

Lula – 29%

Bolsonaro – 28%

Sergio Moro – 9%

Ciro Gomes – 9% 

Nas simulações de segundo turno:

Lula x Bolsonaro – Lula tem 42%; Bolsonaro, 38%

Ciro x Bolsonaro – 38% a 38%

Sérgio Moro x Bolsonaro – 30% a 30%

Ou seja, Lula é o único que vence Jair e está numa projeção de alta. Vejam no gráfico abaixo como todos caem, apenas Lula sobe.

 

PERCEPÇÃO DAS NOTÍCIAS

Esse é um item bastante interessante da pesquisa, que sondou a percepção das pessoas em relação ao que consomem como informação.

A pesquisa indaga: “Pelo que o(a) sr(a) sabe ou ouviu falar, as notícias que saíram recentemente sobre o governo federal e o presidente Jair Bolsonaro, na televisão, nos jornais, nas rádios e na internet foram”.

E 56% dizem que elas foram mais desfavoráveis.

Pelo quadro abaixo, é interessante notar que, nos momentos em que a imprensa bate em Jair e mostra toda a sua irrelevância no tratamento da pandemia, isso é percebido pelas pessoas – e os gráficos de aprovação e desaprovação refletem essa percepção.

Vejam, por exemplo, que a partir de agosto do ano passado, quando toda a imprensa sucumbiu a uma nova tentativa de acordo, cai bastante a percepção de notícias ruins sobre Jair Bolsonaro. 

 ECONOMIA NO CAMINHO ERRADO

Outro dado bastante interessante mostrado pela pesquisa – que possivelmente garimpou bem os entrevistados – é de que a economia está indo num caminho muito equivocado. 65% dos entrevistados dizem que ela está no caminho errado, e somente 23% dizem que a economia está no caminho certo. 

E vejam de novo que, a partir de agosto do ano passado, há uma melhora desse índice, exatamente porque o tema some do noticiário e não se fala mais em inflação, fome, desemprego. Agora, tudo volta à tona. 

Aumenta também a percepção em relação às dívidas – 36% acham que elas vão aumentar, contra 20% que acham que vão diminuir. Em relação ao emprego (ou seja, uma fatia bem específica dos entrevistados, a população que está empregada, lembrando que o desemprego no Brasil é de 14%), há um empate: 47% acham que há uma chance grande de manterem o emprego (mas esse índice também diminuiu bastante, pois era de 60% em março), e 45% acham que têm uma chance grande de perder o emprego. 

MAIORIA DESAPROVA ATUAÇÃO DE BOLSONARO NA PANDEMIA

58% dizem que a atuação dele para enfrentar o coronavírus é ruim ou péssima. 21% dizem que é ótima ou boa. 

PERSONALIDADES DA POLÍTICA

A pesquisa sondou a opinião dos entrevistados sobre todos os nomes que estão se colocando na disputa eleitoral de alguma forma. A pergunta foi: “Vou ler alguns nomes e gostaria que desse notas de 0 a 10 a cada um deles, sabendo que 0 significa que tem uma opinião muito negativa sobre ele e 10 que tem uma opinião muito positiva ou se o(a) sr(a) não o conhece suficiente para opinar”

Os resultados mostram Lula com 39% de avaliação positiva (nota de 7 a 10, segundo pergunta da pesquisa) e  41% de avaliação negativa. Bolsonaro tem 33% de lembrança positiva contra 46% de avaliação negativa. Sérgio Moro tem 30% de lembrança positiva contra 34% de negativa. 

DESEJO PARA A PRÓXIMA ELEIÇÃO

A pergunta feita foi: “O(a) sr(a) prefere votar para presidente da República, ano que vem, em um candidato”: 

E a resposta: 53% dos brasileiros disseram que querem votar em um candidato que “mude totalmente a forma como o Brasil está sendo administrado”.

15% responderam que querem um candidato que dê continuidade à forma atual como o Brasil está sendo administrado. Trocando em miúdos, apenas 15%, a tradicional fatia de Bolsonaro no eleitorado, querem que o modo de governo continue.   

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OBS 1: Na quarta-feira, amanhã, Bolsonaro vai se reunir com o grupo de empresários que fez a carta divulgada em março falando da necessidade de mudanças na condução da pandemia. É a fina-flor do mercado, os representantes do capitalismo tupiniquim. Com certeza, essa pesquisa esteve, está e estará nas discussões, eles vão mostrar que o país está afundando em todos os indicadores. 

Vão cobrar, mas podem oferecer mais grana para vacina, para talvez deter a volta do “demônio”. Ou não.  

OBS 2: Não tenho receio em dizer que a edição do JN de ontem, dia em que saiu a pesquisa XP – grande fonte e anunciante do jornal –, foi em absoluta sintonia com os dados trazidos pela sondagem.

A edição bateu em pontos vulneráveis e muito cruciais do governo Bolsonaro (de acordo com a pesquisa), depois de um período com destaque para as tentativas de uma tutela de Jair pelo do Congresso (Lira e Pacheco à frente), no sentido de controlar a pandemia (e o desastre presidencial). 

Vejam alguns detalhes:

  1. Escancarou o terror da pandemia (muitos especialistas falando dos número, e três pesos-pesados para dizerem que teremos o pior abril de todos os tempos – Miguel Nicolelis, Pedro Hallal e Dimas Covas –, com a previsão de 5 mil mortos por dia em abril. Nicolelis, que coordenava as ações contra a pandemia no Consórcio Nordeste, é uma figura bem rara no JN, apesar de sua relevância. Muitos dados foram mostrados, com destaque para essa projeção aumentada em relação ao número de mortos. 
  2. Mostrou em destaque a volta da fome ao Brasil, com pessoas mostrando as panelas e a geladeira vazias (apesar do tom de “solidariedade” embutido na matéria. Falarei sobre isso em outra análise). A fome estava ali, bem real, bem palpável.   
  3. Ressaltou a economia ruim: desemprego, inflação, construção civil em péssima situação (ou seja, economia não reage). Tudo volta à cena no jornal. 

E Jair Bolsonaro não apareceu em nenhum momento da edição.

Um zé ninguém completo, como mostrou a pesquisa.