O diretor de Redação da Folha de S. Paulo, Sérgio Dávila, em coluna de opinião ontem (30-08), disse que o editorial “Jair Rousseff”, publicado no dia 21-08, foi uma “escolha infeliz que tentava resumir a pertinente comparação econômica sem levar em conta que colocava na mesma expressão o sobrenome de uma democrata que foi torturada pela ditadura militar  e o prenome de um político apologista da tortura, que defende não só aquele regime como suas práticas vis e sanguinolentas”.

Em resumo, o editorial em questão comparava a política econômica do governo Bolsonaro à política econômica do governo Dilma, tendo como ponto-chave a questão do controle de gastos. 

O texto de Sérgio Dávila tenta justificar a escolha do título, mas, sobretudo, ataca de forma contundente o excelente artigo de Janio de Freitas criticando o editorial e a postura da Folha (publicado em 29-08).

Não vou me ater ao embate, quero somente deixar claro que o tal editorial não foi uma “escolha infeliz”. Escolha infeliz é você tentar usar sapato de bico fino para ir a uma festa estando com o dedão do pé inflamado. Comparar, no título de um editorial, uma ex-presidenta que foi torturada na ditadura a um atual presidente que defende a ditadura e inclusive fez apologia ao torturador Brilhante Ustra, “o pavor de Dilma Rousseff”, não é uma escolha infeliz. É uma escolha deliberada. Estruturada para surtir um certo efeito desejado. É uma escolha plena de intencionalidades. Não é aleatória, tampouco um descuido. Nada em discurso é por acaso. 

A linguagem tem o papel de organizar representações mentais para a nossa experiência. Portanto, o modo de dizer influencia o modo de pensar sobre determinados temas, assuntos, personagens…

Destacar que Jair Bolsonaro assemelha-se a Dilma Rousseff, em qualquer aspecto que seja, desconsiderando-se rotundamente a biografia de cada um, não é escolha infeliz. As escolhas das expressões linguísticas, os modos de estruturar determinadas abordagens, de dizer sobre determinados personagens nunca são escolhas acidentais, “infelizes”.  

“Jair Rousseff” é uma construção plena de simbologia. Os dois “erraram”, os dois “gastam demais”, os dois “não controlam o teto de gastos”. A construção, por fim, equipara as duas propostas de país representadas pelos dois personagens políticos. Assim sendo, infere-se que, pelo descontrole em relação aos gastos, Jair pode ter o mesmo destino de Rousseff, afastada tão somente porque “pedalou” (é o que querem fazer crer).

Os sentidos são construídos por sujeitos históricos que ocupam posições enunciativas igualmente históricas e sociais (como lembrou hoje o querido Adail Sobral). 

A construção “Jair Roussef” enuncia-se a partir da Faria Lima. Para a Faria Lima e adjacências. E não é fruto de uma escolha infeliz. 

P.S.: A capa de ontem da mesma Folha de S. Paulo mostra que o jornal sabe muito bem quem é Jair e quem é Rousseff…