A Folha de S. Paulo de hoje, em seu editorial, afirma que as mensagens vazadas de conversas entre os procuradores e o então juiz Sergio Moro mostram que o ex-presidente Lula “não teve um julgamento imparcial” e que havia uma “proximidade inaceitável” entre o juiz e os acusadores. 

Diz o editorial que a Operação Lava Jato “extrapolou” e que, “à medida que mais mensagens vão sendo examinadas, mais heterodoxias vão sendo descobertas”. Antes de prosseguir, fui ao dicionário, porque não é fácil acompanhar o linguajar empoado da Faria Lima – e descobri então que o substantivo “heterodoxia” é o caráter do que é heterodoxo, ou seja, aquilo que se desvia de  padrões ou normas. Portanto, traduzindo o editorial, a Operação Lava Jato escapuliu um pouquinho das normas e dos padrões que deveria seguir na condução de investigações.  

O editorial prossegue então e coloca, aqui e acolá, umas pinceladas mais fortes, mas acaba fazendo mesmo uma defesa velada ao dizer que “se a Lava Jato nem sempre se comportou como deveria, há ainda mais evidências de que os esquemas de corrupção por ela investigados eram terrivelmente reais”. 

E fecha com chave de ouro, ao velho estilo meio cínico da Faria Limer: “Infelizmente, surgem no momento sinais inquietantes de que o Brasil pós-Lava Jato corre o risco de retornar ao velho padrão de impunidade, no qual vistosas operações contra a corrupção se perdem nos escaninhos do Judiciário”.  Que preocupação louvável, não é mesmo?

Pois bem. Para além de criticar a empáfia linguajeira e o cinismo do editorial, eu quero dizer bem claramente que as mensagens que vêm à tona não apenas evidenciam “heterodoxias” e que a Lava Jato não apenas “extrapolou”. As mensagens agora disponíveis pra todo mundo ver escancaram um esquema canalha que tinha, como objetivo evidente, punir a qualquer custo um determinado ator e tirá-lo da cena política do país. Esse ator, o ex-presidente Lula, era um fortíssimo  candidato à presidência da República nas eleições de 2018. 

E esse esquema que “extrapolou”, segundo a Folha, contou com apoio TOTAL e IRRESTRITO da imprensa corporativa brasileira, que NUNCA questionou qualquer ato, qualquer vazamento de áudios, qualquer investigação, qualquer condução coercitiva, qualquer invasão a domicílios, qualquer apreensão de tablet de neto. Nunca questionou. Pelo contrário. A imprensa brasileira, de A a Z, agiu como assessora da Lava Jato, quando não como consultora de suas ações.

Nunca questionou, por exemplo, o vazamento de áudios, com conversas particulares de dona Marisa Letícia, ex-primeira-dama, com seu filho. Pelo contrário: deu ampla divulgação aos áudios, expondo as figuras, que não ocupavam nem mesmo cargo político e que não falavam nada que interessasse ao que estava sendo investigado.  Nunca questionou, outro exemplo, a liberação de trechos de uma delação premiada requentada às vésperas de uma acirrada eleição presidencial. A lista de questionamentos não feitos é enorme e muito comprometedora. Porque, se a Lava Jato chegou até aqui é porque a imprensa brasileira não fez o que deveria ter sido feito e apoiou os procuradores e o juiz de primeira instância incondicionalmente. Foi absolutamente conivente com as tais “heterodoxias” dos procuradores.

Portanto, no lugar de editoriais empolados e escorregadios, a Folha – e toda a imprensa corporativa deste país – deveria assumir a culpa que lhe cabe nesse processo. Sem a imprensa a aplaudir e a criar cenas e a agir como assessora, a Lava Jato não teria feito o que fez, não teria chegado aonde chegou. As ações da Operação e o conluio entre Moro, procuradores e a imprensa nos legaram Jair Bolsonaro e levaram o Brasil a essa tragédia sem precedentes. Isso sim deveria ser inquietante.