Jair nada e chega à praia, no primeiro dia do ano. Nada e promove aglomeração, confusão, gritos de claque. A cena toda parece bem encenada, banhistas (a maioria homens) gritando “mito”, com celular em punho pra capturar a cena e jogar nas redes sociais rapidinho. Jair é só sorriso. O assunto se espalha e gera polêmica. Para além de discutirmos se é efetivo ou não mostrar repetidamente as cenas jocosas e desrespeitosas do presidente da República, vamos pensar por que Jair sorri e nada na praia.

Jair é um fingidor contumaz, um produtor de cenas pra distrair. Ele precisa produzir essas cenas de um cotidiano normal, que mostram despojamento e proximidade com a população – gente como a gente – para fugir dos problemas reais.

Ele precisa fingir normalidade para manter sua base bélica cativa e para tirar foco de questões muitíssimo sérias. Por exemplo:

  • Não temos perspectiva de início de vacinação, tampouco um plano eficaz. Estamos muito atrasados nesse sentido 
  • O governo não comprou número suficiente de seringas, e isso já começa a aparecer para a população de algum modo
  • A Covid está sem controle no Brasil, e a situação vai se agravar muito em janeiro
  • Bolsonaro assinou medida provisória que altera o limite de renda do BPC (Benefício de Prestação Continuada), o que implica milhares de idosos e pessoas com deficiência sem acesso ao benefício
  • O auxílio emergencial acabou em dezembro
  • Começam a faltar remédios essenciais, para outras doenças, que eram distribuídos pelo governo gratuitamente. São remédios caros para tratar reumatismo, artrites, doenças cardiovasculares, diabetes e várias outras
  • Desemprego bate recorde após recorde, e os jornais nem falam mais em economia. Reforma? O que é isso?
  • Biden assume no dia 20, e isso pode implicar sanções ao Brasil em função do descaso total com o meio ambiente

A lista é grande, e problemas não faltam. Todos eles respingam na base de apoio de Jair, inclusive na elite que o manteve até aqui.

OBS 1: Percebam que os filhos de Jair saíram de cena. Carluxo, super ativo nas redes sociais, está desaparecido. Os outros tampouco aparecem. Recuo estratégico.

OBS 2: Na semana após o Natal e antes do réveillon, o Jornal Nacional já dimensionava o problema da explosão da Covid ao anunciar que a “memória de um pesadelo” estava de volta com a 2ª onda da doença. Ou seja, as perspectivas não são boas. Sem vacina e sem seringas, enquanto vários países já começam a vacinação, a conta do agravamento da pandemia pode sim cair no colo do governo, do presidente que ri na praia.

Voltando à cena de Jair e seus asseclas marombados na praia, um bom exercício seja talvez pensar em propaganda contrastando as cenas de um Brasil à deriva, do tipo:

Jair sorri na praia, mas…

…dona Joana chora na fila da farmácia popular, porque o remédio caro pra artrite, que ela recebia de graça do governo, acabou

…seu Pedro chora na fila do INSS porque, segundo o decreto do presidente, ele não vai mais ter direito ao dinheiro do BPC, que é pago aos idosos de baixa renda

…Zuleica chora em casa porque sabe que a filha Luana, que é diabética, não terá acesso tão cedo à vacina, porque o governo nem conseguiu comprar as seringas

… Elizabeth chora na porta do hospital onde o marido acabou de morrer por causa da Covid. Ela e ele negavam a doença

… a manicure Claudia chora porque o auxílio emergencial acabou, e ela não tem mais renda para pagar as contas    

Enfim, neste comecinho do ano, essas são apenas algumas questões para aprofundarmos questionamentos e reflexões que são e serão essenciais.