A eleição de Joe Biden nos EUA coloca nosso troglodita raiz em uma condição nada boa. Já no discurso como presidente eleito, Biden enfatizou questões vitais: combate à pandemia com a ciência, fim da “era da demonização”, meio ambiente, que é preciso parar de tratar oponentes como inimigos, combate ao racismo, combate aos preconceitos contra os LGBTQ+. E todas essas questões fazem parte do enredo medonho do bolsonarismo. Por aqui, empolgada com os resultados do Norte, a mídia corporativa se empolgou sobremaneira com a eleição. E viu nela a brecha pra se livrar de Jair.

Ontem, o JN dedicou 10 minutos, em três reportagens, às relações entre Brasil e EUA a partir da eleição de Biden. Não dourou a pílula, mostrou o tamanho do isolamento de Jair. Criticaram a política externa do governo, afirmaram que as relações entre EUA e Brasil sempre foram próximas – citando e mostrando imagens dos governos FHC, Lula (em brevíssimos segundos) e Dilma –, mostraram o desastre da atual política, enfatizaram a política ambiental. Pela voz dos especialistas, ficou clara que a política externa do Brasil “labuta” na esfera da fantasia, das teorias conspiratórias. Resumindo, o jornal já começou a mostrar que a política de Jair é um desastre. E não tenho dúvida de que isso vai ficar mais empolgante a cada dia.   

Ontem e hoje, os jornais e telejornais brasileiros se mostraram eufóricos com a derrota de Trump e a vitória de Biden. Eufóricos mesmo, ressaltando as qualidades do novo presidente e a derrota do ídolo de Jair.

E, claro, já começam a se articular para emplacar a alternativa ao fim da “era da demonização” por aqui. E quem representaria a salvação para nós, pobres mortais do Sul? Uma chapa Huck-Moro, como anuncia o UOL e a Folha, com empolgação, falando em “dois dos principais nomes do centro no espectro ideológico na política”. Eu diria oportunistas, tentando ser bem elegante. 

Mas vamos lembrar alguns detalhes, já que a mídia não quer ter memória. Moro foi ministro de Jair, apoiou Jair, garantiu a eleição de Jair, garantiu a prisão de Lula, apoiou o governo de Jair. Sumiu do governo tentando fazer cena e dizer que saía porque era bom moço e não compactuava com os feitos de Jair. Não deu certo. A investida na tal reunião ministerial foi por água abaixo.

Huck é o cara da propaganda de banco e financeira. E apresentador da Globo. Aquele de cujo camarote, na abertura da Copa de 2014, partiu o famoso grito dos coxinhas contra a então presidenta Dilma Rousseff.  No Estadão, o apresentador marido de Angélica – que também ganhou programa novo na TV –  conversa sobre eleição com Fareed Zackaria, momento super contemporâneo e ilustrado. Bolsonaristas de sapatênis, como muito bem disse Kennedy Alencar, que já se articulam, alvoroçados. 

Outros “ilustrados” por aí pegam carona e já se apressam em dizer que acaba a idade das trevas e da ignorância que tomou conta de alguns países – assim do nada, claro, como se a ignorância não tivesse pai nem mãe, não tivesse sido alimentada e cultivada na construção do ódio ao PT, à política, aos movimentos sociais, à esquerda. 

Mas sabemos, e muito bem, o que a mídia corporativa e seus apoiadores fizeram no verão passado: ajudaram a dar um golpe e ajudaram a colocar o ogro abilolado no poder. E a derrota do ogro-mor não os redime disso. Portanto, fiquemos de olho nos bolsonaristas de sapatênis que a mídia vai tentar emplacar.